Cinema

Ao assistir a um filme, você já teve a impressão de saber o final? Isso não ocorre somente pela sua capacidade dedutiva, mas porque existem determinados padrões de produção de roteiros que inundam os grandes estúdios com a finalidade de garantir os seus lucros. Ou seja, os enredos simples e os personagens com os quais o espectador já está habituado garantem grande público — o que explica porque a franquia Velozes e Furiosos está na produção do seu 9° filme e a Marvel já lançou mais de duas dezenas de títulos desde 2007.

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Os filmes de franquia apresentam-nos os mesmos personagens em situações análogas, de modo que o maior atrativo para o público não é a narrativa, mas os efeitos especiais, quer seja a quantidade de explosões, os tiros ou malabarismos exibidos em tela da forma mais frenética possível. No entanto, nem sempre foi assim.

Quando o cinematógrafo foi criado pelos irmãos Lumière, os primeiros filmes registravam pessoas em situações cotidianas, antecedendo os documentários. As produções encomendadas por Thomas Edison eram filmadas em estúdios com atores provenientes do teatro, o que culminaria com as premissas do cinema ficcional, gênero que dominou as telas comercialmente em relação às obras documentais.

A partir daí, foi necessário aprender a contar histórias através das câmeras e dos processos de edição. O cineasta Jean Luc Godard chegou a dizer que “a câmera escreve”, o que torna possível aproximar o cinema das outras formas de contar histórias, tanto oralmente, como por meio da literatura. Nesse sentido, é possível apontar uma série de investigações provenientes das pesquisas literárias ou que dialogam com elas, influenciando as produções cinematográficas.

O livro O Herói de Mil Faces (por exemplo) do mitologista Joseph Campbell nos apresenta o conceito de “narratologia”, referindo-se ao estudo das narrativas de ficção e não ficção. Campbell identifica um padrão básico na composição das mitologias de diversas culturas, trazendo à tona a possibilidade de apoiar-se em determinados padrões para se contar uma história, o que influenciou os trabalhos de diretores como George Lucas e Francis Ford Copolla.  

Syd Field recorreu a ferramentas da narratologia para escrever livros como o Roteiro – Os Fundamentos do Roteirismo e Manual do Roteiro, apresentando à indústria fílmica o conceito de “paradigma”, que oferece certos padrões para se escrever um roteiro e definindo elementos essenciais, tais como a quantidade de atos e o tempo que o filme deve durar.

Agora sabemos porque somos capazes de saber o que acontecerá no final dos filmes a que assistimos. Minha crítica não está direcionada à narratologia, mas à falta de coragem de quem resiste em contar novas histórias ou contá-las fora dos moldes pré-estabelecidos, como fizeram o Cinema Novo no Brasil, o Neorrealismo na Itália ou a Nouvelle Vague na França.


Douglas Henrique Antunes Lopes é professor do Centro Universitário Internacional Uninter. Atua nos cursos de Filosofia, Serviço Social e Pedagogia, além do Curso de Extensão Cineclube Luz, Filosofia e Ação.

É oportuno rever o premiado filme 'A História Oficial' na mesma semana em que foi encontrada pelas Avós da Praça de Maio a 129ª criança roubada de pais militantes e sequestrada pela ditadura dos militares da Argentina

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A História oficial, de 1985, é um filme histórico.* Com o seu lançamento alavancado pelo Oscar que recebeu de Melhor Filme Estrangeiro no ano seguinte e pelo Globo de Ouro, também em 86, e com a Palma de Cannes e os prêmios ganhos em Berlim e na Itália, com ele o mundo conheceu – ou reconheceu – uma das mais cruéis práticas das ditaduras militares sul-americanas; no caso, a da Argentina: o sequestro de bebês recém nascidos, e de crianças e adolescentes filhos de militantes de esquerda presos, torturados e assassinados nas prisões ou fora delas, e daqueles que até hoje são cìnicamente enquadrados por muitos cidadãos autodenominados ‘de bem’, como desaparecidos políticos.

O filme de Luis Puenzo traz à lembrança mais uma vez essa história sombria numa semana mais que oportuna. O grupo incansável das Avós da Plaza de Mayo, de Buenos Aires, anunciou oficialmente, há quatro dias, a localização, na Espanha, da 129ª criança (uma moça) comprovadamente sequestrada logo após o parto da mãe, na prisão, que foi morta em seguida, e entregue para adoção a famílias sem filhos amigas dos torturadores e dos militares.

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Quando Puenzo imaginou fazer este filme a ditadura militar argentina dava os últimos suspiros. Ele trabalhava em publicidade, em Buenos Aires, porque deixara de fazer cinema. O regime, no entanto, caiu de podre pouco antes do diretor terminar de escrever o roteiro junto com a colega Aída Bortnik. 

Mas mesmo assim, em 86, quando entrou em cartaz, não escapou de forte reação dos homens de bem.

Uma das ações de oposição mais barulhentas se deu no âmbito da igreja católica. Boa parte do clero portenho foi cúmplice, por omissão e covardia, nos crimes de roubo de seres humanos denunciados em La historia oficial. Isto é apresentado claramente na famosa cena do padre que conhece o que se passou, mas silencia e não se comove com a angústia da mãe adotiva que havia passado a suspeitar da origem da filha e começa a buscar a verdade.

O personagem da mãe adotiva, Alicia, professora de História, uma conservadora, e inteiramente (e isso era possível?) alienada da situação política em seu país é interpretado com rara sensibilidade pela excelente atriz Norma Aleandro, uma das grandes intérpretes argentinas do período. Ela também foi premiada por este trabalho, em 86, no Festival de Cannes, com a Palma de Melhor Atriz.

Aleandro carrega, nesse seu trabalho irretocável, a representação simbólica da Argentina, da sua elite e da classe média do país entorpecida pela propaganda e convenientemente ocupada em tocar a vida para frente sem fazer perguntas. 

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É uma mãe adotiva que não coloca em questão a origem do bebê trazido para casa pelo marido, anos atrás, um homem de negócios estreitamente ligado ao poder e às cúpulas da ditadura. 

O forte poder de denúncia de A História Oficial vem de um roteiro enxuto e produtivo queinclui várias sequências documentais das primeiras manifestações das Avós da Plaza de Mayoque exigiam manter viva a memória dos filhos e começavam a longa espera para conhecer suas verdadeiras histórias e o seu destino. A professora começa a cruzar na rua, no seu cotidianocom os protestos do grupo.

Uma amiga de infância, Ana, ex-presa política, de volta a Buenos Aires depois de exilada; um professor progressista colega de escola, e uma das avós que participam das manifestações, interpretada pela excelente atriz Chela Ruiz, são os elementos que detonam as suspeitas de Alicia a respeito da origem da sua garotinha, Gaby.

(No início, as manifestações eram diárias e, depois, realizadas às quintas-feiras, mas durante o regime foram proibidas de cobertura pela mídia.)

A força maior do filme não vem de cenas de tortura com choques elétricos nem dos espancamentos habituais, mas do duro processo de conscientização assumido pelo país, pela massa da população, e do (re) conhecimento de um dos mecanismos mais sinistros para a manutenção da ditadura. 

A sua importância foi denunciar ao mundo o que estava acontecendo na Argentina, a existência das mães e avós da Plaza de Mayo. 

Para muitos críticos, e com razão, se trata do filme produzido na América do Sul acerca de nossas ditaduras militares, com maior poder de denúncia da engrenagem do regime.

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No final de A História Oficial , a menina Gaby canta baixinho para ela mesma: “No país do ‘não me lembro’, dou três passos e me perco”. Está dizendo que para a Argentina das novas gerações reencontrar o seu destino é preciso lembrar.

Voltando aos tempos de hoje: a neta número 129, de acordo com o portal argentino InfoBae, foi encontrada na Espanha. Exames de DNA confirmaram o parentesco com o pai e o irmão, que a procuravam “intensamente”, segundo as avós.

“Desta vez, trata-se de uma neta cujo pai sobreviveu à ditadura e tem irmãos”, disse o grupo. O último neto, o 128, foi encontrado em agosto do ano passado.

De acordo com estimativas da ONG, durante o regime militar as autoridades se apropriaram de pelo menos 500 bebês, muitos deles nascidos em centros de torturas, hospitais militares e delegacias.

*Filme disponível no catálogo da Netflix

As feridas da Segunda Guerra Mundial ainda estão abertas. Uma prova disso é o filme ‘Memórias da Dor”. Baseado no romance ‘A Dor’, de Marguerite Duras, e indicado pela França ao Oscar de Filme Estrangeiro de 2019, traz a escritora, interpretada de maneira excepcional por Mélanie Thierry, às voltas com episódios que mesclam ficção e realidade.

A narradora está à espera do retorno do marido, ativista como ela da Resistência francesa. O drama se instala porque ela não recebe notícias dele. E não está só nessa jornada. São milhares de pessoas sem informações de parentes, desaparecidos em campos de batalha ou de concentração.

Soldados franceses e judeus se igualam pela dor. Esse é o grande tema do livro e do filme. O diretor Emmanuel Finkiel consegue trazer para a tela o sofrimento da incerteza, da esperança e da ansiedade por se estar em busca de algo que nem sempre se deseja saber. Em muitas situações, a dor do desconhecimento pode ser melhor que a de se saber o que realmente aconteceu.

O filme trafega por esse universo com desenvoltura e tem, como um de seus pontos altos, a libertação de Paris pelos Aliados. A dor dos nazistas prestes a ser derrotados é mostrada de maneira poucas vezes vista no cinema, numa mescla de incredulidade com resignação. A agonia do existir e de conviver com a dor ganha uma dimensão épica, mas é mostrada em ações cotidianas com rara sensibilidade.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

A violência ganha dimensões das mais variadas em todo o mundo, sendo quase impossível ter informações das suas mais diversas manifestações. Em 22 de julho de 2011, por exemplo, um homem armado abriu fogo contra os participantes de um acampamento de jovens organizado pela juventude do Partido Trabalhista Norueguês.

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Foram momentos de terror para cerca de 500 jovens, sendo que 69 foram mortos. O filme norueguês ‘Utoya’, de Erik Poppe, reconta essa história numa tomada única feita em tempo real. Os personagens são fictícios, mas as situações de contato direto com a morte e de tentativa de fuga da ilha são infelizmente cruelmente reais.

O eixo central da narrativa é a jovem Kaja, vivida com raro talento pela atriz Andrea Bentzen. Ela conduz nosso olhar pelas crianças abatidas, pela necessidade de tomar decisões e pela busca de uma compreensão para o que estava acontecendo num cenário de terror entre crianças que oscilam entre a valentia, o pavor e a referência dos pais como porto seguro numa situação trágica.

Poucas vezes o cinema contemporâneo consegue tratar uma questão de tamanha seriedade e magnitude com precisão cirúrgica. Não há excessos, melancolia ou cenas fúteis. Os jovens apenas querem sobreviver. Cada um busca esse objetivo a seu modo, de maneira mais ou menos gregária de acordo com sua vivência e temperamento. Dói, mas ilustra bem o mundo contemporâneo, pleno de extremistas das mais diversas causas.


Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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