Ganhar mais e salvar o clima: Nosso modo de vida questionado

O aquecimento climático, do qual nosso planeta começa a sentir os primeiros efeitos, resulta – sabemos todos – do consumo sem freio de fontes naturais e, em particular, da energia de origem fóssil (carvão, petróleo e gás). A degradação acelerada do equilíbrio natural é a consequência de um modelo de sociedade predador: desintegração urbana e a saturação do espaço pelo automóvel, petróleo a preço baixo (ele chegou, em 2017, à metade do preço que tinha em 1970 em termos reais). 

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Esta predação de modo primitivo (tributa-se essas fontes naturais sem a preocupação de renová-las) foi tornada possível pelo enfraquecimento dos Estados em benefício de interesses financeiros e especulativos. Sem preocupação com o interesse geral, esses últimos descobrem mesmos nas tragédias ambientais a oportunidade para ter mais e novos lucros (climatizadores, polinizadores artificiais, eletrificação de veículos...). 

As mais belas resoluções dos governantes e da classe política tornam-se sem efeito frente às pressões dos interesses financeiros quando uma ocasião para lucro surge ali ou acolá. 

Assim, até o início do século XXI, o Canadá, rico em energia hidrelétrica renovável, voluntariamente apresentava sua preocupação com o meio ambiente. Tão logo descobriu enormes jazidas de xisto betuminoso em Alberta, mandou às favas sua virtude para dedicar-se descaradamente à sua exploração. Na França, as declarações grandiloquentes do governo são também de pouco peso quando se trata de implantar um centro comercial com 330 hectares em terras férteis ao norte de Paris ou de explorar um depósito de ouro na floresta da Guiana. 

Este é o sinal de que jamais houve renúncia à busca do lucro em detrimento do interesse geral e de longo prazo, sempre com o pretexto da “criação de empregos” que não se importa com os empregos destruídos silenciosamente (por exemplo no comércio independente na área norte de Paris) e das vidas roubadas pela poluição (na floresta guianesa, como por exemplo, na proximidade do complexo petroquímico de Berre-Marseille). 

Da economia agrícola à predação 

Antes do século XX, os europeus, em seu avanço sobre o restante do mundo, tinham pacientemente construído uma economia de mercado baseada no estado de direito e nas relações de confiança. 

Essa economia ainda estava impregnada dos princípios herdados pelos agricultores, ou seja, uma exploração cuidadosa dos recursos naturais. Esses mesmos princípios podiam ser encontrados em todas as grandes civilizações no Mediterrâneo, Europa, China, Índia, Andes... Frequentemente expostas aos riscos da escassez e das fomes, todas essas civilizações puderam se desenvolver convivendo com a Natureza e gerenciando o espaço com parcimônia e inteligência. 

Este modelo foi interrompido no século XX, por um lado pelo aparecimento de técnicas de uma eficácia devastadora (máquinas agrícolas, produtos fitossanitários, queima de petróleo...) e por outro pela emergência dos Estados Unidos como potência dominante. 

Os europeus observaram o “american way of life”, desenvolvido do outro lado do Atlântico com os olhos de Ximena, e o adotaram, sem hesitar, após a Segunda Guerra Mundial, seguidos algumas décadas depois pelos habitantes do litoral do Mar da China. 

Ora, o “modelo” americano era essencialmente diferente de todos os anteriores. Ele foi forjado há um ou dois séculos pelos colonos europeus quando encontraram recursos naturais quase que inesgotáveis: planícies infinitas e (quase) desabitadas que não exigiam nada além do preparo, rios que não exigiam nada além de algum controle e um subsolo para ser explorado. 

Esquecidos da sobriedade de seus ancestrais e livres do risco da escassez, os americanos passaram a explorar esses recursos sem preocupação com o amanhã. 

Eles não se comportavam mais como os agricultores europeus ou chineses preocupados em preservar ano após ano a fertilidade da terra, mas como os caçadores-coletores do Paleolítico, retirando seu alimento da natureza à sua volta, sem se preocupar com sua renovação. É verdade que os caçadores-coletores eram em números bem menor, de sorte que sua predação não tinha consequência sobre o meio ambiente. Bem diferente disso foram os americanos, em número sempre crescente e equipados com ferramentas bastante eficazes... 

Enquanto as cidades da Europa e da Ásia foram pouco a pouco se formando de modo que todo e qualquer um pudesse acessar seu centro a pé, as novas cidades americanas logo se afastaram desse modelo. Graças ao espaço disponível a bom preço e também graças ao transporte a cavalo, depois graças ao automóvel, elas se estenderam ao máximo. 

No início, todos viram no automóvel uma enorme manifestação de liberdade e, no pós-guerra, ela se tornou o primeiro critério de acesso à classe média. Ela já estava onipresente no filme “A fúria de viver”, com James Dean (1955). 

Quanto mais as cidades se estendiam, mais elas tornavam o uso do automóvel necessário e obrigatório. E quanto mais o uso do automóvel se generalizou, menos os desenvolvedores tiveram preocupação com o espaço e as distâncias. O climatizador, inventado por Carrier em 1902, permitiu que os americanos urbanizassem os desertos do Novo México e do Arizona. O comércio adaptou-se ao novo estilo de vida ao construir shopping centers termicamente isolados, acessíveis apenas de carro. É por isso que qualquer adulto americano não admite viver sem seu carro. É sintomático que a comédia musical La La Land (2016) tenha início com um ballet surrealista apresentado em meio a um gigantesco engarrafamento de trânsito! 

As viagens de avião foram, por sua vez, democratizadas e, para acelerar seu desenvolvimento, ficou proibido, desde 1944, tributar o combustível de aviões (querosene) e os bilhetes internacionais, sob o falacioso pretexto de que a regulamentação do transporte aéreo é parte de um acordo internacional. Chegamos então ao absurdo de saber que uma passagem aérea Paris-Nova York custava menos que uma viagem de trem de Paria a Nice. 

Atualmente, de Brest a Taipé, todos aspiram o mesmo modo de vida, com cidades tentaculares, devoradoras de espaço e submissas ao império dos automóveis, aos espaços climatizados ou bem aquecidos, com um a dois carros por família, com viagens aéreas de vai-e-vem, etc. Este modo de vida diz respeito a quatro quintos dos habitantes dos países ricos (cerca de um quarto da humanidade), ao passo que as classes superiores dos países pobres também aspiram juntar-se a elas. 

Tudo isto foi possível graças à extração de um petróleo abundante e barato pela prática de intensa perfuração do subsolo nos Estados Unidos, depois no Oriente Médio, Venezuela, etc. 

O petróleo de hoje é duas vezes menos caro que o de 1970 

Apesar dos desejos dos governantes e dos ativistas ambientais, nada parece apto a interromper a destruição dos recursos naturais. Ao contrário, ela se está acelerando em razão da baixa regular do preço da energia. 

Se nosso consumo de carbono, de petróleo, de pesticidas e fertilizantes químicos parece condenado a um crescimento irresistível depois de muitas décadas, isto não se deve a alguma fatalidade, mas a uma escolha coletiva a favor de uma energia mais barata.  

Na França, em função de um aumento moderado dos tributos e dos royalties e apesar dos choques de petróleo de 1973, 1978 e 2008, os derivados de petróleo são duas vezes menos caros (em valores relativos) que em 1970. Em outros termos, seu preço aumentou com rapidez bem menor que nossas rendas e menos rapidamente que a maior parte dos demais produtos. 

Esta realidade aparece na leitura dos Quadros da Economia Francesa, INSEE, 1970 [(Tableaux de l’économie française (INSEE, 1970)]. 

Assim:

Em 1970, na região parisiense, a baguete custava 0,55 francos e o litro da gasolina super exatamente o dobro, ou seja 1,1 francos. 

Em 2019, a baguete passou para cerca de 1 euro e o litro da gasolina Super para 1,5 euros. (A diferença não ultrapassa 50%).  

Sabendo que um euro equivale a 6,5596 francos, o preço da baguete foi multiplicado por doze em cerca de 50 anos e o preço da gasolina Super foi multiplicado por nove. 

No mesmo intervalo de tempo, a hora do salário mínimo foi multiplicada por vinte, de 3,3 francos para 10 euros. Podemos então dizer que o litro da gasolina Super está duas vezes menor que em 1970, na medida que um assalariado da base deve trabalhar duas vezes menos para comprá-lo... 

Notamos também que o cartão semanal do metrô em Paris custava 4,80 francos em 1970 contra 20 euros em 2019 (27 vezes mais!), a se comparar com a Super (abaixo) ou do gás: 10 termias (unidade de calor utilizada na Europa) equivalentes a cerca de 12 kWh custavam 1,1 franco em 1970 e cerca de 0,9 euro atualmente (5 vezes mais). 

O que se pode dizer? Em 1970, a escala de preços levava o usuário racional a usar o metrô; em 2019, ela o leva a usar o transporte individual! Melhor (ou pior) o cartão do metrô aumentou mais rapidamente que o salário mínimo. Dito de outro modo, o assalariado modesto demais para poder comprar um carro tem menos facilidades para se movimentar em 2019 do que em 1970!  

Resumimos esses dados na tabela abaixo

1 euro = 6,5596 francos

Preço em 1969 (francos)

Preço em 2019 (euros)

Evolução (vezes)

Salário mínimo / hora

3,3

10

20

Baguete (250 g)

0,55

1

12

Cartão semanal do Metrô

4,8

20

27

1 litro de gasolina Super

1,1

0,9

5

10 termias de gás

1,1

0,9

5

Se atualmente somos dependentes do automóvel e inclinados a consumir tanto em derivados de petróleo como outras fontes de energia de origem fóssil, isto não é fruto de nossa liberdade, mas o resultado de uma escolha coletiva (ou de uma armadilha) na qual fomos ficando presos pouco a pouco como se fôssemos dependentes de alguma droga. 

Na França, esta escolha coletiva surgiu com clareza durante o governo do presidente Georges Pompidou, quando este propôs fazer o país entrar na modernidade (rodovias, linhas de TGV, centrais nucleares...). 

Para “tornar moderno”, adotamos o modelo americano, com um carro para cada adulto e hipermercado para todos (o primeiro hipermercado francês foi aberto em 1963). Essa escolha coletiva desejada pela classe dirigente e endossada pelos eleitores caminhava de mãos dadas com uma queda na tributação sobre o petróleo, seus derivados e o gás. Na aviação, em particular, chegamos à tributação zero para o querosene tendo como consequência a penalização das alternativas ao avião mais econômicas em energia como o trem. 

Atualmente, enquanto a exploração do petróleo betuminoso canadense e o gás de xisto americano alcançam sua plenitude, o abrandamento do crescimento da economia chinesa e a competição entre os países exportadores de petróleo (Arábia Saudita, Irã, Rússia...) fazem com que o barril de petróleo esteja em sua maior baixa em meio século (cerca de cinquenta dólares o barril de 159 litros). 

Nessas condições, com as energias fósseis vendo seus preços atraídos sem cessar para baixo, não é cabível esperar que os Estados e os particulares economizem energia ou se reúnam todos e para o bem de todos passem a usar energias limpas. 

Por mais cheios de boa vontade que sejamos devemos, dia após dia, fazer as escolhas de consumo com base em nossos recursos orçamentários e essas escolhas devem ser orientadas pelos preços dos diferentes produtos. Como renunciar aos pratos prontos de grande distribuição para consumir produtos frescos vendidos bem mais caros e que requerem preparação na cozinha? Como resistir a um adolescente atraído por um passeio linguístico nos Estados Unidos, bem mais barato que um acampamento no Jura (maciço na fronteira franco-suíça)? 

É bom para o crescimento”? 

Confrontados com a degradação do meio ambiente, alguns especialistas justificam com o inevitável corolário do crescimento econômico. O preço do progresso! Não podemos ficar congelados no passado e na pobreza! 

Para alguns Diafoiros e Trissotinos (personagens da comédia “As mulheres eruditas”, de Molière) os prejuízos ao meio ambiente contribuem para o crescimento econômico: os bombeiros mobilizados contra os incêndios na floresta e os socorristas ao lado das vítimas de acidentes rodoviários não contribuem para o PIB (Produto Interno Bruto)? Sofisma que um pouco de bom senso é o bastante para dissipar...  Esses bombeiros e socorristas evitam a degradação de nosso bem-estar coletivo e individual. Todavia, sem os incêndios e acidentes provocados por nossa raiva predadora, eles poderiam se empregar em aumentar esse bem-estar, por exemplo, preparando o espaço natural para nossas caminhadas ou ajudando as pessoas mais fracas ou idosas. Sua contribuição para o PIB ficará inalterada, mas esse PIB se traduzirá em um aumento de nosso bem-estar coletivo e individual. Não será melhor? 

Por ser pertinente, a contabilidade nacional deveria registrar as depreciações dos ativos que as gerações futuras deverão ter compensadas a preço de ouro ou cujas perdas deverão suportar. 

·       Exaustão do subsolo

·       Desgaste do solo agricultável

·       Destruição das florestas

·       Empobrecimento do patrimônio genético

·       Surgimento de novas doenças

·       Desfiguração das paisagens

·       Prejuízos causados pelas ondas de calor... 

Se incluirmos no passivo do PIB todas essas depreciações dos ativos a fim de aprovisionar como toda empresa normal faz, não há dúvida que nossas taxas de crescimento serão bem mais modestas podendo mesmo chegarem a ser negativas. 

Original em: https://www.nosutopies.fr/histoire/synthese.php?ID=2283&ID_dossier=464

Traduzido do Francês por A. Pertence

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