A síndrome de burnout foi reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma das doenças mentais ligadas ao trabalho e com relação direta ao desemprego e afastamento do trabalho.

O Burnout de forma simples é o esgotamento profissional, caracterizado por um estado de tensão emocional e estresse por condições de trabalho desgastantes. A síndrome acomete principalmente profissionais que se cobram de maneira excessiva e lidam com pressão e relações interpessoais de forma mais intensa no dia a dia.

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O burnout é uma sensação de esgotamento físico e emocional que pode gerar comportamentos que podem prejudicar tanto a vida profissional quanto a vida pessoal de um indivíduo. Podendo levar a faltas no trabalho, falta de apetite sexual, baixa autoestima, pessimismo, ansiedade, irritabilidade, dificuldade de concentração e até mesmo a depressão.

Como identificar, prevenir e tratar o burnout?

Provavelmente você já ouviu a história bíblica da luta entre Davi e Golias, onde Davi que era baixinho teve de enfrentar Golias um guerreiro gigante e treinado de aproximadamente três metros de altura. A questão é que se Golias tivesse sido derrotado quando bebê, ele não teria sido treinado como guerreiro ainda e teria menos de um metro de altura, e o mesmo vale para o burnout, o ideal é não esperar que a síndrome se agrave e chegue a se tornar um “gigante treinado”.

Então vamos listar algumas perguntas a se considerar que podem ajudar a identificar o burnout, e a seguir algumas ideias de como lidar com ele: 

Você pode dar uma nota de 1 a 3 pontos para cada uma destas perguntas, sendo 1 = sim , 2 = parcialmente, 3 = não  

  1. Se sente extremamente ocupado e pouco produtivo na rotina do dia a dia, como se tivesse mais trabalho do que é capaz de realizar se sentindo esgotado com isso?
  2. Se sente pessimista e desanimado?
  3. Como válvula de escape tem recorrido a medicamentos e outras drogas com frequência?
  4. Se sente frustrado com a realização do seu trabalho atual, considerando seu desempenho insatisfatório?
  5. Sente estar realizando tarefas incompatíveis com seus princípios e valores?
  6. Você fica irritado com pequenos problemas ou com pessoas no trabalho?
  7. Você se sente sem energia tanto física quanto emocional em seu dia a dia?
  8. Sente ter perdido sua disposição e o seu desejo sexual?
  9. Sente-se sobrecarregado e desmotivado mesmo quando não está trabalhando?
  10. Tem se isolado e se afastado de amigos e familiares?

12 pontos

Parabéns, as chances são que você está em dia com sua inteligência emocional, sabe definir prioridades, delega tarefas e tem estabelecido metas de forma mais realista e sistêmica.

Entre 13 a 22 pontos

Converse mais com amigos e familiares, procure definir prioridades com mais clareza evitando levar trabalho para casa, é normal que sempre exista algum trabalho para se realizar, uma sugestão é se concentrar em cada tarefa de uma vez, e não querer fazer todas as tarefas do mês em um único dia, lembre-se que se ocupar não é produzir, e muitas vezes tirar um tempo para fazer atividades físicas, conversar com amigos, e cuidar da família, pode te fazer sentir-se mais produtivo do que ficar pensando em um monte de tarefas que devem ser feitas em momentos em que estas tarefas não serão realizadas. Tire um dia durante a semana para planejar suas principais tarefas, não para um único dia, mas para o decorrer da semana, do mês ou mesmo do trimestre, um dos maiores fatores que levam ao estresse é querer realizar todo o trabalho do mundo de uma única vez todos os dias em um ciclo sem fim, isso acaba gerando mais estresse e sentimento de improdutividade. Procure também planejar sempre com uma sobra de tempo, por exemplo, se tem uma tarefa que imagina levar 1 hora para ser realizada, separe pelo menos entre 2 horas a 1 hora e meia para realização desta tarefa, isso pode ajudar a lidar com imprevistos e ter mais tempo para realizar tarefas não planejadas que podem aparecer no dia a dia. Lembre-se também de dedicar tempo para outras áreas de sua vida além do trabalho. Cuidar da vida pessoal pode refletir também na vida profissional, seja investir tempo para seu lazer, filhos, conjugue, outros familiares, cuidar da própria saúde, amigos, tempo para si mesmo durante o dia e etc. Estar bem com sigo mesmo faz toda a diferença para se sentir bem no trabalho que realiza.  

23 pontos ou mais:

Cuide mais de você, procure conversar com um profissional da saúde, seja um psicólogo, seja um médico, procure identificar com clareza os momentos que mais se sente esgotado, e as possíveis causas deste sentimento, e quais novos comportamentos pode passar a adotar, principalmente nas situações que tem identificado como limitantes, para desenvolver estratégias mais assertivas de comportamentos a partir de então.  

Este teste tem o intuito de contribuir, mas não substitui o diagnostico e avaliação de um profissional da saúde, então se sentir estar enfrentando a síndrome de burnout é sempre importante procurar ajuda de um profissional.  

Dicas que podem ajudar na prevenção e tratamento:  

  • Cuide de seu sono

Dormir entre 6 a 8 horas por dia podem ajudar!

  • Se relacione

Somos seres sociais, e se conectar com bons amigos e familiares faz toda a diferença para o bem estar emocional.

  • Pratique meditação

A meditação ajuda a promover neurogênese e é uma poderosa aliada ao combate do estresse além de trazer uma série de benefícios.

  • Atividades físicas

Corpo e mente são um só sistema, ao fazer atividades físicas além de aumentar o nível de disposição, liberamos dopamina e temos uma série de outros benefícios.

  • Cuide de sua alimentação

Muitas vezes ter uma dieta pobre de nutrientes, comer muito fast food e comer de pressa sem prestar atenção na comida pode agravar ainda mais o estresse e o burnout, e por outro lado, cuidar da alimentação, e até mesmo tirar um tempo para comer alimentos mais saudáveis e aproveitar de forma mais despreocupada, seja o almoço, o jantar, ou mesmo o lanche da tarde, pode trazer benefícios consideráveis para o tratamento.

  • Invista em autoconhecimento

Participe de treinamentos e cursos relacionados a gestão de tempo, qualidade de vida, inteligência emocional, hipnose transformacional ou qualquer outro tipo de treinamento que possa promover benefícios para o seu próprio desenvolvimento. Como Benjamin Franklin já dizia: “Investir em autoconhecimento sempre rende os melhores juros.”


Romanni Souza é hipnoterapeuta e psicólogo

À primeira vista o título soa estranho, no mínimo curioso. Pensar que a depressão, considerada a doença do milênio, possa ser algum tipo de solução na vida de alguém parece algo absurdo. Será mesmo?

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O que me levou a escrever essa breve reflexão foi o caso do Miguel (nome fictício). Com 55 anos, ele se sentia infeliz no casamento e no trabalho, dizia que sua vida não tinha mais sentido. Passadas algumas sessões no consultório de minha antiga professora, Miguel foi se dando conta de seus padrões mentais e dos problemas que criou para si mesmo. Aos poucos, começou a enxergar uma luz no fim do túnel.

Depois de anos a fio como único provedor da família, estava cansado e desanimado, sentia-se sem reconhecimento. Sua principal queixa era “me sinto sugado em casa... eu tenho que resolver tudo”. Em decorrência de seu estado de saúde, acabou perdendo um dos empregos. Isso causou mudanças no padrão de vida do qual sua família estava acostumada a usufruir. As queixas e reclamações em casa só aumentavam. De certa forma, Miguel compreendeu que ele próprio havia contribuído para que sua esposa e filhos fossem ficando dependentes, acomodados e egoístas. E agora, diante de uma conjuntura que exigia deles uma mudança de comportamento, eles não estavam nem um pouco dispostos a ajudá-lo. Em vez de todos contribuírem com algum sacrifício, buscar um trabalho e ajudar nas despesas, o pressionavam para que buscasse ajuda e, assim, tudo voltasse a ser como antes....

Sua mulher era graduada em administração, mas nunca havia trabalhado na área. Ainda antes de se formar, eles se casaram. Os dois empregos de Miguel e seu bom rendimento permitiram que sua esposa pudesse ficar em casa e cuidar dos dois filhos do casal.

Após quase 20 anos de casamento, com os filhos crescidos, um fazendo faculdade e outro terminando o ensino médio, a vida deles se resumia a uma agenda de “tocar os estudos aos trancos e barrancos”, sair com os amigos e curtir, sem se preocupar. Mas quando a mesada foi retirada, a revolta foi grande... Miguel se ressentia da atitude mimada de seus filhos e se culpava por isso.

No curso de seu tratamento terapêutico, Miguel foi se dando conta de que parte da solução do problema ele já tinha. Após meses de consultas e ainda se sentindo deprimido, ele se deu conta de que a mudança não poderia partir somente dele, mas deveria envolver a dinâmica das relações de sua família. No entanto, essa não era uma perspectiva compartilhada.  As queixas agora se somavam a ameaças da esposa: “se você não melhorar vou morar com minha mãe e levar os meninos junto. Minha família sempre teve boas condições.” Essa “insensibilidade” da esposa decorria de um casamento idealizado, que não existia mais.

Após quase um ano de tratamento, ele continua se sentindo deprimido, mas estranhamente feliz. Sua esposa foi morar com sua sogra e levou os filhos junto. Parte da venda da casa permitiu a Miguel comprar um pequeno apartamento. Com mais tempo, agora com apenas um emprego e se sentindo mais leve, passou a visitar com mais frequência sua mãe e irmãos. Em sua última consulta, disse que queria retomar as amizades deixadas para trás e quem sabe encontrar uma namorada, talvez um namorado, e riu muito das próprias palavras...

Prof. Everson Araujo Nauroski é filósofo clínico, doutor em sociologia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e coordenador do Curso de Sociologia do Centro Universitário Internacional Uninter.

Contemporaneamente, o fenômeno do suicídio tem registrado um aumento sem precedentes. Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicaram que em 2018 ocorreu um suicídio a cada 40 segundos, totalizando mais de um milhão de registros em todo mundo. A faixa etária mais atingida é a de jovens entre 15 e 29 anos de idade. Mesmo entre crianças e adolescentes dos 10 aos 14 anos, o suicídio é a sétima causa de morte.

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O relatório da OMS indicou que entre os anos de 2007 e 2016 quase 110 mil pessoas tiraram a própria vida no Brasil. Se as tentativas de suicídio (nem sempre registradas) fossem somadas a esses dados, os números seriam ainda mais assustadores. A maioria dos estudos tem apontado transtornos de ordem psicológica entre as principais causas dessa tragédia mundial.

No entanto, penso que seja oportuno resgatar a contribuição de Émile Durkheim, fundador da sociologia, que na virada do século 19 para o 20 analisou esse fenômeno e concluiu que as causas de fundo do suicídio são de ordem social.  Ou seja, o indivíduo que decide tirar a própria vida o faz principalmente a partir de uma conjuntura que o afeta profundamente em sua psique.

Para explicar sua teoria, Durkheim classificava o suicídio em três modalidades. A primeira seria o suicídio egoísta, no qual o indivíduo não vê mais sentido em sua vida em face de uma realidade social com a qual não se identifica e nem se sente integrado. A segunda modalidade é o suicídio altruísta, no qual o ato de tirar a própria vida tem um sentido simbólico, quando o gesto se conecta com alguma ideia ou crença “superior”, a exemplo dos pilotos kamikazes japoneses ou dos homens-bomba. Existe ainda, segundo Durkhein, o suicídio anômico, ou seja, que ocorre em uma situação de desagregação social que pode ser provocada por tragédias naturais (tsunamis, terremotos), guerras, ou ainda por uma crise econômica aguda com altos índices de desemprego.  

É sobre esse último tipo de suicídio que quero chamar a atenção. Considerando que vivemos numa sociedade mercantilizada, em que temos que pagar por praticamente tudo, a condição de estar desempregado pode provocar um processo em quatro tipos de morte. A primeira, eu chamo de morte econômica. Sem emprego e renda, depois de um tempo a caridade da família e amigos (quando se tem) pode acabar, ou ser humilhante demais.

Já a morte econômica significa a restrição ao consumo. Ir ao cinema, passear, fazer um lanche fora de casa, comprar um presente para alguém e outras situações simples da vida são negadas a quem não tem dinheiro. As restrições da ordem econômica afetam também o convívio, a vida social e o ir e vir. Eis a morte social à espreita.

O resultado dessa dinâmica perversa de limitações e restrições no plano da sociabilidade humana é a morte psicológica, muitas vezes a se manifestar como depressão, angústia e sofrimento. A vida vai ficando embotada, perdendo o sentido. Para algumas pessoas, a sensação de fracasso e culpa pode se tornar insuportável. Na fase final desse processo podemos ter o desfecho definitivo, a quarta morte. Aquela possibilidade funesta que encerra todas as outras possibilidades, o projeto que encerra todos os outros projetos.  

Esse processo pode ser variável e pode não acontecer dependendo das capacidades de cada pessoa, de sua força interior ou resiliência. No entanto, o que nos causa profunda revolta é que a vida de muitas pessoas, principalmente as mais vulneráveis, não precisaria ser um expediente brutal de sobrevivência ou de sofrimento e frustração se tivéssemos uma sociedade (governos e sociedade civil) preocupada com o bem-estar de todas as pessoas.

Prof. Everson Araujo Nauroski é filósofo clínico, doutor em sociologia pela UFPR e coordenador do Curso de Sociologia do Centro Universitário Internacional Uninter.

Uma sucessão de acontecimentos trágicos nos últimos dias colocou os brasileiros diante de um sofrimento coletivo, uma mistura de indignação, frustração, angústia, desânimo. Afinal, grandes tragédias suscitam umas das emoções mais básicas do ser humano: a tristeza, que pode nascer de um sentimento de perda por algo que não se pode ser substituir.

Desde muito cedo, somos estimulados a buscar a felicidade. De forma incessante. Evita-se a todo custo a tristeza, não se fala sobre ela, como se essa emoção fosse um monstro à espreita, dissociada da vida humana, distante de nosso dia a dia.

É claro que todos queremos viver uma vida alegre, mas é preciso entender que todas as emoções ensinam algo. Aprender a lidar com elas, sejam agradáveis ou desagradáveis, é fundamental para que as pessoas possam se desenvolver de maneira saudável. Em situações de perda, a tristeza ajuda a compreender o que é realmente importante em nossas vidas, pois fortalece os laços afetivos entre os que ficam.

O sofrimento é condição indissociável do ser humano e pode ajudar no desenvolvimento de habilidades como resiliência e autocontrole. É desejável, é normal, é necessário viver o luto pela morte de uma pessoa querida ou chatear-se por conta de um desastre. Apesar de tristes, essas situações nos ajudam a pensar nas relações humanas que queremos construir.

Tragédias de grandes proporções também podem provocar raiva, emoção que está associada à percepção de injustiça. É o que ocorre no caso das vítimas de Brumadinho ou dos meninos do time de base do Flamengo. No entanto, é possível torná-la positiva, se canalizamos esse sentimento para evitar que novos episódios como esses se repitam. É preciso que a raiva combata as causas que a geraram. 

O mais importante de tudo é compreender os sentimentos. Quando não racionalizamos a tristeza ou outras emoções desagradáveis, elas podem se transformar em “sombras”, que se refletem nas relações humanas e que desencadeiam até sintomas físicos. Falar sobre a tristeza, elaborando-a internamente, pode ser um passo importante para detectar doenças sérias, como a depressão.

A aprendizagem socioemocional é um instrumento poderoso nessa jornada de autoconhecimento. Precisamos entender que sentir emoções, todas elas, é o que nos torna, essencialmente, humanos.

Celso Lopes de Souza é médico psiquiatra, professor e fundador do Programa Semente, metodologia que promove o desenvolvimento da aprendizagem socioemocional em crianças e adolescentes.

Ao longo dos tempos a fé é associada à crença religiosa e aos dogmas de cada religião, o que, inevitavelmente, leva ao afastamento entre os seus adeptos, porque cada qual defende que seus dogmas estão corretos.

Porém, a fé é muito mais forte do que um mero sentimento religioso, porquanto é um sentimento inato de cada pessoa. O Evangelho Segundo o Espiritismo diz que “A fé é o sentimento inato, no homem, de sua destinação futura; é a consciência que tem das faculdades imensas, cujo germe foi depositado nele, primeiro em estado latente, e que deve fazer eclodir e crescer por sua vontade ativa” (Mensagem de um Espírito Protetor, Allan Kardec, p. 189).

A fé deve ser racionada, pois dela depende o desenvolvimento de cada pessoa. Compreender esse conceito implica no encarar as situações socioemocionais do cotidiano de forma mais ampla, livre dos dogmas religiosos.

A vida é repleta de lindas histórias, mas, muitas vezes, nos deparamos com pessoas que valorizam aquilo que, no seu entendimento, não aconteceu na forma com esperam que fosse, esquecendo-se de avaliar que vivemos num mundo de provas e expiações e que as dificuldades as afastam do estado de inércia em que permanecem proporcionando-lhes, ao mesmo tempo, oportunidades para que possam trabalhar a melhoria das suas atuais condições de vida.

Pode-se dizer que a vida se assemelha a uma corrida de obstáculos que tem o poder de impulsionar o progresso humano, pois somos instados a superar os desafios. Toda situação da vida deve ser entendida como um teste que pode nos levar a dar mais um passo em direção à evolução espiritual.

Ante as dificuldades e contrariedades do dia-a-dia devemos exercitar a fé racionada, valorizar as experiências adquiridas e delas procurar extrair as verdadeiras consequências, as quais, não raro, somente podem ser mensuradas no futuro.

A mudança na forma de encarar as inquietações da vida resulta em outra ordem de ideias e, sem dúvida, o bem frutifica onde menos se espera. Aquilo que encaramos como um problema, uma tristeza, enfim, uma decepção, no final, com o passar do tempo, percebemos que, verdadeiramente, foi o fator que nos impulsionou para uma situação melhor. Lembramos, “o progresso é uma condição da natureza humana, ninguém tem o poder se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não asfixiar” (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, perg.783.).

Como os dias de maior dificuldade nos oferecem as grandes lições, nós devemos nos esforçar intimamente para aproveitar desse aprendizado da melhor maneira possível. 

Assim, em qualquer situação, mas, sobretudo nos momentos de aflição, cultivemos a fé e a paciência, mantendo-nos firmes na esperança e na certeza de que “depois da tempestade vem a bonança” (Salmo 126).

Paulo Eduardo de Barros Fonseca é vice-presidente do Conselho Curador da Fundação Arnaldo Vieira de Carvalho, mantenedora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

A discussão que rodeia o cotidiano da sociedade hoje, se detém ao acesso à posse de arma de fogo, que durante 15 anos provocou diversos debates sociais. Após a posse do novo presidente Jair Bolsonaro, em apenas alguns dias houve um desfecho para essa discussão.


Dr. Bruno Nazar, psiquatra

Assinado dia 15 de janeiro de 2019, o decreto que permite aos cidadãos manter arma de fogo em casa. A partir da tomada dessa decisão de flexibilização do acesso a armas de fogo, o problema passou a refletir no psicológico das pessoas, de forma mais profunda, gerando pânico e abrindo um leque maior para discussão. Levando em consideração que a cada 14 minutos, uma pessoa morre por arma de fogo, sendo parte delas o suicídio - ainda um debate de grande tabu em nossa sociedade. 

“Aproximadamente 800 mil pessoas cometem o suicídio em todo o mundo e pela sua alta frequência, ele é considerado um problema de saúde pública. A Organização Mundial de Saúde calcula que, ao redor do mundo, uma pessoa se suicide a cada 40 segundos. Entre jovens de 15-24 anos o problema é tão grave que o suicídio é uma das três principais causas de morte nesta faixa etária. Um ponto trágico nesta realidade é que esta é considerada uma causa de morte previsível”, afirma  Bruno Palazzo Nazar, médico psiquiatra.

“Nem toda pessoa que tenta o suicídio está deprimida e planejando a própria morte, por vezes, a tentativa de se matar se dá num impulso para tentar acabar com uma sensação de pânico, de desespero ou uma dor psicológica que se tornou insuportável, chamada de psychache”, completa Dr. Bruno Nazar.  Os casos de suicídio impulsivos associados à uma arma de fogo podem provocar sequelas físicas mais graves do que por outros métodos, além de  levar à morte com mais frequência. Pesquisadores da universidade de Harvard frisam que nos Estados Unidos, o risco de uma pessoa se matar é três vezes maior nos lares de famílias onde há uma arma de fogo. Além disso, nestes casos, a arma da família é utilizada em 75% dos suicídios completados, enquanto que apenas 20% das tentativas não completadas de suicídio utilizaram armas.

Passadas a eleição e as primeiras semanas de acertos e “bolas fora” da nova equipe que assumirá o comando do país, a população brasileira começa a vislumbrar a possibilidade de que haverá um futuro melhor. E a menos de um mês da posse do novo governo, há expectativa, incógnitas e muita ansiedade. Mas a tensão emocional geral, se mostra significativamente menor que a pressão angustiante a que fomos submetidos durante o ano que chega ao fim.

No atual período de rescaldo dos sentimentos, advindos desde os impactos dos períodos anterior e posterior ao impeachment, das eleições 2018, e aos quais são acrescentados os quase cinco anos de Operação Lava Jato, a anunciada perspectiva de mudança que emergiu das urnas, serve como estímulo ao desenvolvimento da resiliência. E ainda que a realidade do país, um pouco melhor se comparada ao passado próximo, esteja longe de gerar entusiasmo, e estejamos envoltos por incertezas relacionadas à assertividade da equipe que assumirá em janeiro; se a população não for afligida por novas decepções em relação ao que foi publicizado em campanha, será possível, avançar rumo a reversão do processo de cisão emocional que observamos há anos.

Ao estabelecermos uma analogia entre o processo de recuperação em Saúde Mental da sociedade brasileira, e a reconstrução desenvolvida em tratamentos psicoterápicos, é possível enxergar algumas alternativas de direção a seguir. Os “Pacientes” - indivíduos e populações - que apresentam características biológicas, psicológicas, e relacionais subjetivas (diferentes e individualizadas), em função dos diferentes “Ambientes” em que estão inseridos, poderão, por exemplo, metabolizar esta cisão emocional através da possibilidade de “dar nomes” ou identificar os sentimentos provocados pela vivência das situações abusivas a que foram submetidos pela quebra da ética, corrupção e contínuas tentativas de distorções da realidade.

Agora e após o início do futuro governo, a forma com que as diferentes forças da sociedade irão interagir, será determinante para o sucesso desse idealizado “tratamento nacional de saúde mental”. E somente com a amenização dos sentimentos de medo e revanchismo, e da sabedoria de governar democraticamente, com humildade e pluralidade, será possível reconectar os vínculos emocionais que unem a nação. Convém observar, inclusive, que os veículos de comunicação em geral, e as lideranças políticas preteridas na eleição, exercerão papel significativo em benefício, ou em prejuízo, da população que almeja a recuperação econômica, social e moral. E se é infantil imaginar apoio ao novo governo, mesmo que em benefício do país, se essas forças ao menos revelarem maturidade para respeitar a escolha democrática, e evitarem ações ressentidas e oposição irresponsável, sua atuação irá simplificar o tratamento.

Na união e nos Estados, as novas equipes de governo deverão enfrentar o oceano de desafios a que se propuseram, sabendo que haverá pouca tolerância com erros. E isso porque o paciente precisa de cuidados emergenciais. Por outro lado, é indispensável que a sociedade civil, assim como as forças econômicas, políticas e sociais, esteja comprometida com o país, e entendam que a prioridade, nesse período, é o bem estar do paciente.

O momento exige controle sobre as paixões, solidariedade e inteligência emocional para restabelecer o equilíbrio mental nacional. Após o desastre e o período mais agudo da crise, a reconstrução exige tempo e a participação efetiva de todos.

Prof. Dr. José Toufic Thomé
Médico pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Psiquiatra e Psicoterapeuta Psicodinâmico especialista em situações de crises e transtornos da contemporaneidade. Presidente da Unidade Brasil da Rede Ibero-Americana de Ecobioética - Cátedra UNESCO de Bioética. Presidente da Secção Psiquiatria em Crises e Desastres da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA na sigla em inglês).

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