Redescobrindo Maria Lacerda de Moura: 130 anos de nascimento

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Há 130 anos, em 16 de maio de 1887, nascia na cidade de Manhuaçu em Minas Gerais, Maria Lacerda de Moura, uma das precursoras na defesa dos direitos femininos no Brasil. Com 5 anos de idade mudou-se com a família para Barbacena. Em 1904, formou-se na Escola Normal desta cidade onde começou a lecionar. Nessa ocasião, Maria Lacerda adotou a pedagogia de Francisco Ferrer, pensador anarquista espanhol que pregava um modelo libertário de educação. Ela funda na cidade mineira a Liga Contra o Analfabetismo e organiza, junto com as mulheres mais pobres da região, mutirões de construção de casas populares. Ela também defende a necessidade das mulheres se emanciparem do sistema patriarcal e da opressão clerical. Em Barbacena, publicou importantes obras como: Em torno da educação (1918), Porque vence o porvir? (1919) e  Renovação (1919).

Por todas essas particularidades, bem como por se declarar espírita e anarquista na provinciana Barbacena do inicio do século passado, Maria Lacerda Moura foi hostilizada e optou por se mudar para o Rio de Janeiro em 1919. Em terras cariocas, Maria Lacerda fundou a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher junto com a bióloga Bertha Maria Julia Lutz. A liga tinha por objetivo lutar pela igualdade de gênero e reivindicar o voto feminino.  Nesse período, Maria Lacerda é convidada a assumir a presidência da Federação Internacional Feminina, entidade criada por mulheres das cidades de Santos e de São Paulo. Na frente da Federação, ela levantou a bandeira da necessidade do currículo escolar incluir uma disciplina sobre a História da Mulher.

Com o passar do tempo, porém começaram os desentendimentos entre Maria Lacerda e Bertha Lutz e suas companheiras. Para Lacerda, o feminismo defendido pela Liga e pela Federação beneficiava apenas uma parcela das mulheres, pois ao não estar  inserido no contexto da luta de classes, excluía as mulheres operárias vitimas da opressão patriarcal e capitalista.  Convicta de que a emancipação da mulher passava necessariamente pela luta de classes, em 1921, Maria Lacerda de Moura mudou-se para São Paulo a fim de militar junto ao operariado.

Em São Paulo, ela conheceu outros ativistas de esquerda e passou a frequentar os militantes anarquistas. Abandonando o magistério público, ela colaborou com a imprensa operária anarquista, contribuindo com artigos em jornais como: A Plebe e O Combate. Publicou os livros: A mulher e a maçonaria (1922), A fraternidade na escola (1922), A mulher hodierna e o seu papel na sociedade (1923), A mulher é uma degenerada? (1924), Lições da Pedagogia (1925),  Religião do amor e da beleza (1926).

Em 1923, editou a revista anarquista Renascença. Seus textos versavam sobre: educação libertária, autogestão, luta contra baixos salários, opressão sexista dos patrões, luta de classes, defesa da igualdade de gênero, educação sexual dos jovens, maternidade consciente, divórcio, amor livre, combate ao fascismo/militarismo/igreja. A revista também divulgava artes plásticas, poesia e música e tornou sua autora conhecida no Brasil, Uruguai, Argentina e Espanha.

Em 1928, decidida a aprofundar sua experiência anarquista, Maria Lacerda Moura mudou-se para uma comunidade agrícola autogestionária em Guararema, interior paulista. A comunidade era formada por anarquistas-pacifistas – desertores espanhóis, franceses e italianos da Primeira Guerra Mundial. Nela, Maria Lacerda de Moura viveu seu período intelectual mais fecundo. Publicou as seguintes obras: De Amundsen a Del Prete (1928),  Civilização, tronco de escravos (1931),  Clero e Estado (1931),  Amai-vos e não vos multipliqueis (1932), Serviço militar obrigatório para a mulher? Recuso-me… (1933),  Han Ryner e o amor no plural (1933),  Clero e Fascismo, horda de embrutecedores (1933),  Fascismo – filho dileto da Igreja e do Capital (1933).

A ascensão de Getúlio Vargas ao poder, o golpe de 1937 e a ditadura do Estado Novo (1937 – 1945) intensificaram o fascismo da sociedade brasileira e motivaram a forte repressão que se abateu sobre a comunidade de Guararema. Maria Moura Lacerda precisou fugir para o Rio de Janeiro e lá permaneceu até sua morte em 1945. Após um período na clandestinidade, ela conseguiu um emprego de leitora de horóscopo na rádio. Em seus últimos anos, Maria Lacerda mergulhou na filosofia oriental indiana praticando o pacifismo, o vegetarianismo, a defesa aos animais, mas sem abdicar do combate ao fascismo. Ela se aproximou da maçonaria e da Rosa Cruz e publicou o livro Silêncio (1944).

A diversidade da trajetória de Maria Lacerda Moura ilustra a complexidade do movimento feminista. O movimento tem passado por ondas que refletem as aspirações históricas e sociais de suas protagonistas. Atualmente, o feminismo pop, encabeçado por cantoras como Madonna e Beyoncé tem sido condenado por sua retórica – aparentemente pouco afeita ao ativismo político. O feminismo, contudo, tem se revelado um movimento plural e cada vez mais abrangente. Assim como as ideias de Maria Lacerda Moura refletiam a inquietude do século XX pela igualdade de gênero e de classes, o feminismo do século XXI tem buscado a emancipação individual e a justiça coletiva.

Para saber mais: Maria Lacerda de Moura – Trajetória de uma Rebelde (2003). Documentário de 32 minutos realizado pela equipe do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Apoio: FAPESP. Disponível em:  https://www.youtube.com/watch?v=pom4W-FW4jo

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Isaías Albertin de Moraes é Professor Substituto do Departamento de Educação, Ciências Sociais e Políticas Públicas da Unesp/Franca. Doutorando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho  - Unesp/Araraquara. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES.

Mônica Heinzelmann Portella de Aguiar é Professora Adjunta do Departamento de Ciência Politica da Universidade Candido Mendes – UCAM. Doutora em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ/UCAM. 

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