OS DEZ MANDAMENTOS PARA O SÉCULO XXI

 Iniciei recentemente um debate pela comunidade LITERATURA CLANDESTINA (Orkut) para falar sobre Deus e religião. Acabei ficando muito surpreso com algumas respostas autoritárias de alguns. Descobri (mesmo não querendo) que é muito complicado abrir um diálogo com qualquer tema polêmico e que talvez venha desagradar aos mais puritanos, mesmo assim, tenho a obrigação de fazê-lo só para acabar com essa monopolização de informações e com essa mesquita de terror quando envolvemos questões de cunho religioso e/ou comum de todos. Porém, até hoje eu fico surpreso com pessoas que se dizem muito esclarecidas, pois são as primeiras a demonstrarem seus preconceitos burros. Às vezes não sei direito se algumas querem dizer: “não roubarás pai e mãe” ou “fornicarás nas festas” em seus discursos fabricados, muitas vezes, em bancos universitários. E este é justamente o tema central do livro “Os 10 Mandamentos Para o Século XXI” do filósofo agnóstico, autor e jornalista Fernando Savater.

Nascido em 1947 em San Sebastián, Savater formou-se em Filosofia. Durante um tempo foi catedrático de Ética, mas atualmente leciona Filosofia na Universidade Complutense de Madri e milita na iniciativa cidadã “Basta Ya”. Considerado um dos pensadores mais destacados da Espanha, Savater já teve publicado cerca de 50 livros, entre suas numerosas obras salientam-se “Ética Para Amadores” (1991), traduzido para 18 línguas. Esse velhinho barbudo, com cara de Papai Noel e muito simpático é conhecido como o Sartre espanhol e já foi até comparado a Salman Rushdie (ainda vou tricotar comentários sobre os “Versos Satânicos” de Rushdie). Como escritor, recebeu em 1982 o Prêmio Nacional de Ensaio e o Prêmio Anagrama. Em 2000, ganhou o Prêmio Ortega y Gasset de jornalismo. Mas Savater também se destaca no cenário político e foi condecorado, também em 2000, com o Prêmio Fernando Abril Martorell, por sua contribuição para a defesa e a difusão da liberdade, da tolerância e dos direitos humanos e com o prêmio Sajarov de Direitos Humanos, concedido pelo parlamento europeu, por sua luta contra a onda de terror imposta pelo grupo independentista basco ETA. Infelizmente, toda essa visibilidade lhe rendeu, além das premiações, a condição de ter que andar somente acompanhado de uma escolta de seguranças. Nem por isso suas idéias deixaram de estar sempre marcadas por uma rebeldia reflexiva (coisa que eu sinto muita falta nos autores contemporâneos e nos meus colegas professores), pelo humor e pela fina ironia.

Porém, só o título do seu livro “Os 10 Mandamentos Para o Século XXI” bastaria para instigar qualquer pessoa inteligente a ler essa obra. Savater analisa com elegância e ironia os ultrapassadíssimos “Dez Mandamentos” divulgados por Moisés, os aproximado do ponto de vista do século XXI. Sem afastar da realidade e sem esquecer as questões que nos interessam esta obra percorre as Dez Leis de Yahvé (*Deus) uma a uma, desde o "AMARÁS A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS" até ao "NÃO COBIÇARÁS OS BENS ALHEIOS"; da sua explicação histórica e bem humorada, passando pela ambígua proibição de roubar ou o dever de honrar os progenitores. Mas achei cômico o capítulo sobre “NÃO DESEJARÁS A MULHER DO PROXÍMO”, pois o autor diz ser uma coisa muito antiquada. Nessas indagações Savater, com o seu profundo sentido de humor e também com mordacidade, oferece ao leitor uma reinterpretação audaciosa, polêmica, moderna e universal dos principais tabus e preocupações humanas, traçando um rico painel da história da crença, da religião e da própria humanidade num dos códigos morais e sociais mais antigos do mundo.

Se servir de alguma coisa, volto a lembrar que sempre questionei a existência desse Deus “assassino”, “monopolizado” e “tirano” das igrejas. O certo é que, por trás de toda essa superficialidade com que lidamos com este tema em nossos dias, a presença desse Deus faz parte das assombrações da humanidade há séculos. Os judeus que fugiram do Egito, por exemplo, estavam sempre imaginando de que maneira podiam se esquivar das ordens que emanavam dos tais Dez Mandamentos. E o que andamos fazendo hoje? “Não faltam estudos sérios que põem em dúvida a própria existência de Moisés e a veracidade de fatos como o Êxodo do Egito. Outros dizem que não existiu um Jesus tal como chegou até os nossos dias, e sim que ele é a soma de situações criadas por diferentes homens chamados igualmente de Jesus (coisa que eu também acredito) – as quais foram fundidas numa única história para melhor compreensão do povo”, questiona Savater. E embora isso pareça muito paradoxal, neste caso a verdade histórica não tem importância porque se trata da transmissão da suposta verdade divina à humanidade. E aquela história de aliança com Deus? Tratava-se de um Deus (piedoso?) que havia oferecido a um povo (escolhido?) um projeto em comum. Tudo isso baseado num acordo que os insignificantes mortais deveriam cumprir sem dar um pio, porque, do contrário, esse Deus ciumento e terrível lançaria as piores desgraças sobre eles. E isso é o que eu chamo de amar a sua criação!

O autor afirma ainda que a cultura constitua, na verdade, um ingrediente essencial de humanização e que neste sentido a filosofia - ou qualquer outro ato de entendimento - nos ajuda a conviver com as nossas insolúveis interrogações e aflições. Liberdade, por tanto, seria autocontrole, porém os “representantes” de Deus deram a conhecer aos seus seguidores fanáticos qual seria a moldura do funcionamento social e quais seriam também as conseqüências para quem ultrapassasse essas fronteiras. Eu chamo isso de liberdade condicional. E a “coisa” deu mesmo certo porque hoje em dia é muito difícil conversar sobre religião com evangélicos fanáticos ou com os católicos cada vez mais alienados por esse tal de Rat(o)zinger ou, até mesmo, em simples comunidade pelo Orkut.

Lembro de uma vez em que uma atendente de uma locadora de vídeo que freqüento (evangélica por sinal) me ignorou só porque eu disse que detestei “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson e que era humanamente impossível Jesus ter sofrido uma carnificina como aquela mostrada no filme. Mas, mesmo não gostando muito, prefiro desligar o botão STOP de convivência, pois os que falam em seu nome são uma verdadeira dor de cabeça – prova disso são alguns comentários (sempre que eu toco nesse assunto) que teimam em infestar a minha caixa de mensagens, feitos por esses “caiapós” (*aqueles que parecem com macacos), sempre nos sugerindo e ordenando o que temos de fazer de acordo com o nível de poder deles. Savater explica que, para terem um funcionamento bem oleado, as sociedades modernas 'requerem eficientes virtudes' e deste modo os Dez Mandamentos, que estão solidamente inscritos no inconsciente coletivo, constituem sem dúvida o arquétipo de todas as funções de controle ideológico dos homens.

Agora, já pensou se o Brasil fosse governado por um regime de fanáticos islâmicos ou aliado a Bin Laden? O que dizer do Paquistão, país muçulmano e dono de seu próprio arsenal de armas nucleares – e tudo em nome de Deus. Para explanar o perigo que a alienação religiosa provoca, a exemplo do jihadismo islâmico representa para o Paquistão, nada melhor que o confronto em Lal Masjid, ou Mesquita Vermelha (para quem não conhece: acho melhor começar a assistir telejornais todos os dias), que terminou com uma centena de mortos, segundo a Globo (ou o dobro de vítimas, segundo a versão da Band) e tudo em nome de Deus. O resultado é que persiste a falta de uma estratégia confiável para vencer a guerra ideológica entre a civilização e o fundamentalismo islâmico. Isso tudo é de dar calafrios. E viva a intolerância religiosa!

E o que você tem a dizer sobre o documento divulgado pelo Vaticano, onde o papa intolerante Bento Rat(o)zinger reforça um aspecto da doutrina católica? O tal documento reafirma a Igreja Caótica como a “única Igreja de Cristo”. Como se ele próprio tivesse passado um e-mail, um fax ou talvez tenha interpelado junto a CNN exigindo a propagação da “nova ordem”. Esse Bento Rat(o)zinger dificulta o diálogo desde que tomou conta do trono de São Pedro, mas bancar as madalenas enganadas não passa de jogo de cena dos cristãos e não-católicos. Como o próprio nome da Igreja expressa como ela sempre se enxergou melhor do que todas as outras. A Igreja é Católica (palavra de origem grega que significa “universal”). Apostólica (fundada por Pedro e Paulo, herdeiros diretos da “verdade” de Jesus). E Romana (não há legitimidade cristão fora do âmbito papal). Mas pedante do que isso, só o Renan Calheiros e o ACM (agora morto). E depois vocês ainda vêem dizer que eu é que sou o autoritário. Me deixe, viu!

Em suma: “Os 10 Mandamentos Para o Século XXI” de Fernando Savater é um livro essencial para quem quer entender como funciona essa manipulação de mentes. Com introduções nos inícios dos capítulos em que se dirige diretamente ao próprio Deus, tratando-o por você e às vezes recriminando-o, e ajudado pelas opiniões de um rabino (Isaac Sacca) e de um padre católico (Ariel Alvarez), que fornecem o contraponto às mordazes e agudas observações de Savater. E Deus nos mandou amá-lo sobre todas as coisas. Aí eu me pergunto e lhe pergunto também: você precisa que o amem tanto assim? Mas pelo menos eu comprei este livro por R$ 10,00 no balaio das Lojas Americanas. (“OS 10 MANDAMENTOS PARA O SÉCULO XXI” de Fernando Savater, 225 págs. Rio de Janeiro, 2004 – Ediouro)

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