TREZE DE MARÇO

A análise que o comício de 13 de março tenha sido um erro me soa equivocada. Falo do comício da Central do Brasil, quando o então presidente João Goulart anunciou todo um conjunto de medidas com mudanças estruturais no modelo econômico brasileiro. Jango anunciou um decreto que considerava desapropriada as terras às margens de rodovias, ferrovias, leitos de rio, lagos e açudes, para fins de reforma agrária, numa extensão de oito quilômetros. Um dos maiores compradores de terras nessas áreas era o governador de São Paulo Ademar de Barros e seus parceiros. As estradas eram planejadas e traçadas segundo as compras e sua conveniências no âmbito do mercado imobiliário. O esquema se repetia em todo o País. Governadores, políticos corruptos e empresários dos mais variados setores. Jango anunciou a estatização de ponta a ponta do petróleo, ou seja, a distribuição passaria a ser feita pela PETROBRAS. Refiro-me aos postos. Da prospecção à distribuição, monopólio total. Uma reforma urbana ousada, concebida pelo deputado Sérgio Magalhães, previa que proprietários de um determinado número de imóveis teriam os aluguéis recebidos transformados em prestações de compra dos mesmos pelos inquilinos e a esses dava garantias de permanência, evitando artifícios legais para o despejo. Várias outras medidas foram anunciadas pelo presidente. O equívoco foi militar.O esquema que apoiava o presidente, ao avaliar de forma errônea a reação dos contrários e ao não perceber a extensão do processo conduzido pelo embaixador norte-americano Lincoln Gordon, empresários paulistas e de outros estados e o comando militar golpista exercido pelo general Vernon Walthers. Walthers, que falava português fluentemente, era o adido militar na embaixada dos EUA, mais tarde chegou a ser diretor geral da CIA e fora oficial de ligação das tropas brasileiras com as norte-americanas na Segunda Grande Guerra. Era íntimo de Castello Branco, primeiro general designado para governar o Brasil após o golpe de primeiro de abril. Para os norte-americanos a idéia de um Brasil soberano, senhor do seu destino, aliado à revolução cubana, fora do contexto da guerra fria, no chamado Terceiro Mundo, era inaceitável e o aval para o golpe foi dado pelo próprio presidente dos EUA, então Lyndon Johnson. Não se tinha, outro erro crasso do esquema militar de Jango, chefiado pelo general Assis Brasil, a noção da presença da IV Frota norte-americana em águas territoriais brasileiras, pronta para intervir. Num primeiro momento com apoio logístico e se necessário fosse com desembarque de tropas e bombardeio de posições favoráveis a Jango. Condições objetivas para resistência também existiam. Jango optou por exilar-se no Uruguai. A presença do presidente, que não renunciou, foi deposto, era decisiva para a reação. A maioria da população brasileira apoiava o governo. É claro que qualquer análise tem que levar em conta o tempo e o espaço, se compararmos o governo Goulart com os governos petistas de Lula e Dilma. Lula alcançou alguns avanços, mas manteve intocadas as posições neoliberais, implementadas no governo de Fernando Henrique (ligado a Fundação Ford). Dilma é a mistura completa de nada com nada. Produto do lulismo, apenas isso. Ou seja, os avanços obtidos por Lula soam concessões. Não modificaram em nada o caráter selvagem do capitalismo no Brasil, principalmente no campo. Hoje, às vésperas de uma nova eleição presidencial o governo Dilma é amontoado de partidos sem compromissos com transformações econômicas e políticas, mas interessados num poder que mantém todo o esquema levado a cabo no governo FHC. É refém do Congresso e da maior agência de empregos do Brasil, o PMDB, transformado em partido político. Contrapõe uma política econômica neoliberal com concessões de natureza social, que acabam por se transformar em verdadeiros coronéis eleitorais. Por mais que tenham aqui e ali significado avanços. A essência é a mesma. Ao contrário de revoluções como na Venezuela, na Bolívia, no Equador, não fomos capazes de acabar com o analfabetismo e nem extinguir a miséria. Em 2015 Cuba será o primeiro país do mundo a ser declarado livre da miséria. As estruturas escravagistas do latifúndio permanecem as mesmas e as práticas sonegadoras de grandes grupos não mudaram, caso do Itaú e outros bancos, como podre é a mídia de mercado, que dança sozinha no palco das notícias, formando e moldando a opinião pública ao sabor dos interesses de nossas elites políticas e econômicas tacanhas. A maior rede de comunicação do País, o grupo GLOBO, é uma das grandes sonegadoras do Brasil. O governo, ao contrário do que acontece em outros países da América Latina, não discute sequer uma nova lei de meios e o ministro das Comunicações é notório empregado das grandes empresas do setor. É sob a ótica da coragem e da determinação de mudar, da fidelidade aos compromissos assumidos em praça pública que o comício da Central tem que ser visto em primeiro lugar. A diferença abissal entre João Goulart e Lula. Um foi presidente, outro sobrevivente, ou como dizem, “encantador de serpentes”, no exercício do equilibrismo político e dá com uma das mãos e tira com a outra. E só essa política de compensações, que se repete no governo Dilma, tem sido fator de preocupação do capitalismo, das grandes empresas, do latifúndio, num País onde seitas religiosas vão tomando espaços de tal ordem que querem legislar sobre como ser a família e por aí criar párias, violando direitos básicos e fundamentais. As chances de Dilma ser reeleita são quase absolutas. Não existe oposição a rigor. Ou é a confusão mental chamada Marina da Silva, ou o oportunismo de Eduardo Campos, pior, o neto travestido de choque de gestão e mergulhado em pó, o tucano Aécio Neves. No governo Lula, em termos de política externa, a despeito do equilibrismo e do tratado absurdo de livre comércio com Israel, concessão feita no escuro, ainda conseguimos ser protagonistas em alguns momentos. No governo Dilma nem política externa temos. Sob esses aspectos, a importância histórica do 13 de março é muito maior, como maior é João Goulart que Lula e seus acólitos. O próprio poder Judiciário, à época comandado por um ministro íntegro e independente, Ribeiro da Costa, hoje em mãos de um trêfego e venal Joaquim Barbosa. A primeira percepção da ditadura foi a de desmontar o movimento popular. Hoje, a greve dos garis do Rio de Janeiro, o congresso nacional do MST – Movimento sem Terra – mostram que a luta é nas ruas onde o prefeito do Rio joga um resto de fruta que não comeu, sem máscaras financiadas pelo exterior, de cara limpa e coragem, no processo de retomada da organização popular, da conscientização e do embate. Sem confronto não haverá avanço. Como está, um rosto bonito, apesar dos efeitos do tempo, é o bastante para tomar uma suposta entidade de esquerda, não importando que seja parte do serviço de inteligência da Polícia Civil em seu estado. O 13 de março precisa ser estudado e compreendido para que se possa dar sentido a luta popular. Ou vai virar desfile de escola de samba homenageando a GLOBO com rainha da bateria fantasiada de X-9.
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