A cidade de Porto Alegre foi mobilizada neste mês de maio com a realização do XXI Congresso Brasileiro de Psicanálise. Foram centenas de psicanalistas de várias regiões do País debatendo questões técnicas, clínicas e de alcance geral à sociedade. Selecionei a apresentação proferida pela Dra. Tânia Feital , membro efetivo da Associação Psicanalítica do Estado do Rio de Janeiro , não só pela qualidade do trabalho, mas também por abordar um tema que convive no dia-a-dia de todos nós.

Este trabalho, apresentado aqui na íntegra, por autorização da autora, trata acerca dos movimentos que vão sendo assumidos na sociedade de consumo e que remetem ao fechamento das relações, empobrecendo a criatividade proporcionada pelo jogo das relações pessoais e perpetuando aquilo que denominamos por cultura do vazio.

O ser humano passou, assim, a sofrer a perda do sentido, aprisionado no excesso de significantes que se deslocam numa verdadeira chuva meteórica. O homem-máquina que, desde os anos 60, vem ocupando o imaginário social e nos lançando em verdadeiras armadilhas – aí estão os grupos artificiais formando-se em diferentes partes do mundo como os terroristas da Al-Qaeda, o exército da libertação de Bush, etc. - para que os senhores das guerras possam se ocupar.

Flavio Thamsten

Utilização e Transformações do Corpo na atualidade

Tânia Feital

- E o que você me conta de novo sobre seu corpo?

- Nada! Não quero mais desse corpo que não presta, que se estraga, que fica doente, que atrapalha meu pensamento e dificulta a minha própria razão... Não sou mais um corpo! Cogito ergo sum: Sou um puro espírito, um ser inteligente. Adeus corpo!

Rilke

Abordagem clínica do vazio na utilização e transformações do corpo na atualidade


“Há muito tempo o homem produziu para si um ideal da onipotência e da onisciência, e encarnava-o em seus deuses......Agora que se aproximou consideravelmente deste ideal, ele próprio se tornou praticamente um deus. Só que na verdade, da maneira como os humanos sabem geralmente atingir seus ideais de perfeição, isto é, incompletamente, em certos pontos, absolutamente não os atingiu, em outros, só pela metade. Por assim dizer, o homem se tornou uma espécie de deus profético, deus decerto admirável quando reveste seus órgãos auxiliares, mas estes não cresceram como ele e muitas vezes o cansam bastante”. ( Freud: Mal estar na Civilização ).

A subjetividade se constrói na intersubjetividade. Esse é o legado de Freud . Em 1923, em “O Ego e o Id”, Freud se refere à servidão do Eu às outras instâncias. É nosso desafio desenvolver teoricamente a servidão ao mundo exterior, à cultura. Tanto a formação do superego quanto o processo de identificação revelam que o objeto externo, representante da cultura, é estruturante. Surge um novo paradoxo, a escola de relações objetais de Melane Klein , acusada de negligenciar a função do objeto externo real. Bion (1962), com o conceito de reveriê , coloca em destaque a função materna e paterna. A significação é obra da função materna, que se revela ao interpretar a criatura humana marcada pelo célebre desamparo freudiano . Esse conceito revela a impotência do lactante que, não podendo saciar a exigência de satisfação da pulsão, conclama ao objeto, o outro.

Quando o objeto falha, no segundo tempo, surge o sentimento de desvalimento, falta de socorro. O pré – consciente, sede da representação de palavra que inclui a representação da coisa, coagula tanto ao apelo quanto à obra do psiquismo do outro. É a interpretação materna que gesta a representação de palavra. Winnicott surge para ressaltar a importância do objeto externo real. Para Lacan , que parte do estruturalismo de Saussure, a cultura ganha, na teoria psicanalítica, estatuto epistemológico, assim como a linguagem. O outro é responsável pela alienação do desejo humano. Na reformulação da situação edípica, a criança é o falo da mãe na relação dual, imaginária, especular, simbiótica, narcísica. O nome do pai, portador da lei, separa a necessária simbiose inicial, O pai é o outro da mãe na triangulação edípica. A criança nasce numa cultura. No berço mental dos progenitores, metaforicamente vibra a cultura, os mitos familiares e institucionais, os valores, os ideais, as histórias transgeracionais, as missões a cumprir, os projetos identificatórios, as proibições que , com a violência da interpretação, esculpem o ser. A cultura que estrutura o sujeito, e é o co-responsável pelas novas patologias, desafia a Psicanálise para que, permanecendo o método, seja mudada a técnica de enfrentá-las.

A cultura do vazio

Colocando um corpo moderno em perspectiva, num discurso cientifico contemporâneo, o corpo é tomado como simples suporte da pessoa, algo que pode e deve ser aprimorado, uma matéria prima na qual se dilui a identidade pessoal. O corpo passa a ser um acessório, para não naufragar num sistema cada vez mais ativo e exigente, as pessoas entregam-se a uma manipulação de si a base de próteses. A tecnociência vem socorrer esse corpo que deve ser reparado, rearranjado, assistência médica à procriação, exames terríveis que acompanham a existência pré-natal, enfim, instaura-se a suspeita do corpo e a medicina fazendo a triagem, torna-se um bio-poder.

Enquanto alguns biólogos sonham em livrar a mulher da gestação, a sexualidade cibernética realiza o imaginário do desaparecimento do corpo e até do outro.

Assim, para alguns, o corpo não está mais à altura das capacidades exigidas na era da informação, convém moldá-lo, forjando um corpo biônico no qual seria enxertado um chip que contivesse a alma.

Em Blade Runner , um replicante ( um andróide feito para trabalhar nas minas ) à procura do seu criador

A ficção científica sempre esteve muito interessada nas conseqüências que as novas tecnologias poderiam ter sobre o corpo; do cinema à literatura, muitos foram os romancistas que entenderam que, no "futuro", o homem iria querer mudar sua condição corporal e que a noção de corpo se constitui como uma grande musa da imaginação futurista.

Nos filmes de Blade Runner a Matrix , o uso do corpo humano como um material biológico disponível coloca sempre em cena personagens cuja evidência "humana" é rompida surgindo o medo. Em Matrix , a carne é considerada como uma doença, a condição corporal vista como epidemia e os corpos humanos são fabricados e controlados industrialmente pelos próprios robôs, que inverteram os papéis e demonstraram a superioridade dos materiais eletrônicos sobre as matérias vivas, da eternidade sobre a morte.

Esse poder de "dar a vida", que têm os robôs no filme, parece muito com os poderes que querem adquirir os geneticistas e os engenheiros da Inteligência Artificial do final do século XX. As criaturas moldadas por Moreau na sua ilha de experimentação genética eram híbridas (A Ilha do Dr. Moreau, de H.G. Wells ).

Hoje, a clonagem de animais (e a ciência de reprodução do "idêntico" ultrapassa tecnologicamente a das misturas) já foi realizada várias vezes (o primeiro caso foi de uma ovelha e do seu clone Dolly).

Através da literatura de ficção científica contemporânea que coloca em evidência a velocidade das transformações nas representações e nos usos sociais e medicinais do corpo humano. Tradicionalmente inspirada pelas últimas descobertas científicas e as suas possíveis perspectivas futuras, a ficção científica de hoje está sendo, paradoxalmente, cada vez mais "realista".

A aceleração das descobertas nas biociências e os avanços tecnológicos produzem um "efeito de real" que ultrapassa muitas vezes o próprio desafio "futurístico" da ficção científica: descrever um futuro radicalmente diferente do presente, uma ficção do tempo no mundo.

A Ilha do Dr. Moreau

As tentativas do indivíduo, nas nossas sociedades ocidentais, de dominar seu corpo, suas emoções, seu eu corporal, como ouvimos nos nossos consultórios relatos que passam por um profundo desprezo do corpo. A desconfiança com o corpo concerne a sua aparência, sua exterioridade e visibilidade. Assim que o corpo chega, a sociedade toma conta dele , o corpo é concebido e vivido como se fosse um objeto inacabado, incompleto, um puro rascunho da identidade pessoal. Em busca de um corpo ideal os indivíduos procuram incorporar as normas de uma nova estética corporal.

Muitas pessoas procuram mudar seu corpo através de uma hipermalhação para transformar a imagem e assim, sua vida social. Nessas práticas de modificação da aparência, o corpo é vivido como um parceiro e não se apresenta mais como dado, dando início a processos psicológicos e sociais, mas como produto desses processos. Nessa linha de pensamento, eu posso citar e analisar também as marcas corporais (tatuagens, piercing...) como marcas de uma mudança radical em relação ao corpo . No vasto campo do body art, eu pensei nos trabalhos do Musafar , líder dos "Primitivos modernos" que experimenta no seu próprio corpo várias modificações corporais inspiradas pelas culturas primitivas. Considerando também o transsexualismo como uma marca corporal, pois "a marca corporal traduz a necessidade de completar, por iniciativa pessoal, um corpo que não chega a incorporar/encarnar a identidade pessoal " .

Nessas práticas de individualização, que levam a uma recriação de si, o corpo se torna uma extensão da identidade, como se fosse a parte visível do "ego". Eu associei essas práticas de "correção" do corpo com a medicalização da vida cotidiana e com a produção farmacológica . Por um lado, o corpo visível é reconstruído, por outro, as emoções e sensações são controladas através do uso cotidiano dos psicotrópicos. Do dentro ao fora, do visível ao sensível, essa desconfiança com o corpo leva os indivíduos a usar pílulas e medicamentos para tudo: para acordar, para dormir, para estar em forma, para combater o estresse, a apatia, para engordar, para emagrecer, para bronzear...

O corpo humano virou um continente explorado pelos cientistas em busca de benefícios. No tempo dos anatomistas, os pesquisadores somente procuravam nomear cada fragmento do corpo, hoje eles tomam posse dele para melhor gerenciar os seus usos econômicos potenciais.

A colonização não é mais espacial, ela investe na corporeidade humana. Através de uma leitura crítica dos avanços em genética humana e reprodução artificial, pretendo mostrar em quais pontos o homem procura dominar a sua incorporação ao mundo: a fecundação in vitro , os controles de " fabricação ", os testes do embrião, a idéia de uma infanticida na medicina, a utopia de uma gravidez masculina, estes são os signos de uma forma de eugenismo pós-moderno.

O Projeto Genoma que tenta cartografar a estrutura do DNA humano, considerando que o nosso destino é inscrito nos nossos genes, e as experiências com a clonagem que aparecem como uma tentativa de avaliar as razões genéticas das coisas "humanas": de explicar tudo pelo genético.

Assim, hoje, certos cientistas americanos, pensam "seriamente" que a violência pode ser de origem genética, como seriam também o homossexualismo, o alcoolismo... E isso, "do mesmo jeito que, na época da escravidão, teriam descoberto a existência de um gene do escravo !" As questões de Bioética, levantadas por essas novas ciências, aparecem aqui como novas perturbações introduzidas na configuração do corpo e na configuração do mundo.

Da mesma forma, "o virtual marca o começo de um novo paradigma da relação do homem com o mundo" . Ciberespaço, cibersexualidade, inteligência artificial, mito do Andróide sensível e inteligente...

O Cibersexo

Me as half man/half machine.

O corpo da realidade virtual aparece desencarnado e a carne vira uma pura ficção. O ciberespaço parece poder livrar finalmente o homem da "escravidão do corpo" . A noção de "carne-no-mundo" " e toda a fenomenologia do corpo não tocam mais ninguém, a relação com o mundo está sendo radicalmente transformada numa troca de informações, na qual os homens sonham ser "eletrônicos".

O vazio mental

O conceito de vazio mental vai nos permitir abordar as variadas formas em que este vazio pode aparecer na clinica nas patologias narcisistas : neo-sexualidades, drogadiçao, enclaves autísticos, bulimia, anorexia, doenças psicossomáticas, perversões. Cada quadro na sua especificidade, revela a tentativa de preencher este vazio que cada vez mais se gera e se aprofunda quando faltam experiências reais, genuínas e autenticas.

O vazio mental é uma grave alteração estrutural da mente. Um continente que não pode albergar conteúdos, uma alteração da relação continente-conteúdo.

Os pacientes com vazio mental passam da angústia ( Freud 1926) ao “terror sem nome”. Para Bion , a angustia e o pânico podem ser experimentados pelo ser humano antes da vivência extra-uterina.

A frustração é o ponto de partida que exige trabalho de elaboração do aparelho psíquico. A frustração é a não realização da pré concepção, é a espera, a expectativa de encontro com o objeto do desejo. A privação é a falta do necessário a vida, para vir a ser. É falta daquilo que nunca se teve.

A ruptura precoce da necessária simbiose funcional primária, no início da relação mãe-bebe-pai, provoca um terror sem nome. Vida afora, a compulsão à repetição ( Freud ) procura, com desespero, um renascimento psíquico, a relação simbiótica outrora impossível. As defesas simbióticas erguem-se para anular a dor psíquica pela inexistência do bom objeto e do bom encontro. O objeto desejado esperado, o objeto da pré-concepção é substituído. Não há possibilidade de realização de um trabalho do luto, há uma substituição alucinada, um preenchimento.

A solução para o desamparo não são os investimentos do objeto presente, nem os recursos auto-eróticos do corpo como substitutos do vazio. A única saída verdadeira é restaurar a capacidade do psiquismo para figurar, para investir na representação do objeto. Há regiões sincréticas da mente que apelam para a fusão e efetuam vínculos simbióticos indiscriminados, vida afora, na tentativa de compensar o terror e paralisar o tempo. A presença de um vínculo simbiótico é testemunho de situações para preencher este buraco existencial com o corpo dos parceiros sensuais indiscriminados, longe de serem parceiros sexuais. A simbiose secundária é uma defesa ante o vazio e o terror, ele perpetua os vínculos eternamente sincréticos.

Para Bion , o vazio mental se entende através da identificação projetiva massiva. Quando a paciente tenta pensar, produz-se um esvaziamento mental ao expulsar os elementos BETA, que não geram sentido. Com estes elementos evacuados, vão junto à emoção a ser eliminada, o registro desta emoção, funções mentais e, portanto, a capacidade para pensar. A eliminação progressiva destes elementos gera o empobrecimento mental e, com estes pacientes, somos testemunhas na relação transferencial. A violência da identificação projetiva massiva pode evacuar seus componentes num espaço exterior, criando o objeto bizarro no lugar da ausência, objeto que não é gerador nem de vida, nem de sentido. O objeto bizarro condensa as qualidades originais do objeto e lhe soma múltiplas funções provenientes da parte psicótica da personalidade. Ocupa o lugar que deveria ocupar a ausência com pensamento.

O sujeito buraco faz referência a um objeto que, na transferência, vive-se como inexistente e que gera os buracos de ansiedade . É um objeto sem representação , um buraco na fantasia.

Na situação clínica posso citar um paciente meu em que os pais são inexistentes não ausentes . Esse paciente usa mecanismos defensivos mais primitivos, negação, onipotência e cisão. Nascer do nada é ser nada. Ele não sai do computador. Apenas vem às sessões duas vezes por semana. Conhece computador mas não se conhece. Sua sexualidade é infantil e faz sexo virtualmente.

Atualmente esta usando psicotrópicos; criou e ainda cria historia psiquiátrica estudando sobre elas no Dr. Google. Assim consegue ser. Deixou de ser nada.

DOUTOR

É um desafio contemporâneo. A clínica da Psicanálise hoje exige, com esses pacientes, que se crie a mente ao invés de se analisar os conteúdos.

Além da atenção interessada, da disponibilidade e da observação, o analista não só interpreta e constrói uma história através das hipóteses imaginativas, mas também interrompe repetições, cria a metáfora, nomeia a linguagem pré-verbal, oferece suas funções mentais, sonha para que o paciente acorde para a vida psíquica.

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Recentemente trabalhava um texto sobre a questão do filicídio, de Arnaldo Rascovsky, proeminente psicanalista argentino, membro fundador da Associação Psicanalítica da Argentina e homem que transmite com firmeza suas concepções. Esse texto me fez refletir quanto à presença dos Estados Unidos da América no Iraque, além do que se vive no Brasil com a enormidade de excluídos sociais, excluídos educacionais, os meninos de rua, situações que se tornaram convívios permanentes e não mais problemas a serem tratados com seriedade. 

A questão do filicídio está voltada para o desejo inconsciente da morte do filho ( ou filha ). Há muitas questões que ultrapassam o saber racional, as condutas geradas pelo processo educativo, questões essas que ficam como que no bojo da sociedade, numa região “reprimida” da vida mental das pessoas. Entretanto, isso que se encontra preso, domesticado, pode se apresentar como aquilo que chamamos de sintomas.

Quem não ouviu falar ou já viu nas telas dos cinemas as ameaças de feras primitivas e perigosas, a revolta dos bichos, catástrofes advindas de monstros habitantes de terras estranhas, de regiões intocadas... coisas dessa ordem? Aliás, isso tem trazido um interesse misto de infância, curiosidade e magia, por um lado; por outro, tudo isso faz parte de um certo temor, de uma certa angústia quanto ao “retorno do recalcado”, isto é, um medo quanto à possibilidade daquilo que é sentido como ameaça, venha a irromper no consciente, libertando forças que se encontram razoavelmente amenizadas ou, como diriam alguns, liberando forças de situações “solucionadas”. Logicamente estou me utilizando de uma linguagem alegórica para poder falar daquilo que é realmente vivido em cada indivíduo.

O imaginário social é de extrema riqueza. É muito importante que se acompanhe a sociedade e suas imagens. Quais as fantasias dominantes num determinado momento, quais aquelas que estão marcando uma época? Analisar o imaginário social nos traz importantes noções sobre o movimento da sociedade e, ainda, de acontecimentos pessoais. Aqueles que se interessam pela História, pela Arte, pela Mitologia e também pelas Religiões, teriam grandes vislumbres do encadeamento do que podemos chamar de “economia psíquica”, expressão criada por Freud para designar um importante princípio da mente humana: as relações entre o tolerável e o intolerável, entre o prazer e desprazer. Nosso aparato mental parece requerer alguns princípios de equilíbrio, de trocas entre o fora e o dentro, de trocas internas, enfim, dentro de condições possíveis de manutenção, para que possamos manter a vida íntegra.

Daí todo o trabalho que a vida nos impõe, muitas vezes verdadeiras batalhas internas, que se assemelham com aquelas travadas com vizinhos, entre povos divergentes.

Quem não conhece a figura do herói da Pátria? Normalmente figuras que deram a própria vida em nome da terra amada, em nome de seu país ( ou pais ), sua terra mãe... Aquela conhecida expressão: da terra veio, para a terra voltará . O esperado filho em retorno ao seio materno.

Será que essas expressões se constroem ao acaso, ou mantém um sentido que permanece oculto, mas latente, a mostrar ao ser humano algo que vai além, muito além de toda sua vã sabedoria?

Alguns talvez tenham prestado atenção a algumas recentes notícias, nos jornais, de casos de pais que “esqueceram” os filhos em garagens, dentro de carros, crianças essas incapacitadas de alguma defesa e que acabaram morrendo por asfixia. Quantas famílias têm histórias de descuidos tais como a filha que é deixada sozinha com um padastro, ou mesmo um pai, que se aventura em tê-la como objeto sexual? Ou um remédio que é trocado na hora de ser dado à criança, ou ainda um alimento que deixou de ser saudável mas é servido numa refeição. Muitos são os exemplos de certos “descuidos”, muitos fatais, nas relações entre pais e filhos.

Lembro-me de uma situação em que um pai, ao colocar a filha ainda bebe no banco de trás do carro, deixou que um objeto pesado se mantivesse sobre o bagageiro, na direção da cabeça da criança. Precisei alertá-lo do perigo, o que me retribuiu com um olhar expressivo a uma descoberta. Ocorre que aquele pai vivia um conflito conjugal após o nascimento da filha. É a situações como essa que chamo de “pequenos crimes familiares”. São esquecimentos, atos intempestivos, conselhos que chegam com extremo ar de bondade, cheios de boas intenções, ...mas que trazem uma ambivalência clara de sentimentos.

Foi mesmo necessário às leis divinas determinarem um não matarás . Ora, constatação de uma realidade do homem, o desejo de matar, de destruir, de exterminar o outro. Esse um dos grandes motivos da necessária ação repressora da educação, o que muitas vezes é exercido pelas religiões. Percebe-se que se o homem não passar por um processo evolutivo, se não houver um recalque a essas forças devastadoras, entra-se num verdadeiro caos, o que, na atualidade presenciamos, quando os segmentos incumbidos da educação encontram-se desarticulados. Mas deixemos essa questão para uma outra matéria.

Seguindo a trilha de Rascovsky, podemos ir mais além e tratarmos da questão tão discutida no Iraque, quando o Congresso americano, pelo voto de sua maioria, resolve trazer de volta seus filhos, enquanto que a Casa Branca, na pessoa do “pai” Bush, quer mantê-los na fogueira, em nome de uma honra americana. Aí é que a questão esquenta... Ficam, para nós psicanalistas, indagações instigantes: o que faz com que um homem se torne um guardião da democracia e, para tal, invista a força da juventude de seu país numa luta de contínuos desastres?

Entendemos, como psicanalistas, que nossos atos, nossas transmissões, correspondem às próprias condições de nossos estados internos, de nossos sucessos ou insucessos em “resolvermos” conflitos comuns a todos. O que faz com que aquilo que denominamos de processo cultural desabe e passe a apresentar manifestações que espantam a sociedade?

Enquanto a humanidade caminha de maneira nada retilínea, ora avançando, ora retrocedendo, vai-se percebendo aí que o que chamamos por educação é um contínuo de reconhecimento de passos geração após geração. De alguma forma nossas relações com as gerações passadas precisam estar bem resolvidas, para que se possa crescer e, assim, deixar de ser filho e assumir a função de pai. E aí estamos observando algum grave problema na atualidade. Vive-se, desta forma, em regressão, como uma roda que não consegue ir pra frente e volta sempre a cada movimento. Eis a maneira de instalação do filicídio.

Pais mal sucedidos, mobilizados pelo forte estresse da vida sócio-econômica, revivem conflitos de maneira tal como filhos que foram, tratados de maneira inadequada. Agora, enquanto pais que são, nesse avanço e retrocesso, revivem forças organizadoras e forças desorganizadoras que, na maioria das vezes, resultam em movimentos agressivos, ou seja, as forças regressivas, o ambiente desfavorável, fortalecem a entrada mais ainda no conflito e, a partir daí, um cenário de revolta e de ações condizentes ao aumento da crueldade. O pai torna-se brutalmente cruel. Assume imagens monstruosas, como aquelas vistas nas histórias infantis e em mitos orientais.


Saturno devora seus filhos - Goya

O sacrifício de filhos e de jovens através das civilizações é uma evidência desses atos de crueldade que podem mesmo conduzir toda uma geração ao extermínio. Remontemos aos mitos gregos, no exemplo de Cronos que engolia seus filhos; o mito de Édipo, onde encontramos o desastre da função paterna, tanto no frágil Laio, pai de Édipo, quanto no próprio Édipo, que amaldiçoa seus filhos e os lança em desgraça.

Encontramos na atualidade um dos cenários mais nítidos do filicídio – a guerra. Local para onde são enviados para encontrarem a morte, para se tornarem heróis em nome do pai. É quando nosso entendimento precisa avançar para se perceber o dito no silêncio, o dito através das ações.

Parcelas da humanidade têm servido a senhores tomados pelo horror, verdadeiros Dorian Gray que se revestem de modos cavalheiros, mas que escondem a foice sob o manto da noite.


Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde

O que acontece com o mundo humano, tornando-se cada vez mais envelhecido?

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Vamos refletir sobre uma questão fundamental em qualquer sociedade: a nossa participação, o que significa dizer também nossa liberdade de ser. Nossa chamada Sociedade Democrática levantou uma série de princípios, onde a máxima está no direito à deliberação coletiva exercido através do voto e expresso nas pessoas de seus representantes que, de fato, têm estado ao largo do que se denomina uma sociedade de direitos, e direitos igualitários.

O que assistimos em nosso dia-a-dia é o descaso com as regras de um convívio onde a palavra não esteja tão dissociada das ações. Sabemos sim que vivemos num gigantesco abismo entre palavra-ação , de tal forma que a ironia, o deboche, o sorriso indefinido de Gioconda , dominam esse cenário tão propício a toda e qualquer perversão. E nesse amplo contexto, a produção de atos legislativos abundam, o que nos faz lembrar a máxima de Tácito: “corruptissima respublica, plurimae leges” ( quanto mais leis, mais corrupta a república ).

Durante tempos correu a idéia de que a Psicanálise e, por sua vez, os psicanalistas, viviam num estado tal de distanciamento do social que em seus consultórios pairava um mundo de interpretações e idéias que somente serviriam ao prazer daquela dupla ou, talvez mesmo, de um deles, em ter adeptos a uma prática de “nobres intelectuais”. Mas, tudo isso constitui e sempre constituiu uma visão por demais errônea e, mais ainda, uma visão cuja intenção é o ataque ao próprio conhecimento psicanalítico, um ataque dirigido à destruição de um instrumento de intervenção social, que é também a Psicanálise, dificultando, desta forma, a que parcelas da população adquiram uma condição mais participativa e reivindicadora de direitos.

Ora, lembremos da frase de Freud ao aportar nos EUA, uma sociedade conduzida pelas regras de comportamentos esperados: disse Freud , “nem imaginam que lhes trazemos a peste!” O que Freud queria dizer com isso é que a Psicanálise se fazia como um interesse de investigação psíquica onde a verdade de cada um compromete com o status social, ou seja, a Psicanálise implica numa maior interação entre as condutas pessoais e o status social.

Como não pensar que a Psicanálise sempre foi um risco para os países totalitaristas? Temos inumeráveis exemplos na história: durante a Alemanha nazista os livros de Freud foram proibidos e queimados. Freud teve de exilar-se na Inglaterra em Hampstead, norte de Londres; na Argentina totalitária houve perseguição aos psicanalistas, quando muitos vieram para o Brasil. O Brasil também teve sua história de distorção com o famoso caso Amílcar Lobo, de conivência com a tortura. As telas de cinema ilustram tais acontecimentos como o filme Farenheit 451 , de François Truffaut , o livro 1984 , de George Orwell , de onde surgiu a figura do Grande Irmão ( O Big Brother, que a todos monitoram através de telas de televisão ) e as obras de J.J. Veiga , no Brasil.


Cena do filme Farenheit 451

Assim é que totalitarismo, ditaduras, estados altamente corruptos têm na Psicanálise uma desdenhosa antagônica. A isso é que quero chamar atenção: o ataque à Psicanálise nos termos de uma suposta decadência, de uma “ineficácia”, de ser um conhecimento que compactua com o estado alienado de um povo, tudo isso, na realidade, expressa o imenso perigo quanto a sua vigorosa condição de trazer à tona o reprimido , de provocar o reconhecimento de si mesmo e, por sua vez, de ser revolucionária por efeito da maior integração na vida social.

Bem, é bem verdade que, como em todas as áreas do conhecimento, a generalidade falseia a verdade. Muitos se utilizam do termo psicanalista enquanto que de fato exercem outras práticas, algumas vezes alienantes.

Einstein introduziu, com a teoria da relatividade, um conhecimento que veio a contribuir para a melhoria da vida humana e, por outro lado, permitiu também que Hiroshima experimentasse os resultados do uso destrutivo daquele mesmo conhecimento. Assim é que entendemos que todo profissional necessita de uma visão ética que o conduza em suas práticas, pois o saber não tem qualquer implicação com o que seja bom ou o que seja mau. Isso cabe a nós, seres humanos formados em concepções morais e éticas, tendo em vista o que escolhemos como modo de vida adequado.

Desta forma, a sociedade americana tem apresentado sintomas de extrema gravidade, de ações envolvidas de muito ódio, de perseguidores e perseguidos , de cultuamento ao poder financeiro e bélico. Uma sociedade onde o poder assumiu uma profunda arrogância.

Bombas de Napalm sobre o Vietnam

Bem, não quero deixar o caso brasileiro distante destas questões. Aqui o poder se mantém dentro de um outro prisma. Uma sociedade dividida, que aprofunda o abismo entre povo e representantes do poder . Nossos executivos não respondem às necessidades da população nem do País, nossos legisladores não legislam em função das graves situações nacionais, nossos juristas olham para as leis como emanações advindas de deuses favorecedores de seus semi-deuses. Mergulhamos numa sociedade de extremos e de ações perversas . O povo vem cumprindo sua missão, a de simplesmente referendar ou legitimar o poder. E depois lhe é dito: o povo tem o governo que merece.

Isso me lembra o grande intelectual Alceu de Amoroso Lima ( que usava o cognome Tristão de Athayde ) quando escrevia no “Jornal do Brasil”, nos idos da ditadura, sobre o estado monárquico da democracia brasileira, denunciando as ações perversas do poder.

E volto a reafirmar que a Psicanálise tem um papel revelador na socidedade. Essa história de que o psicanalista está distante do social é uma balela. Afinal, ele vive numa sociedade e sua presença junto a seu analisando já constitui em si uma interferência também social ( ele se veste, se comporta de uma determinada maneira, usa certo aparato vocabular, enfim, representa, algum segmento social )

Podemos apontar o ato não jurídico, uma vez que os tribunais se referem à Lei como algo que assume valor extra-humano. Costumam dizer, que têm de corresponder à Lei, pois afinal está na Lei. Ora, pois que reformulem a Lei, que torne o conjunto das leis uma expressão verdadeira da sociedade. Entretanto, um ato fica mascarado em tais atitudes, o ato perverso, aquele que ao se utilizar do poder da lei, torna a lei um contra-ato do exercício da punidade.

Acabamos de presenciar a operação Furacão, denominada “Hurricane”. Alusão sugestiva ao termo inglês. Num primeiro ato a devassa, manchetes e matérias recheadas de fotos bastante ilustrativas de atos corruptos, atos de contravenção. Não se podia deixar de ver nas fotos a fisionomia de alguns dos presos, diga-se, de contraventores, num ar de tranqüilidade, de sorriso, com suas maletas executivas na mão, como quem se dirige a um spa, a um hotel de alta categoria.

Segundo ato – uma “canetada” judicial confere uma distinção perante o estado de dignidade de algum desses senhores. Nem todo são iguais perante a lei.

Fica a pergunta do que ocorre com uma sociedade que convive com uma legalidade tão fluida, que coloca bicheiros, contraventores ao nível de personalidades sociais, de colunáveis e, ao mesmo tempo, perverte essa ordem, tornando-os presos pela imposição da lei.

Ficou claro nesse acontecimento a condição confusa da lei. Desembargador, promotor, advogados, enfim, responsáveis pela manutenção da ordem jurídica, todos fazendo parte de um mesmo bolo juntamente com a contravenção. A Lei mostrou sua cara.

E aí se mostra a impositiva necessidade dos excessos legislativos, das construções jurídicas que vão tecendo uma rede de proteção à abertura para a claridade, através de verdades que se fazem na conveniência dos fatos.

Atos perversos que se sucedem, tornando a sociedade cada vez mais seccionada, descrente, alijada das decisões e passando a viver maniacamente nas sobras do pouco que resta. Assim é que se a sociedade não tiver a percepção do engodo, ela pode voltar-se contra si mesma e ter no seu vizinho, no companheiro, no amigo, os culpados de lutas que estão ocupando o lugar de iras que deveriam estar sendo dirigidas aos cruéis deuses impiedosos .

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Nesta semana, pretendia escapar ao tema que tenho tratado – violência – e caminharmos por outras regiões.

Entretanto, o clima trazido pelas notícias, tanto nacionais ( chacina de jovens em Santa Teresa-RJ, por exemplo ) quanto internacionais ( a morte de 32 universitários nos Estados Unidos da América, fuzilados quando simplesmente assistiam as suas aulas ), conduzem nossa atenção para esse mesmo estado de coisas. Creio que isso ocorra com a maioria das pessoas, a não ser aquelas que já tomaram algumas decisões, como a de não atenderem aos apelos dos jornais.

Verdade que a imprensa cumpre seu papel informativo. Mas aqui fica uma primeira pergunta: por que tais assuntos são os selecionados como chamada de primeira página, com extensas matérias no corpo do jornal?

Por outro lado, a insistência temática não reflete apenas um necessário estado de conscientização social, afinal percebe-se que a sociedade já tomou uma série de providências relativas aos cuidados contra a violência. Principalmente as grandes cidades mudaram uma série de hábitos para não ficarem na contra-mão dos picos de perigo. A ameaça, o perigo, passou a ocupar um lugar de privilégio na sociedade.

É quanto a tais questões que necessitamos dar um passo de reflexão. Estaria a sociedade, estaria cada pessoa, protegendo-se ou mantendo a cultura do terror ? Todos conhecemos hoje em dia aqueles que se enclausuram em suas casas e temem fazer da cidade um espaço de liberdade. Tornam suas casas prisões fortificadas pelo medo da invasão do inimigo provável.

A questão é que há uma saturação de efeitos que vai muito além dos fatos informados pela mídia. O ser humano, além de uma mente racional, amplia-se, em muito, em áreas do desconhecimento, em afetos muitas vezes mal revelados. Toda essa condição humana colabora em construções que vão muito além de toda e qualquer fatualidade, mantendo ações repetitivas que geram não só no indivíduo mas também na sociedade verdadeiros cerimoniais de verdades. Podemos ainda ilustrar com os crimes familiares - como o recente caso Von Richthofen ocorrido em São Paulo, onde o casal de namorados, ajudados pelo irmão, mata seus pais a pauladas, enquanto dormiam. Sem se falar nos “pequenos crimes familiares”, quando filhos são negados em suas possibilidades de crescimento. Tudo isso precisa ser investigado.

Cena em Psicose, de Alfred Hitchcock

Torno claro que não tenho o menor interesse em tratar de questões técnicas ou travar discussões teóricas quanto a temas da Psicanálise, mas sim fazer do conhecimento psicanalítico um instrumento vigoroso na tentativa de entendimento das situações que nos angustiam.

Quando constatamos que a violência tornou-se um tema relevante que une as pessoas, que faz com que um vizinho converse com o outro, que faz com que um amigo procure o outro como que para atualizá-lo nas mais recentes notícias, isso nos chama atenção quanto aos efeitos mentais que estão ocorrendo.

Logo de imediato percebe-se aquilo que a teoria da comunicação nos fala, o fator entrópico a que esse excesso saturante da informação conduz. Não ficando aí, importa perceber que essa saturação leva a uma total incapacidade de pensar . Não se pensando, o que domina são os fatos, as histórias ou “novelas” que passam a sustentar uma comunicação linear e contínua, um verdadeiro desfile de acontecimentos misturados aos “ais” e “que horror” de cada um.

A violência passa a conviver com cada um e, mais ainda, torna-se uma aliada que justifica as divisões internas em muitos. Uma relação de necessidade se estabelece.

Quem já não presenciou ou mesmo se viu interessado em sondar acontecimentos como uma briga de vizinhos, um acidente na rua, um pega ladrão gritado na noite... enfim, uma curiosidade “ingênua” acerca de situações que trazem a cor de uma briga, de um conflito?

Na realidade, do ponto de vista psíquico, tudo isso é um reflexo de estados internos que, por ocasião de um acontecimento externo, aproxima o dentro e o fora e permite falar acerca de algo que o indivíduo não tem consciência em relação a si mesmo.

A situação externa, embora tenha sua objetividade, precisa ser destacada das individualidades, sem ser tomada numa com-fusão que acaba por aprisionar as mentes e as ações de vida.

A grande questão está em se perceber quando a saturação passa a ocupar um papel paralizante no indivíduo e na sociedade.

 O presente está sendo colocado como um fim de mundo, somando-se ainda a violência da natureza com as ameaças de tsunamis e aquecimento global, numa cadeia de grandes catástrofes próximas ao homem.

Necessário separar os medos antigos, medos tão próprios e justificáveis dos homens pré-históricos que não dispunham dos meios hoje existentes de proteção.

O passado surge, nessas épocas, como o colo protetor, refúgio de desgraças, recurso à memória de infância, o que, na realidade, está significando uma busca de equilíbrio para conviver com os problemas de uma atualidade.

Separar e identificar esses medos, nas suas devidas proporções, não se tendo no passado o único referencial promissor, o que seria manter-se num mundo de irrealidades, povoado dos fantasmas do ontem, que somente surgem nos sonhos mas que frustram o dia-a-dia. Romper a saturação e possibilitar uma via de esperança, de vitalidade, na construção de um caminho de junções, acasalamentos, um possível caminho amoroso.

Perceber a violência em seus aspectos microscópicos pode promover uma mudança de foco, rompendo, assim, a continuidade da saturação que tão só cega o indivíduo a outros olhares da realidade.

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O movimento acelerado dos tempos atuais chama nossa atenção para múltiplos aspectos. Por um lado reafirma idéias como conforto, progresso... Realmente o homem dispõe de maior tempo de vida, ao menos nos países mais adiantados, onde a longevidade já nos conduz bem próximo da possibilidade de se chegar aos cem anos de idade. Pensando-se que na Idade Média vivia-se menos do que meio século, houve um grande avanço em campos como na medicina, na engenharia de alimentos, na ampliação dos meios de higiene, enfim, temos possibilidades de viver uma vida mais longa em virtude de melhores cuidados físicos e também mentais. Digo mentais pois houve um grande avanço de conhecimento quanto ao psiquismo humano.

A Psicanálise trazida por Freud, quando lançou “A Interpretação de Sonhos” , em 1900, já percorreu uma extensa caminhada através de investigações clínicas e formulações teóricas que hoje em dia, com as transformações ocorridas na sociedade, com as novas formas de relacionamento, com os atuais modelos político-sociais, tornou-se possível uma indagação: a Psicanálise praticada por Freud é a mesma que a praticada na atualidade, ou falamos de uma outra Psicanálise quando, por exemplo, inserimos formulações de Lacan ou de Bion, para citar autores de proeminência e de percursos diferentes?

Mas... há uma aceleração que precisa ser pensada. Justamente aquela que busca ultrapassar limites, colocar-se numa região perigosa que pode defrontar o homem com a morte. Existem esportes que servem a tais situações – que são denominados de esportes radicais. Os alpinistas, os que saltam de cordas elásticas sobre abismos, chamado de Bungy jumping , os velejadores que atravessam os mares enfrentando ondas bravias, os corredores nas pistas de corridas, os atletas malhadores na conquista de formas corporais consideradas atraentes, tudo isso faz mobilizar o desejo numa tal intensidade que ele não encontra um ponto de parada.

Esse excesso se, por um lado, impede o ganho de pequenos sentidos, por outro lança a pessoa numa corrida desenfreada a um lugar do nunca alcançável. Alcançável em significação, em estado de satisfação provisório que permite usufruir sentimentos e conhecimentos.

Quantos não se viram numa situação de angústia ao presenciarem tais situações, a viverem mesmo que através de uma tela cinematográfica tais audácias?

Se caminharmos um pouco mais e olharmos para a força empregada com a finalidade de conquistar tal condição, poderemos perceber que os fins estão sendo justificados pelos meios. O fim é o prazer em alto nível, um estado de gozo pleno, de tesão contínuo. Para isso temos toda uma farmacopéia que se expressa desde as drogas menos comprometedoras até aquelas de forte interferência no sistema nervoso central. Aí estão os anabolizantes, as anfetaminas, a maconha, a cocaína, o Prozac...

A questão aqui não é de ordem moral, o que significa dizer que não se está defendendo o uso ou não uso desses meios. A questão está sim em se analisar um sintoma que se amplia no meio social, o que torna os micro movimentos de uma sociedade, os ganhos contínuos resultantes do trabalho, algo pouco atraente e, mais ainda, gerando verdades que irão justificar um modus vivendi alternativo, o que muitas vezes se aproxima de meios perversos e socialmente desonestos. Seria o mesmo que impor uma “sociedade avacalhada.”

O valor deixa de estar na construção do sentido, para se deslocar justamente para um lugar virtual. Permanência de um lugar vazio, de um buraco contínuo que somente cessa de existir e de insistir no momento em que o impacto ocorre. Nessas situações, que ora se descreve, a corrida se dá para tamanha intensidade de angústia que o indivíduo experimenta, se não a morte biológica, algo da ordem do indizível.

Se olharmos o imaginário social vamos encontrar figuras inspiradoras desses fortes afetos. Pode-se pensar em que a guerra do Iraque afeta o equilíbrio dessas forças internas a cada um. Nossa participação nos atos de violência enquanto pessoas que assistem, que fruem as lutas. Em que tais lutas justificam as contradições de amor e ódio vividas entre as pessoas, no âmbito das famílias, no âmbito das sociedades?

O que podemos afirmar é que tais questões têm uma função no equilíbrio ( ou desequilíbrio ) mental das pessoas, das sociedades. Essa é uma contribuição da Psicanálise. Nesse jogo de dentro e fora, de interior/exterior estamos todos implicados.

Assim, a questão da violência ganha um olhar diferente quando somos levados a outros vértices de análise que não aqueles ditados pelas ordens jurídicas, pelas normas de segurança.

Não se extermina a violência, nem a droga. Mas se reconhece sua função, se traz à luz o papel que desempenha tanto na história pessoal quanto nas tramas que se foram criando na sociedade para gerar suas condições de convívio.

O fantasma tem de ser reconhecido .

Dizia Freud que ao se lidar com as forças inconscientes precisamos identificá-las, dar-lhes um nome. O mesmo dizem certas religiões – reconhecer, nominar aquilo que perturba. O nome é revelador. A partir do nome toda uma transformação pode ocorrer.

Agora, retomando-se a questão desses “heróis” atuais que encarnam as figuras que expressam o prazer no seu mais absoluto estado, que podem ser reconhecidos na vida de personagens como Elvis Presley, Jimmy Hendrix, Jim Morrison, Judy Garland, Ayrton Sena, James Dean, Marilyn Monroe. Podemos perguntar o que conduziu pessoas tão talentosas, tão conquistadoras de sucesso, a um final trágico.

Não se trata, em termos do pensamento atual, de uma complexidade. Trata-se mais de uma confusão, de um desejo de re-instaurar uma idéia primária de completude, quando vivia-se um período indiferenciado. Daí a ausência do nome. Tais personagens procuram encontrar o “barato” da experiência, num inominado que ao mesmo tempo permite todas as denominações, o que nunca pode ser traduzido num nome, mas que, em muitas dessas experiências acaba por atingir esse absoluto e mostra-se exclusivamente na morte física.


Experiência impossível de ser trazida.


O Sétimo Selo , Ingmar Bergman

À diferença do homem moderno, a chamada pós-modernidade trouxe o cultivo do efêmero. Efêmero não apenas pelo pouco substancial, mas principalmente pela tentativa em romper o tempo, em se destruir a história que os homens criam através de suas experiências.

Vive-se aquilo que muitos chamam de os tempos da violência. Agressões que eclodem sem razões conhecidas, mortes que se perpetuam sem qualquer história prévia que nos fizesse entender o desenvolvimento de um drama. Afinal a morte era, antes, um ato absurdo perante encruzilhadas na vida, perante extremos que escapavam à razão. Hoje são mortes por acaso, assassinatos por bala perdida, quando um corpo se acha num lugar onde o acaso fez questão de encontrar.


Golconda
Golconda, R. Magritte

O mundo atual necessita articular, promover relações, descobrir injunções para que possamos ultrapassar uma séria questão em nossas vidas: sofre-se em função de um excesso, excesso de elementos imaginários, da grandiosidade das imagens, da sedução dos espetáculos, dos fogos de artifício. De tudo que nos espanta! A atualidade está marcada por tais extremos que o meio da linguagem fica aquém a um dizer sobre essa realidade. Perante tal impacto as respostas são imediatas e violentas. Não tem havido tempo para pensar. Menos ainda para amar e todas as injunções implicadas no que se chama de condutas amorosas, o que implica numa disponibilidade de tempo.
Encontrar a Psicanálise nesse contexto é abrir-se ao pensar, colocar-se numa outra direção que venha a possibilitar construções de sentidos, re-significações, fazendo-se, desta forma, com que o psiquismo funcione a favor do humano e a favor da vida.

Ora, estamos vivendo um mundo onde aspectos destrutivos ressaltam sobre aqueles que seriam mobilizadores a uniões, a reconhecimentos e entendimentos. As guerras têm flagelado o mundo e trazido a desesperança a muitos povos, por outro lado rompido com a liberdade, fator que favorece e fortalece as descobertas, a ênfase da verdade sobre a hipocrisia. Em tais condições nada favoráveis ao ato de viver o homem se entrega à angústia e corre, ainda, mais um risco, o de ser apanhado nas malhas dos laboratórios ou seitas prometedoras da felicidade, do encontro com a paz e uma vida plena.

Psicanálise, ferramenta que Freud colocou à disposição não unicamente para tratar dos males das histórias pessoais mal construídas, dos sofrimentos e desentendimentos desse estar no mundo, mas também para falar acerca desse grande mal estar na civilização.

Estou certo de que a Psicanálise tem o vigor e se oferece a desvendar as tramas que se colocam como obstáculos à vida. A questão do pensar tem sido pouco trabalhado pelos psicanalistas. Freud abriu uma porta que foi retomada por Wilfred Bion, que ampliou a noção de inconsciente. É nessas tramas que nos enredamos e acabamos por aceitar como “naturais”, tornando-as paisagens corriqueiras com linguagem própria, que precisamos investir através do pensar, redescobrindo a humanidade e a singularidade de nossas existências.

Pensar com a Psicanálise é utilizar-se de todo um instrumental libertador para a convivência amorosa, no encontro de caminhos éticos onde a vida reflita a magia do artista que a cria e recria, artista esse que somos nós mesmos, conscientes do papel de autores na existência.

Dizia antes que o excesso domina o mundo atual, excesso também de desconhecimento, de um estar interessado em saber. Ora, todo saber gera diferenças. É próprio do conhecimento o rompimento com verdades estabelecidas, é próprio aquele que busca o conhecimento desobedecer às ordens, às determinações que impõem uma cultura homogênea. Aquilo que se denomina por democracia estaria justamente pretendendo uma realidade de convivência de verdades, o que significa dizer uma sociedade altamente transgressiva, na medida em que o saber é esse contínuo ultrapassar de limites.

Mas, vemos nossa sociedade presa num contexto de poucas aberturas, de pouca criatividade, debatendo-se num interior que, em última instância, é construído de negações. Esse extremo de liberdade, ou melhor, essa aparente liberdade de aceitações, oculta uma extrema dificuldade em marcar diferenças. Temos vivido a aparência como uma verdade que ganha proporções de tal forma gerais, que ganha direitos de naturalidade.

A violência tornou-se um convívio necessário, e não uma ética de frustração e impotência perante a vida, o que realmente é. Fortalece-se a perversão por temermos ser, pelo temor da diferença.

Assim é que pensar com a Psicanálise mobiliza olhares diferenciadores e necessários ao prazer de se usufruir a vida.

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