Por que nossos presidenciáveis desprezam tanto a cultura?

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O incêndio no Museu Nacional me parece uma síntese do tratamento que os nossos governantes têm dispensado à cultura do país

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É realmente irônico! Após dar uma olhada neste domingo (2) nas propostas dos nossos postulantes à presidência da República para o setor cultural, resolvi escrever um texto com o título acima sem imaginar o que estava por acontecer. A propósito, acredito que nem mesmo a mais pessimista das pessoas poderia projetar isso, embora todas as evidências levassem a essa conclusão.

O Museu Nacional (MN), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que neste ano de 2018 completa 200 anos, se vê tomado por um incêndio de grandes proporções. Este incêndio faz sucumbir por completo, em poucas horas, não só sua estrutura física (que um dia serviu de residência à Família Real, inclusive), mas principalmente um volume extraordinário de pesquisa em diversas áreas do conhecimento.

O incêndio me parece uma síntese do tratamento que os nossos governantes têm dispensado à cultura nacional. Ano após ano se observa uma redução dos investimentos públicos para este setor. O levantamento feito pela Auditoria Cidadã mostra, por exemplo, que dos R$ 2,268 trilhões do orçamento geral da União executados em 2015, apenas 0,04% se destinaram à Cultura (42,43% foram para juros e amortização da dívida). Em 2014 esse percentual era de 0,05%.

Sobre as propostas dos candidatos, a maioria faz referências vagas à cultura, demonstrando um desprezo quase completo a esse tema. Aliás, não é demais lembrar que o governo ilegítimo de Temer chegou a extinguir a Ministério da Cultura, mas acabou voltando atrás após enorme pressão dos segmentos culturais. No mesmo período, o governo do Rio, na figura do governador Pezão, tentou algo parecido com a sua secretaria, mas acabou por desistir.

Em relação aos museus (assim como bibliotecas, arquivos, teatros e outros instrumentos culturais), especificamente, a palavra sequer é citada na maioria dos programas, quiçá uma proposta real e consistente que preveja não só a manutenção dos atualmente existentes, mas também a expansão da rede que, ao que parece, sempre esteve muito aquém da importância deste equipamento para a cultura nacional.

Lembro que o Museu Nacional é formado pelos departamentos de Antropologia, Botânica, Entomologia, Geologia e Paleontologia, Invertebrados, Vertebrados e vários Programas de Pós-Graduação, além de uma biblioteca criada ainda durante a Monarquia. A instituição possui mais três unidades de informação: a Seção de Memória e Arquivo (SEMEAR), o Centro de Documentação em Línguas Indígenas (CELIN) e a Biblioteca Francisca Keller (Programa de Pós Graduação em Antropologia Social do MN/UFRJ).

Eu estive há dois anos visitando o Museu, algo que mesmo sendo servidor da UFRJ ainda não tinha tido o prazer de fazer, e fiquei encantado com tudo que vi. Muito do que eu vi ao longo da vida apenas em livros, tive a oportunidade de ver pessoalmente ali. Concluí, então, que todas as pessoas, especialmente as crianças e os jovens, deveriam ter a oportunidade de conhecer um lugar como aquele, algo que pode ter se perdido agora.

Durante a transmissão da tragédia, acompanhei a entrevista do ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão. Ao invés de assumir pelo menos parte da responsabilidade (que não é pequena), o que ele fez (como é muito comum entre os nossos políticos) foi jogar para outras pessoas a responsabilidade, como se ele não fizesse parte de um governo que tem demonstrado de forma reiterada que não tem a menor intensão de dar atenção para a Cultura.

Enfim, uma tragédia sem precedentes na história do Brasil. Uma história de dedicação de pesquisadores, professores, estudantes, técnicos etc. É de fato uma lacuna que se abre em nossa ciência e em nossa cultura que dificilmente será reparada, mesmo que haja um grande esforço para isso. Aliás, a julgar pelas propostas dos nossos postulantes à Presidente, não só o Museu Nacional, como os demais equipamentos culturais do país, ficará à mercê deste tipo de drama.

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