José Milbs, presente!

O ano de 2018 termina mais triste com a notícia do falecimento de nosso querido editor, José Milbs.

José Milbs deixa um grande legado, na forma do combativo Jornal O Rebate, e uma imensa contribuição à memória macaense, resgatada através de suas crônicas e livros publicados ao longo de 16 anos de nosso jornal online.

José Milbs fez-se História. Descanse em paz, querido amigo!

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Abaixo, deixamos o texto de Toni Marins, e sua entrevista feita em 2008:

José Milbs – Militante ‘paz e amor’

O veterano José Milbs de Lacerda Gama, nascido em 13 de agosto de 1939, equilibrou-se como pôde durante a ditadura militar. Foi da militância estudantil e da luta política aos ideais de paz e amor do movimento hippie, sempre na contramão do poder e buscando fazer valer a liberdade nas páginas de O Rebate — o jornal fluminense que hoje, 75 anos depois de sua criação, se mantém vivo na internet, editado em um sítio em Macaé.

Em 1962, Milbs foi eleito pela FEM (Federação dos Estudantes de Macaé) à Presidência da Ufes (União Fluminense dos Estudantes Secundários, que depois virou Confederação). Antes disso, porém, já disputava cargo eletivo no Governo de sua cidade:

— Com 18 anos, fui convidado por um primo, Secretário do PTB de João Goulart, para ser candidato a Vereador. Muito jovem ainda, brincando nas ruas empoeiradas de Macaé, eu nem entendi. Consultei minha avó e ela disse: “Se o convite foi feito pelo Ruy Moutinho de Almeida, nosso primo, você deve aceitar. E como sou eu quem cuida de você, autorizo que se candidate.” Concorri e fui impugnado, pois a lei dizia que o candidato devia ser maior de 21 anos. Porém, havia um atenuante na Constituição: “Quem vota pode ser votado.” Amparado no parágrafo, mais forte que o TRE, obtive parecer vitorioso no Superior Tribunal. Vinte anos depois, minha solicitação virou lei.

Na eleição direta para a Presidência da Ufes, num congresso no município de Santo Antônio de Pádua que teve representantes de 35 cidades do Estado do Rio, mais um ineditismo:

— Fui o primeiro líder do interior a se eleger na entidade, porque constava do estatuto que o Presidente devia morar em Niterói ou São Gonçalo. Isso dificultava a vida das lideranças do interior, pois a maioria era de jovens pobres como eu, sem condições de mudar de cidade. Mais uma vez, lutei e obtive parecer vitorioso.

Liderança

Milbs orgulha-se de ter representado o Rio de Janeiro no Congresso da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundários) em Goiânia, fundado, com o amigo jornalista Armando Barbosa Barreto, o Colégio Luiz Reid — “ele era particular, mas conseguimos transformá-lo em estadual” — e liderado a greve geral que obrigou o então Governador Celso Peçanha a doar um terreno em Macaé para a criação de um restaurante estudantil:

— Só que o terreno, doado em 2002, foi invadido pelo ex-Prefeito de Macaé Sylvio Lopes, do PSDB, que ergueu no lugar uma praça. Mas nem tudo está perdido. Soube que está em andamento um processo judicial movido pelos estudantes, que pretendem usar o terreno para recriar a FEM (Federação dos Estudantes de Macaé).

A militância — que o levou a ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional, à época do AI-5 — atropelou os estudos e até mesmo o trabalho de José Milbs:

— Só percebi minha situação na Faculdade de Direito de Campos bem mais tarde, quando senti olhares estranhos que partiam dos professores e dirigentes. Claro que havia ligação com a minha atuação como jornalista em O Rebate e A Notícia, de Campos dos Goytacazes. Nesta mesma época em que acabei largando os estudos, um delegado de polícia que diziam ser da CIA me denunciou no Inamps, onde eu trabalhava. Suas denúncias, mais a covardia de alguns chefes, forçaram minha aposentadoria precoce com um estranho diagnóstico: “Neurose não especificada”. Esta “neurose” retirou 30% da minha aposentadoria que, acumulados nestes 30 anos, são uma dívida substancial que o Governo tem comigo… Já naquela época eu lutava contra a corrupção no Inamps, e até atentado sofri, na ocasião.

Atentado fracassado, Milbs foi chamado pela avó e pela mãe para uma conversa séria:

— Eu disse que queria fugir da sociedade consumista e desonesta e elas sugeriram trocar um terreno que tinham no Centro de Macaé por uma casinha branca com quintal e avarandado, as janelas voltadas para o nascer do sol e muitas galinhas. Topei e fiz da Estância Vista Alegre uma trincheira. Dei guarida aos muitos amigos que chegavam de todo lugar para expor seus trabalhos nas ruas da região do petróleo. Ali tínhamos a certeza de não sermos incomodados por ninguém, nem molestados pela repressão policial, que enxergava, em cada hippie, uma afronta aos costumes da sociedade dos anos 70. Considero-me um sobrevivente e ainda acredito, embora sem os longos cabelos e barbas, que ainda temos muito que lutar pela expansão do slogan “paz e amor” no País.

Agradecimento

As duas mulheres responsáveis pela “casinha branca” estão retratadas nos livros “Ecila” e “Saga de Nhazinha”, ainda não publicados:

— Ecila é minha mãe, cujo nome é Alice ao contrário — conta o jornalista. — E minha avó, Alice Lacerda, era conhecida na região do petróleo, nos anos 70, como Dona Nhazinha. Ambas marcaram minha vida. Revendo os dois livros, noto que muitas pessoas podem perceber o amor que essas duas mulheres, corajosas e guerreiras, empregaram na minha formação. A publicação destes livros seria, com certeza, um agradecimento, bastante modesto, para as duas.

Enquanto os livros não são editados, Milbs segue incansável na edição de O Rebate, na Internet, do meio do seu sítio, em Macaé:

— O jornal está comigo desde 1967. Tive que de parar de circulá-lo em papel quando fui trabalhar em São Paulo. Ao voltar para Macaé, vi com tristeza que uns indivíduos tinham copiaram o logotipo e substituído o “R” pelo “D”. Não tive como enfrentar. Recuei, mas não deixei a luta. Para que se tenha uma idéia, pegaram um número do tal “Debate”, retiraram o nome e colocaram O Rebate. Imprimiram uns poucos exemplares e pediram registro no Inpi. O que os piratas não sabiam é que O Rebate já era registrado no Cartório de Jornais e Periódicos, em meu nome. O Inpi, lamentavelmente, chegou depois da lei que determinou a obrigatoriedade do registro de jornais no Cartório de Pessoas Jurídicas, na cidade do Rio. Hoje, O Rebate é como um filho mais velho, e registra em seu expediente colunistas voluntários de múltiplos estados do Brasil e até do exterior. Minha luta pela manutenção da liberdade de imprensa no interior, pela qual perdi um emprego e uma faculdade, é a mais alegre certeza, ao ver triunfar O Rebate em 2008, inspirado nos antigos ideais dos anos 70.

 

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