A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

 Eu já estava entediado lendo esse livro (mesmo com o título paradoxalmente engendrado) de Milan Kundera, quando me deparei com o seguinte: “Existem cada vez mais universidades e cada vez mais estudantes. Para desenrolar seus pergaminhos é preciso que eles encontrem temas de dissertação. Existe um número infinito de temas pois pode-se falar sobre tudo e sobre nada. Pilhas de papel amarelado se acumulam nos arquivos que são mais tristes do que os cemitérios porque neles não vamos nem mesmo no dia de Finados. A cultura desaparece numa multidão de produções, numa avalanche de sinais, na loucura da quantidade. Creia-me: um só livro proibido em seu antigo país significa muito mais do que os milhares de vocábulos cuspidos pelas nossas universidades”. Pronto, isso foi o ponto de partida para eu me jogar (prestando mais atenção) e arriscar galgar tortuosos degraus da escada que me conduziria ao patamar da escrita arrevesada que (imaginava eu) compunha o confuso triângulo amoroso entre o cirurgião mulherengo Tomas (que tinha como hábito urinar na pia), a fotografa romântica Tereza e a pintora modernosa Sabina.
“A Insustentável Leveza do Ser” não é o tipo de livro que fica por muito tempo ao lado da minha cabeceira, mas tenho que admitir que por alguns momentos ele me fez flutuar sensivelmente entre os discursos filosóficos de Confúcio, Pascal ou até mesmo de Nietzsche – além das críticas ao filho de Stalin que, quando preso, morreu eletrocutado numa cerca de alta-tensão por não querer limpar as latrinas que ele próprio sujava – e também a mera narrativa amorosa de romances de quinta categoria de bancas de revistas. Mas, acima de tudo, as idéias defendidas por Kundera contidas nos sete capítulos (muitas vezes sem caracterização alguma) sobre relacionamentos amorosos, me deixaram muito confuso e, por alguma razão, me fez lembrar do filme “A Casa do Lago” (estrelado por Sandra Bullock e Keanu Reeves) com a paciente “arte” da espera. Porém, o próprio autor explica dentro do livro: “As perguntas realmente sérias são aquelas – e somente aquelas – que uma criança pode formular”. Acho que por mais que Kundera tenha tentado dá um nó em minha cabeça sua mensagem foi transpassada para o meu subconsciente, tanto que acabei usando um pensamento dele no meu novo romance “Os Enforcados” que atualmente ando trabalhando, quando Kundera diz que “um livro aberto era como um sinal de reconhecimento de uma fraternidade universal”.
CHATEAÇÃO ROMÂNTICA – Aplaudido por uns, criticado por outros, o livro se apresenta cheio de interrogações num enredo não-linear e de forte teor psicológico. E, antes de qualquer coisa, apresenta também uma imensa lista de devaneios e sentimentos contraditórios, de dar sem saber o que pedir em troca, de infelicidades indefinidas, de vazios mentais cheios de nada, de uma estranha forma de amar traindo, de viver num limbo constante entre a felicidade desmesurada e o precipício. Uma chateação romântica repleta de frases dúbias: “A idéia de que embaixo Franz é um homem adulto, e em cima um recém-nascido que mama – e, (...) nunca mais lhe dará seu seio como uma cadela à sua cria, hoje é a última vez, irrevogavelmente a última!”. Mas, ao mesmo tempo, o autor consegue se superar: “Se o eterno retorno é o mais pesado dos fardos, nossas vidas, sobre esse pano de fundo, podem aparecer e toda a sua esplêndida leveza”.
E respirei fundo. Respirei num compasso marcado pelo peso da leveza introspectiva das páginas, cruzei com Karenin – uma cadela batizada com nome inspirado num romance de Tolstói. Imaginei Sabina, a irresistível amante de Tomas, e lembrei da música “Eduardo e Monica” da Legião Urbana. Percebi um autor indigesto e marcado pela mão pesada do comunismo soviético, um país (Checoslováquia) mergulhado numa profunda crise de identidade e, fundamentalmente, um povo fustigado pela – e com raiva da – ditadura imposta. Fechei o livro várias vezes. Tentei gostar de Kundera e das suas asserções, mas confesso: é uma coisa meio deprê. Descobri que o cara é complicado – muito mais complicado do que eu – que gosta de números, de dividir a sua obra de forma a (também) fazer dela um instrumento de análise para a numerologia; e que tentou escrever de forma simples sobre coisas complexamente bonitas, mas que se perdeu quando as transformou em coisas melancolicamente difíceis: como uma relação amorosa.
VOZ ESQUIZOFRÊNICA – “Os personagens de meu romance são minhas próprias possibilidades que não foram realizadas. É o que me faz amá-los, todos, e ao mesmo tempo a todos temer. Uns e outros atravessaram uma fronteira que eles atravessaram (fronteira além da qual termina o meu eu). E é somente do outro lado que começa o mistério que o romance interroga. O romance não é uma confissão do autor, mas uma exploração do que é a vida humana na armadilha que se tornou o mundo. Mas basta. Voltemos a Tomas.” (Kundera: 1999:252). Mas o autor, independente das suas mais subjetivas colocações, parece demonstrar um estado de tédio sufocante que me atormentou a cada passagem de páginas.
Tudo no livro me pareceu por demais incompleto, principalmente na voz esquizofrênica do narrador – e eu fui, dessa forma, descobrindo com mais cuidado, que não se tratava apenas da voz de uma personagem qualquer, até quando o Kundera acusa a imprensa de ser manipulada pelo Estado. A partir daí, enredo, foco narrativo, personagens, tempo, espaço, etc. tudo é descrito de maneira eufórica, cambaleante e confusa. Nada é o que parece ser. Até as crises de consciências de Tomas por trair Tereza com Sabina. Ou Sabina por trair Tomas com um tal de Franz – que surgiu na história de lugar algum. E o Franz, como força do destino, acaba traindo Sabina com uma estudante de óculos sem nome. Mas como disse o próprio autor: “Seu drama não era de peso, mas de leveza”.
DIEGESE – Não quero com isso entrar num processo degenerativo da obra, na procura desesperada do ser biográfico, mas sim de uma persona ou sujeito ficcional que insurge no romance como uma voz que se desloca e ao mesmo tempo se prende às personagens e à diegese. Lá pela quinta parte do livro, Tomas perde o seu valioso emprego como cirurgião num hospital por causa de um artigo sobre Édipo de Sófocles publicado num jornaleco qualquer. Não entendi absolutamente nada nessa parte sobre o que o autor quis passar e o mais improvável acontece: de cirurgião renomado, Tomas acaba como limpador de janelas pelas ruas de Praga (com uma longa vara de lavar vidraças) e “consolo de senhoras desavisadas”, as quais ele chama de “mulheres-girafa” ou “mulheres-cegonha”. Argumentação horrível do senhor Kundera, para quem queria descrever um personagem que ficava excitado só de pensar na possibilidade de uma trepada.
Num dos parágrafos encontramos uma sugestiva cena sobre um comportamento muito comum hoje em dia entre casais modernos – o ato de fazer “fio-terra” no parceiro: “Ele tinha a mão colocada sobre seu sexo úmido e escorregou o dedo até o ânus, seu lugar preferido em todas as mulheres. Ela o tinha extremamente protuberante, o que sugeria com nitidez a idéia do longo tubo digestivo que terminava ali com uma ligeira saliência. Apalpou o anel firme e sadio, o mais belo de todos os anéis, chamado esfíncter em linguagem médica, quando, de repente, sentiu os dedos da mulher-girafa colocarem-se no mesmo lugar de seu traseiro. Ela repetia todos os seus gestos com a precisão de um espelho”.
PERSONAGENS ESMAGADOS – Mas se manter um relacionamento é uma coisa muito difícil nos dias de hoje, o autor classifica as pessoas em simples categorias – só faltou colocar códigos de barra. A primeira categoria é descrita como aquela que procura a aprovação do público. Na segunda estão os que não podem viver sem ser o foco de olhares familiares. Na terceira, muito comum, os que têm necessidade de viver sob o olhar do ser amado. E por fim, a mais rara, os que vivem sob o olhar imaginário, os sonhadores. Então, o autor mata os personagens principais esmagados sob um caminhão. Será que ele quis dizer que todos os sonhadores terminam da mesma forma? Mas, antes de sermos esquecidos, descreve Kundera, seremos transformados em kitsch (*pessoas de vidas simétricas transformadas em devaneios).
No último capítulo, mais uma vez fugindo do enredo, Kundera descreve o início da loucura de Nietzsche que em 1889 vê um cocheiro espancando com um chicote o seu cavalo. Nietzsche abraça o pescoço do animal, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Kundera confessa ser esse Nietzsche que ele ama. Achei demasiadamente propício a explicação, como também muito bonita as cenas da morte de Karenin. O enredo novamente é centrado em Tomas e Tereza que, já haviam sido mortos pelo autor em algumas páginas anteriores, terminam a noite num bar dançando e filosofando sobre a vida em comum e sobre essa insustentável leveza de ser apenas um ser humano. P.S. Esse livro acabou virando um filme dirigido por Phillip Kaufman (que também dirigiu “Os Eleitos”), com Daniel Day-Lewis, a maravilhosa Juliette Binoche e Lena Olin no elenco e que ainda recebeu duas indicações ao Oscar. (“A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER” de Milan Kundera, Mestres da Literatura Contemporânea, romance, 315 págs. 1983 - Record)

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