O puxa-saco é um ser onipresente. Ele está em todos os lugares. Às vezes, anda disfarçado, meio camuflado. Mas bastam os holofotes da popularidade para ele aparecer. E não há ambiente mais propício para isso do que uma festa. Repare quando você for a qualquer tipo de festança.

Eu reparei em tudo.

Puxa-saco, lambe-botas, babão, bajulador... Eles são iguais, sem nenhuma criatividade. Sempre se vestem da mesma forma. Cabelos penteados para o lado direito, bigodinho bem aparado, óculos redondo, camisa listrada (ou de bolinhas azuis), cinto preto, calça jeans e sapatos marrons. Geralmente são bem alinhados, com roupas combinando com o resto dos acessórios. Tudo para agradar um certo alguém.

Eles até que são simpáticos, vai. O problema é o excesso de simpatia; isso é o que mais desagrada as pessoas. Os bajuladores querem agradar a festa inteira e detalhe – todos ao mesmo tempo. Eles nunca param em um único lugar. Estão sempre rodando na cola do anfitrião. Quem não conhece esse tipo de gente até pensa que o babão é o responsável pelos pormenores da festança. Coitado.

O ponto máximo da festa é quando o aniversariante chega. Meu Deus! Que coisa mais interessante. O mundo simplesmente pára. O Planeta Terra deixa de girar por alguns segundos. O bajulador-mor não respira até que seu alvo perceba a sua presença ali por perto. Pronto. Quando isso acontece, o puxa-saco atinge o seu “orgasmo funcional”. O sorriso já estampado no rosto ganha proporções gigantescas.

Nem mesmo nas horas do cumprimento ele deixa o aniversariante em paz. Ele tem que estar nas proximidades. E sempre acaba por abraçar (novamente) os convidados e agradece a presença de cada um, dizendo que é um prazer tê-los em um momento tão especial como aquele. Ah, ele também apanha o presente da mão do aniversariante e diz que está guardando todos no quartinho dos fundos.

Quando o garçom passa, o babão trata logo de apanhar alguns quitutes para dar ao anfitrião. Nessa ocasião, um comentário sempre escapa. “Nossa, que delícia esse daqui, né? Come para o senhor ver. Um deleite”. Até mesmo o vocabulário de um puxa-saco é diferente. Ele sempre utiliza palavras nunca ditas em um ambiente tão informal como o de uma festa. Quer ser polido ao extremo e, às vezes, enaltece-se de dizer vocábulos que nem ele mesmo sabe o que significam.

O puxa-saco é um porta-voz voluntário. Sempre está atento ao que é falado. E, se necessário, acaba completando a frase. Elogios? Nossa, ele tem um leque de opções. Tem hora que não consigo entender de onde o bajulador tira tantos adjetivos. Parece que revira o dicionário antes de entrar em cena. Ele é um exagero. Tudo é formidável, esplendoroso, magnífico, belíssimo...

Ah, e eu já estava me esquecendo das fotos. Ele está em todas e sempre com a mesma feição – abraçado ao aniversariante como um parasita. Por ele, a festa teria apenas ele e o anfitrião. O babão acha os outros convidados chatos. É verdade. Só porque os outros convidados tiram a atenção de seu “amigo”. É um legítimo chato disfarçado de simpatia.

Enfim, a festa acabou. Os convidados foram embora...E eu resolvi esperar mais um pouquinho. Precisava tirar apenas mais uma dúvida: será que o puxa-saco ia atuar como chofer do seu grande amigo anfitrião, abrindo e fechando as portas do carro? Tudo indicava que sim. Mas não. Ele foi junto.           

Sou adepto aos lanches. Aliás, sou adepto à vida prática. Os mais saudáveis que me perdoem, mas eu adoro um X-burguer. Mas não quero aqui discutir as “boas maneiras” da alimentação. Sei que um simples e inofensivo X-burguer não substitui um bom prato com arroz e feijão. Porém, preciso dele para contar uma história.
Estou atravessando uma maré de azar danada na hora de fazer os meus pedidos alimentícios. Tudo porque ninguém me dá ouvidos quando vou falar. É isso. Na semana passada fui à lanchonete da esquina para comer alguma coisa. Estava atrasado para um compromisso. Precisava de algo prático, que não levasse muito tempo para ser feito. Optei, então, pelo X-burguer. Ele salvaria a minha vida naquele dia.
- Por favor, um X-burguer sem maionese e no pão francês!
- É pra levar? - perguntou a mocinha.
- Não. Vou comer aqui mesmo. É que estou atrasadíssimo. Preciso de algo bem rápido.
E lá se foi a simpática moça da lanchonete com o meu pedido anotado num pedacinho de papel.
Horas depois...
- Está aqui o seu lanche, amigo.
A surpresa.
Abri vagarosamente o lanche. Faltava alguma coisa ali dentro. Pasme: era o hambúrguer. Eu estava frente a frente com um X-burguer sem hambúrguer.
- Ué, onde está o hambúrguer do lanche?
- Ah! Mas no X-burguer vai hambúrguer?! - disse, com aquela cara lavada.
“Não, não vai não. No X-burguer vai leite em pó”, pensei. Mas achei que o silêncio registraria a minha revolta. Não satisfeita com a mudez de pura indignação, ela ainda foi perguntar à patroa, com o meu lanche na mão, se no X-burguer tinha hambúrguer. Tudo isso porque eu estava com pressa.
Pra falar a verdade, acho que consegui superar esse trauma. Num outro dia, resolvi não arriscar. Pedi um almoço de verdade: o tradicional arroz com feijão, acompanhados de bife e batata frita. Detalhe: sem cebola.
- Tudo bem! Pedido anotado. Um bife sem cebola saindo daqui a 15 minutos - disse o rapaz do restaurante.
Outra surpresa.
Adivinha? Cebola. Muita cebola. Era quase impossível ver o bife no prato por causa da quantidade de cebola. Pensei em ligar e falar “poucas e boas” para o rapaz. Mas, pacientemente, fui tirando uma por uma. E o mais lamentável é que esse episódio vem se repetindo com certa freqüência.
Já pedi várias feijoadas sem couve que vieram com muita couve. Já pedi vários strogonoffs sem champignon que vieram com dezenas de champignons boiando no prato. Que raiva!
Estou desistindo de fazer pedidos. Confesso. Ninguém me ouve. Acho que o freguês nunca tem razão – e muito menos ouvido. Um horror. Isso é uma atrocidade à classe consumidora. Um legítimo desrespeito, isso sim. Quer saber, acho que já desisti mesmo. Os argumentos deste parágrafo já me convenceram.
Vou evitar ao máximo pedir as coisas nos restaurantes, lanchonetes e padarias. Os vendedores não me escutam mesmo! Sou mais ir ao restaurante self-service. Mesmo assim, acho que me convém desconfiar ao extremo da plaquinha que indica “spaguetti”, pois ali deve ter uma bela sopa de feijão. Estou perdido mesmo, sem esperança.
Ah, e esqueci de relatar: a mocinha simpática da lanchonete trouxe o meu (pseudo) X-burguer sem ser no pão francês. E com muita maionese.

A segunda-feira Acho que sou um brasileiro às avessas. É, às avessas mesmo. Sou assim simplesmente porque eu gosto da segunda-feira. Pronto. É isso. Muitos vão me repreender, dizendo mil coisas contrárias à segundinha. Prefiro nem citar aquelas frases prontas e embaladas sobre esse pobre dia. Não entendo por que recriminá-lo dessa forma tão impiedosa! Afinal, é um dia como outro qualquer. Ou não.
Eu me apaixonei pela segunda-feira não faz muito tempo. Como todos aqueles que se apaixonam, também não sei dizer o porquê. Simplesmente me apaixonei. Paixão a primeira vista, sabe? Meu encanto deve ter sido pela tranqüilidade que esse dia representa. Deve ser por isso. Acho a segunda-feira um dia calmo, bem sereno.
Apesar da segundinha representar o começo da semana, tenho a sua imagem como a de uma velhinha nos seus últimos momentos de vida. O seu rosto brando, com olhos brilhando, dando a sensação de uma eternidade talvez inexistente. A segunda é um dia de boa índole, ao contrário da desejada sexta-feira.
A sexta é o dia dos infartos, do “tudo pra ontem”, dos lugares lotados, das filas intermináveis, do calor insuportável, dos congestionamentos, do pedágio cheio, do estresse à flor da pele, do mau humor, da preocupação exagerada, da pressão, dos bancos cheios, dos problemas, dos finais de namoro, das desilusões amorosas, das chuvas que alagam as cidades... Tudo pela pressa de se chegar a algum lugar. Um verdadeiro horror!
Por isso que prefiro a segunda-feira...
Porque posso ir ao shopping sem ficar rodando horas a fio atrás de um lugar para estacionar o carro. Porque posso ir ao cinema sem ficar horas na fila da pipoca e do refrigerante. Porque posso ir à praça de alimentação sem aquela neurose de um fast food. Porque posso sentar e escolher - com muita tranqüilidade - o que vou jantar. Só por isso.
Sinto-me exclusivo andando pelas ruas da cidade na segunda-feira. Parece que tudo é meu. Somente meu. No bar, o garçom parece trabalhar à minha vontade. O farol da avenida parece ficar verde só para me dar passagem. Aliás, adoro viajar na segundinha: as estradas ficam livres e até posso escolher em qual cabine do pedágio parar.
Na cultura popular, no entanto, a segundinha é mal vista porque é o primeiro dia de trabalho após o descanso do final de semana. Mas pobre daqueles que não entendem a minha amiga segunda-feira. Os chefes, por exemplo, que chegam com os olhos cerrados de raiva, com a boca sem uma pronuncia de alegria sequer. E pensar que esse ódio todo existe só por causa do recomeço.
Eles não entendem que a segunda-feira é um tempo de liberdade. Ela permite a renovação. Tudo pode começar na boa segundinha. O ar desse dia é mais puro, mais leve. Pode reparar. É o tempo do céu mais limpo. Aliás, nas religiões pagãs antigas, esse dia era dedicado à Lua. A segunda-feira é chamado de Lunes em espanhol, de Monday (junção de “moon day”, dia da lua) em inglês, e Dies lunae em latim.
Sei que não te convenci com as minhas doces palavras sobre a segunda-feira, paciente leitor. Eu sei. Pode me xingar. Você pode muito bem arrumar argumentos contra a segunda-feira. Tudo certo. Eu sei que sou uma exceção. Sou um brasileiro às avessas.

 

Não consigo encontrar o porquê exato. Encontro, sim, uma série de “talvez”. Talvez para confortar minha alma das injustiças deste mundo. Talvez para acalmar minha vontade quase insuportável de gritar qualquer coisa. Talvez para divulgar minha loucura incontrolável. Talvez como um simples desabafo para controlar minhas angústias.
O escrever é tirar o peso do nosso abstrato. É querer mesmo atingir o impossível. Colocar as palavras no papel é transferir as soluções do improvável para o mundo real. Ora escrever é descarregar o não acontecer para a nossa realidade. Ora é uma doce e aconchegante viagem nos acordes da imaginação. Escrever é música; é um gostoso vai-e-vem de idéias.
Quando escrevo, sinto-me em outro mundo. Fico alheio à minha volta. Não percebo o acontecer reais das coisas. Perco o feeling do factual. Sou arremessado para um lugar indescritível, onde vejo a imaginação personificada. Nesse lugar, observo apenas aquilo que eu sempre desejei. Vejo também as palavras. Eu posso tocá-las. E tudo me lança para a sensibilidade; para um lugar onde a perfeição passeia de mãos dadas com a felicidade.
Escrever é simplesmente abrir o cadeado da imaginação e deixá-la ser levada pelos ventos da inspiração. É apanhar as idéias no meio da ventania com as mãos da imaginação, com o coração da perfeição e com os pensamentos do bem. Escrever é ficar vulnerável às idéias. É ganhar percepção para uma vida que poucos conhecem. Escrever é ter a observação aguçada para um simples e “desprezível” acontecer.
A loucura fica à flor da pele quando a idéia surge rasgando o real. Pensamentos confusos são pensamentos corretos, totalmente ordenados. A insanidade organizada é a desorganização em transe. É um ir e vir de algo abstrato. A consciência é a inconsciência camuflada. É o certo fantasiado de duvidoso. É a perfeição misturada à imperfeição. É quando a verdade fica nua e crua em frente à mentira. Escrever é uma terapia momentânea para a loucura.
E assim vai... Até quando nada mais tem sentido.
Escrever é simplesmente isso.

 

Sempre defendi a dignidade dos homens. Naquelas famosas rodas de discussão com as amigas, o discurso jamais mudava. As palavras formavam um recheio de boas recomendações e ataques azedos às mulheres. Nunca me esquivei de encher a boca ao soltar o verbo defensivo. No entanto, os fatos me fizeram um pouco imparcial. Eis que surge a sinceridade. Os amigos que me perdoem, mas preciso admitir as nossas escorregadas.
A história começou com um telefonema num sábado ensolarado de outono. Era um grande amigo com um convite irresistível. Uma festinha com as amigas do tempo da faculdade. Não tinha nada demais. Apenas mais um divertimento à vista. Mesmo assim, procurei uma boa desculpa para desmarcar o compromisso já firmado com a namorada: disse que estava indo ao sítio para uma reunião de família. Ok. Tudo certo.
No carro, em direção à festa, cuidados mais do que necessários. Vidros fechados para disfarçar a mentira. E assim começou a peregrinação da falsidade. Passamos na casa de mais dois amigos. O esquema: nada diferente. Os óculos escuros ajudavam a trazer mais tranqüilidade para a perigosa operação. As desculpas? Jogo de futebol, uma tarde de estudos para a prova da faculdade e uma visita na casa da avó.
Para as namoradas, o adiamento de um encontro. Para nós – homens mentirosos – a festa. E sabe que os reis da mentira até que foram bem recebidos no churrasco?! Saborosos pedaços de picanha no prato, boa conversa, ótimas companhias. O sorriso de felicidade momentânea fazia parte da aparência de bom moço. Os celulares foram desligados para não dar brecha à dolorosa verdade. Normal para uma situação de risco como aquela.
Mas o relógio da parede da cozinha já denunciava o próximo passo: a estrada. Era hora de voltar. Abraços ali, beijos acolá. Tchau. Pela estrada, um festival de histórias que marcaram aquele sábado (nem tanto) inesquecível.
Tudo certo mesmo até o primeiro celular ser ligado. Segundos depois, ele tocou.
Primeira desculpa (com a voz melosa).
- Ah, amor, estava jogando bola; por isso, que desliguei o celular.
Segunda desculpa (bem rápida e, talvez, incontestável).
- No sítio onde eu estava não pegava celular.
Terceira desculpa (uma pergunta com a resposta nas entrelinhas).
- Como posso me concentrar nos estudos com o celular ligado?
Quarta desculpa (um pouco forçada, mas que deu certo).
- Tive que dar atenção à minha avó. Achei melhor desligar o celular!
O final de cada história foi feliz, como sempre. E nós, homens, somos mesmo cachorros – como sempre.

Sempre achei que o xaveco fosse uma coisa tipicamente masculina. Errei. Confesso: eu tropecei nos meus próprios pensamentos machistas. As minhas certezas transformaram-se num equívoco bárbaro. A vida me fez enxergar que o mundo não gira em torno da “suprema” vontade masculina.
Vou contar como cheguei a essa conclusão.
Há um tempo conheci uma moça pela internet. Aos poucos, fomos nos descobrindo como dois adolescentes vivendo a plenitude da primeira paixão. Tudo muito lindo. Flagrei-me, várias vezes, acessando o seu álbum virtual para admirar seus olhinhos apertados, sua boca maravilhosa...Acho que eu estava apaixonado.
Mas chegou o momento que nem mesmo as longas conversas pelo telefone tranqüilizavam os meus batimentos cardíacos. A vontade de conhecê-la era enorme. Resolvemos, então, marcar um encontro. Peguei o carro e fui para São Paulo. Combinamos de nos encontrar num final de tarde no parque Trianon, na incansável avenida Paulista.
Ao vê-la pude confirmar tudo o que eu imaginava. Linda. Maravilhosa. Conversamos por longos minutos, talvez horas. O tempo, para mim, havia parado naquela tarde de outono. Quando não havia mais palavras, rolou um beijo. Delicioso. Senti-me como um personagem de final de filme. A sensação de perfeição poderia ser muito bem traduzida na canção Kiss Me, do grupo Sixpence None The Richer.
No entanto, a realidade foi diferente. Infelizmente. Durante um abraço apertado ela balbuciou palavras estranhas a um ouvido masculino. Disse que eu era o homem de sua vida, que queria passar o resto do tempo comigo, que éramos almas gêmeas, que gostaria que morássemos juntos... Fiquei surpreso (e desconfiado) com tantos verbos diretos para um primeiro encontro. Era a primeira vez que eu estava sendo “xavecado”.
Sou um machista barato. Eu não aceitei as palavras que a linda moça me disse ao pé do ouvido, de forma romântica, naquele fim de tarde paulistana. Fui covarde, talvez. Eu me esquivei de um xaveco feminino por puro preconceito. Mulher também pode “xavecar” um homem, oras bolas!
Pena que essa conclusão chegou tarde demais.
Minha paixão foi-se embora. Evaporou-se através do suor frio que escorria pelo meu rosto. O encanto havia simplesmente acabado. Um egoísmo – de pura masculinidade, certamente – fez um provável promissor relacionamento ir ralo abaixo. Eu recusara as doces palavras de uma mulher puramente por achar que ela deveria, apenas, ouvir às minhas cantadas. Por ter dito tudo aquilo, duvidei de seus sentimentos. Triste engano. O machismo não me deixou acreditar na transparência feminina.
E a confirmação da derrota me chegou por e-mail dias mais tarde. Ela disse que não sentiu tanto entusiasmo de minha parte. “É melhor eu tentar te esquecer mesmo, afinal, parece que você não acreditou nos meus sentimentos”. Achei melhor nem responder. Fiquei em silêncio.

             Eu vivi um dia de espera. Foi horrível. Tive a sensação de uma eternidade espremida em 24 horas. Para mim o tempo havia simplesmente parado. A vida estacionou no acostamento. De longe, eu observava o mundo andando, correndo. E eu, parado.
             Meio-dia. Combinara de encontrar um amigo na avenida Paulista, próximo ao Paraíso. Uma loucura! Os carros passavam voando baixo para conseguirem escapar do congestionamento. Estava começando a ficar tonto com toda aquela movimentação. Tive a impressão que até mesmo os prédios giravam. Mesmo assim fiquei lá, em pé sob um sol que ardia sem piedade, por mais de uma hora.
             Para tentar passar o tempo, puxei conversa com o pipoqueiro que estava na saída do metrô. Depois foi a vez do porteiro do prédio ficar com pena de mim e vir conversar. O cara era chato demais. Andei mais alguns metros e cheguei a uma banca de revistas. Olhei alguns jornais, revistas...e comecei a conversar com o jornaleiro. Vieram reclamações de sua vida conjugal, profissional...
             Fui-me embora. Minha carona havia chegado e me salvado de tantas reclamações. Fomos a um restaurante na Vila Mariana. Olhei rapidamente para o menu e escolhi um filet mignon ao molho madeira que estava com vontade de comer. Que demora!!! Eu deveria ter optado por algo mais simples, como o tradicional arroz, feijão e uma carne qualquer. Percebi que minha expressão de impaciência já estava incomodando o garçom.
             Depois do almoço meu compromisso era uma consulta médica. Segui para a avenida Angélica. Cheguei faltando 15 minutos para a minha vez. Mas quando apontei no corredor a secretária já foi logo me avisando do atraso de duas horas. Precisava de paciência. Respirei fundo. Fui para a sala de espera. Apanhei umas revistas e comecei a ler as notícias antigas. Fiquei em silêncio. À minha volta, os olhares evitavam se cruzar. Tentei até mesmo tirar um cochilo. Não consegui. A espera foi interrompida por uma voz que chamava pelo meu nome.
             Deixei o consultório e fui à farmácia. Para minha surpresa: fila. Mais fila. Tentei ser simpático com a mocinha que entregava aqueles malditos tíquetes de senha.
             - Nossa farmacêutica precisou sair às pressas. O senhor deve ser atendido em, mais ou menos, duas horas.
             Duas horas? Como assim? Isso não era justo. Eu já estava esperando desde cedo. Não estava mais agüentando ficar em silêncio, sem ação, sem pensar. Eu precisava ser atendido o quanto antes.
             Mas não foi possível. Tive que esperar. Novamente procurei uma cadeira e peguei umas revistas para tentar fazer o tempo passar mais rápido. Não adiantou. Eu já havia perdido minha concentração devido à maldita espera.
             Que sensação horrorosa. Parece que você foi esquecido por todos. É um desespero sem tamanho perceber que todas as pessoas à sua volta estão sendo chamadas e você continua lá à espera de uma luz; quem sabe, uma ajuda divina. A espera te faz projetar os detalhes em escala universal, como a saia de uma senhora que não estava combinando com a blusa. Absurdo.
             E, por fim, tocou a sirene. Senha 954. Meus remédios ficaram prontos. Peguei um táxi e fui embora. A minha sorte era que o elevador já estava à minha espera. Meu Deus, que dia! 


Pronto. Encontrei. Estou vivendo aquele período conhecido como inferno astral. Sabe? Demorou um bocado de tempo, mas descobri do que se trata. Uma busca rápida pela internet e uma pesquisa em alguns livros de astrologia já foram suficientes. Eis o resultado: inferno astral é o mês que antecede o aniversário.

Imaginei. Só podia ser isso mesmo.

Faltam poucos dias para eu completar mais um ano de vida. O que seria para muitos motivos de comemorações, para mim, são apenas dias de lamentações, surpresas e questionamentos. Como tudo passou voando. Meu Deus! Parece que foi ontem o dia que pisei pela primeira vez numa escola. Tenho também a impressão que foi na semana passada a grande descoberta da adolescência, o meu primeiro beijo, a primeira desilusão amorosa, a namoradinha do colégio... Estou ficando velho!

A sensação de envelhecer não é nada agradável. É uma dor que não afeta o corpo. Estranho. Sinto meus pensamentos fervilhando, a ponto de entrarem em erupção a qualquer momento. Os neurônios parecem estar numa briga constante, sem fim. Dói a alma. Os questionamentos cutucam tudo o que você sempre acreditou. Sua fé deixa de ser verdade. As crenças simplesmente param de existir a cada vez que o pensamento invade nossas certezas de uma vida inteira.

Acho tudo muito estranho: por que comemorar mais um ano de vida se, a cada ano, a morte fica mais próxima? Que cultura mais estranha! Seria a ‘festa da experiência adquirida’? Sinceramente, não sei responder. Hoje, essa é a plena verdade. Todos esses questionamentos martelam minha razão. A cada ano temos menos tempo de vida e, mesmo assim, maior é a cobrança e a falta de tempo... tempo de viver. Que coisa de louco!

Repensar a vida e fazer planos são metas difíceis. E isso a nossa própria existência nos cobra. A busca por um sentido deixa tudo sem mais sentido ainda. Pode reparar. Ao passar dos anos os sonhos parecem ficar mais turvos, se não imperceptíveis, invisíveis. A vida passa e a indefinição aumenta. É como se fosse uma novela às avessas: ao invés do desenrolar rumo ao final, tudo se enrola a cada capítulo. Tem hora que tudo marcha ao contrário.

Não gosto mesmo de fazer aniversário. Admito. Também não sei se pensarei desta forma num futuro (breve ou não). A certeza é que estou vivendo o meu inferno astral e suas angústias, depressão, sensação de azar, dúvidas que soam no compasso da eternidade... Será tudo isso pra sempre?

São nos pequenos detalhes da vida que surgem os principais questionamentos. Comigo não foi diferente.

Era sexta-feira. Para variar um pouco, eu não havia obedecido aos ponteiros do meu relógio. Estava atrasado. Passei correndo na lanchonete para engolir um sanduíche antes de pegar a estrada. O lanche (talvez eu nunca me esqueça disso) custou R$1,50. Dei uma nota de dez reais.

- Não vou ter troco, moço. Pode pagar na semana que vem. Sem problemas.

Um bom exemplo de confiança na honestidade alheia. Confesso que achei tudo aquilo estranho, mas combinei de pagar na semana seguinte. Porém, fiquei a pensar... Vieram incontáveis deduções na minha cabeça.

“Poxa! Que confiança daquele vendedor em mim!”.

Pensamentos de egocentrismo (e modéstia também)...

“Minha honestidade deve ‘vazar’ pelos meus poros”.

Pensei assim.

“Talvez ladrões sejam feios e eu sou bonito”.

Continuei.

“Deve ser também por causa de minha camiseta recém comprada, toda novinha”.

Mas... os pensamentos começaram a tomar um rumo não muito digestivo.

“O vendedor deve ser gay e me achou lindo e gostoso – mesmo com os quilinhos a mais”.

Parei. E raciocinei novamente.

“Acho que o rapaz da lanchonete, na realidade, me deu o lanche, só que não quis dizer”.

Terrorismo.

“Melhor eu nem comer esse lanche. Deve ter alguma coisa aqui dentro”.

E a fome continuava.

“Os santos vão me proteger contra qualquer tipo de feitiço”.

E a seqüência de pensamentos não parava de chegar.

“Que estranho! Esse tipo de confiança quase não existe atualmente”.

E...

“Não adianta: deve ter algo nessa situação”.

Mais pensamentos.

“Eu estou comendo esse lanche e não paguei. Eu posso nunca mais voltar naquela lanchonete e a dívida, simplesmente, ser esquecida”.

Contraponto.

“Mas isso não é certo. Ele pode precisar do dinheiro um dia. O rapaz vive de vender sanduíches como este que estou comendo”.

Uma (quase) conclusão.

“Mas ele deve ser gay, só pode; honestidade está escassa nesses dias”.

A conclusão.

“Ele confia na honestidade das pessoas. Apenas isso”.
Na semana seguinte passei lá e paguei o que eu devia, como fora combinado.
Finalização.

São nos pequenos detalhes da vida que surgem os principais questionamentos. E também as conclusões. Comigo não foi diferente.

Um amigo escreveu: quanto vale a poesia? Descontente, desabafou todos os anseios que um ser humano pode possuir. Em forma de belas estrofes, revelou a verdade sobre o caminhar de uma pessoa:
           
             Nesse mundo, a poesia não vale nada
             só tem valor quando a pessoa que escreve morre.
             Daí dizem, esse escrevia bem
             mas morreu sem nenhum vintém.

Meu caro amigo, vou tentar responder suas perguntas.

A poesia tem o peso da vida, a tão única existência, um presente de Deus. Enxergo o poeta com os olhos da admiração. Ele consegue descrever o indescritível. O interior de cada pessoa é posto, assim, de repente, de maneira branda, como uma pena branca que pousa suavemente na areia fofa da mais bela praia. Esse ser, que alguns insistem em chamar de poeta, foi o escolhido dos céus para divulgar aqui na Terra o mais belo dos sentimentos.

Cada palavra por ele escrita é o reflexo do interior de cada leitor: a identificação com o sentimento é universal. Com ou sem rimas, os vocábulos jorram lágrimas, sorrisos, anseios, lamentos, ausências, amor. A poesia é companheira daqueles que carregam o sofrimento – a árdua emoção.

O mundo, por sua vez, parece ter esquecido o valor do sentir. O “ser” caiu de moda. O “ter” ganhou as passarelas da vida. Pouco importa se há choro, afinal, o mundo corre batido rumo ao futuro... Incerto é verdade, mas anda em ritmo frenético, sem escalas para o repouso da alma.

As coisas estão invertidas. O futuro parece valer mais do que o presente. Não existe mais a ordem do carpen dien. O momento foi esquecido. E essa é a diferença entre os poetas e os seres humanos: os poetas gozam o presente com força total, contemplam o passado como ninguém e deixam o futuro a cargo de Deus como poucos.

Talvez, poeta, você leve a vida inteira para entender o significado da poesia. Apenas um conselho: não questione muito. Apenas deixe sua graça encantar as outras pessoas. Coloque para fora o que sente. Continue desempenhando sua missão de anjo do amor. 

Seja poeta. Seja sempre eterno. 

Estou vivendo o ápice de minhas dúvidas. Que transtorno isso me causa. Sinto-me sufocado e distante da legitimidade do viver. Levar a vida, então, acaba sendo uma complexidade tamanha. Já faz tempo que perdi aquele jogo de cintura, o doce rebolado do cotidiano. Um horror. Acordo, trabalho, almoço, falo ao telefone... e a dúvida me perseguindo. Essa indecisão já me dominou. Talvez, em questão de dias poderá me levar a uma loucura incontrolável.

Nos momentos de sufoco, fecho os olhos e tento manter a tranqüilidade. Não consigo. Uma luz lá no fundo parece iluminar a minha vida, imersa num mar de interrogação. Sem caminho. Várias soluções apontam para a incerteza. E o mais curioso é que a dúvida começa nas situações mais delicadas e se espalha por coisas simples, como o que comer hoje no almoço ou descer pelo elevador social ou o de serviço. Isso deve ser uma doença sem cura, um vírus que se prolifera cada vez que o pensamento mira para uma provável solução.

A dúvida foge à regra da racionalidade. Ela é inimiga da concentração. Pode reparar. No fim das contas, sempre prevalece a emoção, um sentimento incontrolável. Não há inteligência que resista a essa avalanche de indecisão. Buscar concentração parece coisa de outro mundo. A maldita dúvida invade os pensamentos repentinamente e toma conta de tudo. Ficamos impotentes frente a uma vontade, mesmo que longínqua, de mudar algo.

Sempre é assim: surge a dúvida, dobra a covardia. Dessa forma, ficamos mergulhados numa teoria sem fundamento. Vivemos de ameaças, de um amanhã que nunca chega. Adiar aquela conversa no trabalho sempre parece ser a melhor coisa. Certamente, uma solução momentânea (e às avessas).

A incerteza causa medo, atormenta o simples caminhar, muda o olhar. Tudo fica sem cor. Perdemos o lado prático de viver. A dúvida inibe a felicidade, causa uma depressão e derruba a auto-estima. A indecisão nos distancia da linha de chegada. O possível tocante torna-se o impossível longínquo. O imperativo vira condicional. O vocabulário fica à moda do “ou” (lembrei-me de Cecília Meireles, com a sua dúvida poética em “Ou isto ou aquilo”). Não existe convicção. Sobra desconfiança.

Sair ou não nesta noite? Calça jeans ou bermuda? Ligar ou não ligar? Massa ou carne? Fumar agora ou depois? Será que devo viajar nesse feriado? Qual filme assistir? Como terminar essa crônica?

Meu Deus, que dúvida!

No telefone com uma amiga, minha mãe dizia:

- Eu vou comprar uma chapinha!

Escutei aquilo ao longe. E as palavras despertaram minha fúria, talvez, uma revolta momentânea contra a vaidade que nasce de um novo estilo imposto pela classificação de beleza. Enfim: meu Deus, minha mãe vai comprar uma chapinha. Ela também vai aderir à moda dos cabelos lisos e artificiais. Em nome de uma tal de perfeição, vai abortar os seus cabelos encaracolados, vistosos.

Confesso: desde então, comecei a reparar no mundo feminino à minha volta - com outros olhos, evidentemente. Na semana passada, por exemplo, eu fui a uma festa. Várias mulheres. Lindas, elas passeavam pela pista de dança como modelos na passarela. Detalhe: todas “chapadas”. A bonitinha com o cabelo esticado até a cintura; uma senhora que, com orgulho, exibia o seu novo estilo.

Tinha vontade de chamá-las num canto e dizer que o padrão de beleza não é único. Existem vários (e todos maravilhosos). Esse novo estilo é muito artificial, meio americanizado, à moda Barbie. As mulheres estão ficando com os cabelos iguais. Pode reparar. Dê uma voltinha no shopping ou vá a pé à padaria que você vai perceber. O conselho de um homem? Não é preciso passar por essa transformação para ficar bonita. Vale mais gastar o tempo para aperfeiçoar a sua beleza natural. A formosura da mulher brasileira está na alma.

Mas a minha relação com as chapinhas nunca foi das mais agradáveis. Admito. Lembro-me apenas que, na época, eu namorava uma garota linda. Loira, charmosa e com os cabelos lisos – isso, à primeira vista. No entanto, só fui descobrir a verdade sobre seus cabelos quando resolvi lhe fazer uma surpresa. Cheguei mais cedo e encontrei a minha amada em frente ao espelho fazendo chapinha. Pasme. Só aí, depois de quase dois meses de relação, que fui descobrir que aqueles cabelos lisos não eram naturais. Pior: fiz aquele comentário. Bom, nem preciso contar a reação dela, né?

A outra experiência aconteceu num sábado à noite. Fui a um show com umas amigas. Chovia torrencialmente. (Já dá pra imaginar...). Todas, com os “cabelos lisos” e revoltadas com São Pedro, ordenaram que eu parasse o carro bem na entrada. Argumentei que não podia enfiar o carro no meio da multidão para estacionar onde elas mandaram. Nada adiantou. Foi o tempo de parar o veículo para um policial chegar.

- É só pra elas descerem por causa da chuva! – disse.

Ele olhou e caiu na gargalhada, certamente entendendo tudo.

E eu, até hoje, continuo sem entender nada. Juro.

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