Quem derrotou o nazismo?

Nos dias 7-8 de maio de 1945, depois de ser derrotada em El Alamein, Stalingrado e na Normandia ... a Alemanha nazista entrou em colapso e seus generais se renderam incondicionalmente em Reims, na França e em Berlim.

https://jornalorebate.com.br/19-07/normandia.jpg

Em maio de 1945, depois em maio de 1994, em junho de 2004, em maio de 2014, e em maio de 2015, o IFOP (Instituto Francês de Opinião Pública) fez a uma “amostra representativa” de franceses a seguinte pergunta: “qual foi, em sua opinião, a nação que mais contribuiu para a derrota da Alemanha em 1945?

·       Inglaterra (Império Britânico)

·       Rússia (URSS)

·       Estados Unidos (EUA)

·       Os três países juntos

De nossa parte, em 6 de junho de 2019, convidamos nossos leitores franceses a responder a mesma pergunta. Foram muitos a respondê-la e a maioria incluiu ainda um comentário. Suas respostas foram instrutivas e surpreendentes. Elas dão testemunho, em primeiro lugar, do interesse dos leitores de L’Herodote.net pelas questões memoriais. Elas revelam também uma percepção da História bem afastada daquelas que emana da mídia institucional e do grande público. Essa é a prova da grande independência de espírito de nossos leitores, da qual estamos muito orgulhosos... 

A contribuição americana valorizada por Hollywood 

Os resultados do IFOP de uma pesquisa para outra, ilustram a volatilidade da opinião.

·       Em maio de 1945, no momento da capitulação alemã, 57% dos franceses acreditavam que ela tinha sido fruto do esforço soviético. 20% atribuíam a vitória aos Estados Unidos e 12% aos britânicos. Apenas 2% viam a vitória como um esforço conjunto dos três países.

·       Em maio de 2015, a perspectiva estava alterada! 54% dos franceses reverenciavam os americanos contra apenas 23% aos soviéticos e 18% aos britânicos. 5% a atribuíam aos três em conjunto.

Foi assim que a memória coletiva, setenta anos após a guerra, elegeu os americanos como salvadores da Liberdade e do mundo, ocultando claramente o papel dos soviéticos e dos britânicos. Podemos compreender essa reviravolta à luz das mudanças geopolíticas e culturais.

Em 1945, os franceses guardavam ainda a lembrança da operação Barbarossa pela qual a Wehrmacht tinha invadido a URSS. Quando, em dezembro de 1941, os alemães patinavam frente a Moscou, os americanos entraram de fato na guerra ... contra o Japão. Foi somente em julho de 1943, na Sicília, que os combatentes americanos puseram os pés pela primeira vez em solo europeu, lado a lado com os britânicos. A essa altura, os alemães já haviam sofrido, em Stalingrado e Kursk, contra os soviéticos, suas piores derrotas da guerra e sua capitulação final não estava mais em dúvida. O desembarque de anglo-saxões na Sicília e depois na Normandia, onze meses depois, tinha facilitado o trabalho dos soviéticos em seu esforço de guerra e acelerado a questão final em diversos meses, mas seria um contrassenso ver uma razão maior para o desmantelamento do nazismo. Nossos leitores que são bem experientes sobre esses temas bem o sabiam.

Na própria França, os comunistas franceses, apesar de terem entrado um pouco tardiamente na Resistência, logo assumiram uma parte predominante em seu meio e na Libertação, o Partido Comunista, influenciado pela propaganda stalinista e pelos sucessos do Exército Vermelho, tinha seduzido cerca de um quarto dos eleitores franceses! Em outro sentido, na Normandia, o desembarque tinha deixado dolorosas cicatrizes: milhares de civis mortos pelos bombardeios e cidades arrasadas sem qualquer razão. Nas florestas, os GIs (soldados de infantaria americanos), cujo comportamento com as mulheres nem sempre foi exemplar, tinham sido recebidos por semblantes fechados, contrariamente ao que a lenda posterior sugeriu e mostrou.

Logo depois iria se iniciar a chamada guerra fria entre os dois principais vencedores, Estados Unidos e URSS, havendo o risco bem real de um novo conflito, esse com explosões atômicas ou termonucleares (bombas de isótopos de hidrogênio). O campo ocidental iria se posicionar frente ao “ogro” soviético e foi assim que se integrou a Alemanha Ocidental a uma Europa democrática ... A repressão soviética na Europa Oriental (Praga, Berlim Ocidental, Budapest ...) iria fazer esquecer os vinte milhões de soviéticos mortos na luta contra o nazismo. Por outro lado, é digno de nota que a Batalha de Stalingrado, a mais mortífera de toda a História, não tenha inspirado qualquer cineasta, exceto Jean-Jacques Arnaud que a tratou como um duelo entre dois atiradores de elite (Stalingrado, 2001).

Pouco importa que os soldados americanos que deram suas vidas pela Liberdade “não passaram” de 400.000 do total, nos dois fronts, no Pacífico e na Europa. O valor de seu sacrifício se torna incomensurável ... E quando se ama, não se conta! Foi isso que demonstrou depois de setenta anos o cinema de Hollywood. Desde “O mais longo dos dias” (1962, Darryl F. Zanuck) a “O resgate do soldado Ryan” (1998, Steven Spielberg), esses filmes, ao se tornarem dignos de nota, trazem à luz a contribuição americana na luta contra o nazismo ao deixarem na penumbra os demais aliados. Não sejamos, pois, surpreendidos pelo retorno da opinião de setenta anos atrás no que tange às contribuições de uns e outros para a derrota da Alemanha nazista.

Os leitores de L’Herodote.net manifestaram um ponto de vista bastante variado como aqui demonstram os resultados de nossa recente pesquisa.

Pesquisa L’Herodote (6-17 de junho de 2019): Quem derrotou o nazismo? Resultado em 1806 votos:

Resposta

Número

%

Rússia (URSS)

934

51,72 %

Os três países juntos

591

32,72%

Inglaterra (Reino Unido)

155

8,59%

Estados Unidos (EUA)

122

6,98%

A coragem inglesa, o sangue russo, o trabalho americano

A pergunta, tal como formulada pelo IFOP, gerou muito embaraço em nossos leitores que são pessoas experientes (“a questão está mal colocada. A URSS teve o mesmo papel da França em 1914/18, o de primeiro ator no conflito, mas o fato é que sem seus aliados, a URSS – como a França anteriormente – não teria vencido”, Didier) (nota).

Ao final, uma pequena maioria entre nossos leitores rendeu homenagem ao sacrifício humano da União Soviética (“com mais de vinte milhões de mortos, foi o povo russo, na verdade, quem venceu o regime nazista!”, Agnés) um terço não quis se pronunciar, mais outro terço elegeu os três grandes aliados em partes equivalentes (“os ingleses por sua resistência pertinaz e, sem dúvida, os russos por seu enorme sacrifício humano, os Estados Unidos por sua arrasadora máquina de guerra”, Alain).

É bem evidente que, desde a primeira linha, na guerra contra a hidra nazista, é preciso fixar um homem, Churchill (“Sans Churchill ...,” Jean Louis). O filme As horas sombrias nos lembra que, antes de lutar contra Hitler, o velho homem (com 66 anos em 1940) teve de lutar contra seus próprios colegas de governo, partidários de um pacto a da paz a qualquer preço! Durante um ano, do armistício franco-alemão de 22 de junho de 1940 à invasão da URSS (22 de junho de 1941), o Reino Unido foi o único país a resistir à Alemanha!

Forçado e constrangido a combater Hitler, Stalin fez renascer o patriotismo russo a um alto preço (“a vida dos russos não contava para seus mestres comunistas. As unidades militares eram bastante controladas, sendo essa talvez uma das razões pelas quais eles tiveram tantas perdas”, Vallin). Foi possível mudar a situação em favor dos aliados, por causa dos suprimentos americanos (“a potência industrial americana assegurou a vitória sobre as forças do Eixo com empréstimos monetários e materiais aos aliados, alguns milhares de comboios para a Inglaterra e a superioridade aérea assentaram tudo”, Lefa). A contribuição americana à guerra se deve menos a seus soldados que a seus operários que foram capazes de alimentar sem interrupção a máquina de guerra aliada, tanto na frente do Atlântico como na frente soviética, graças aos comboios navais que desembarcavam material e reabastecimento em Murmansk, no Mar Branco.

Sendo assim, nossos leitores não deixam de apontar também os erros que levaram à guerra (“se a Rússia teve tantos mortos não se pode esquecer, jamais esquecer que esse país começou com uma torpeza monstruosa ao apertar a mão de Adolf! Em 24 de agosto de 1939, a assinatura do pacto germano-soviético seria paga por um alto preço!”, Pierre). Entramos aqui em um debate sem fim sobre as responsabilidades de uns e outros. O pacto germano-soviético foi claramente entendido como o prelúdio da guerra. Mas se Stalin se conformou em assiná-lo por temer – e estava certo – que os democratas ocidentais o abandonariam em caso de ataque alemão. Os próprios americanos até dezembro de 1941 tinham deixado claro que a guerra na Europa não os envolvia. E os próprios britânicos não hesitaram, em junho de 1935, em romper com afrente de Stresa” ao assinar um acordo naval com a Alemanha. Quanto aos franceses, eles impediram, em 1931, uma união aduaneira entre a Alemanha democrática e a pequena Áustria democrática. Veio daí, em parte, a crise que assolou a Alemanha e permitiu a ascensão de Hitler ao poder ...

A História é toda formada por nuances dos fatos como bem o sabem nossos leitores. É isso justamente que a faz apaixonante ... 

André Larané, diretor de redação de Herodote.net 

Traduzido do Francês por A. Pertence 

www.herodote.net/histoire/synthese.php?ID=2566&ID_dossier=165

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