Estocolmo, 20/09/2008 – As nações mais pobres mostram tímidos avanços em seu
tratamento da água, mas há pouca, ou nenhuma, melhora tangível em relação ao
saneamento, duas necessidades básicas para a vida. "É um dos maiores escândalos
do mundo", afirmou o diretor-executivo do Instituto Internacional sobre a Água
de Estocolmo (Siwi), Anderes Berntell. Ao falar na 18ª Conferência Internacional
da Água, que acontece esta semana na capital sueca, Berntell destacou que 2,5
milhões de pessoas ainda carecem de acesso adequado ao saneamento, o que causa
cerca de 1,4 milhão de mortes infantis evitáveis por doenças diarréicas a cada
ano.
Os
Objetivos de Desenvolvimento do Milênio estabelecidos pela ONU, que buscam
reduzir em 50% a extrema pobreza e a fome ate 2015, em relação aos níveis de
1990, também têm como meta baixar pela metade o número de pessoas sem acesso a
saneamento básico. Mas esta meta nunca será alcançada, alertou o Siwi, se não
forem investidos pelo menos US$ 10 bilhões todos os anos ate 2015, para melhorar
os serviços sanitários. Enquanto isso, um estudo conjunto feito no começo deste
ano pela Organização Mundial da Saúde e pelo Fundo das Nações Unidas para a
Infância (Unicef) destaca um avanço na questão da água. O número de pessoas sem
acesso à água potável caiu para menos de um bilhão, contra 1,4 bilhão no ano
passado.
O príncipe Willem-Alexander de Holanda, presidente da Junta
Assessora da Secretaria Geral da ONU sobre Água e Saneamento (UNSGAB ), disse
aos delegados que mais da metade da população mundial conta com água bombeada em
suas casas, e que o número de pessoas que usam fornecimentos de água não tratada
continua caindo. Mas, disse que, quanto ao saneamento a situação é completamente
diferente, e citou "fatos e dados perturbadores que ilustram as conseqüências de
não ter acesso ao saneamento. Muitas pessoas ainda não estão familiarizadas com
as estatísticas e nem mesmo sabem que há uma crise mundial de saneamento",
afirmou.
Essas pessoas, políticos e líderes de opinião, nunca sofreram a
carência de saneamento adequado, e se o sofreram foi há tanto tempo que não
lembram das circunstâncias indignas e desumanas que implica, acrescentou o
príncipe. "Estas pessoas usam luxuosos banheiros, ligados a um efetivo sistema
de esgoto. E provavelmente não estão sabendo que esse tipo de vaso sanitário e
sistemas de saneamento são vitais para uma vida saudável", afirmou. O príncipe
disse que é difícil para estas pessoas imaginar o quanto é inseguro, sem
mencionar o quanto é vergonhoso, defecar em público, no médio da rua, ou para as
mulheres rurais terem de esperar que o sol se ponha para irem atrás de uma
árvore ou a um local distante, correndo grandes riscos de serem violadas ou
assaltadas.
Entretanto, nem tudo está perdido, disse o príncipe, que
recomendou à ONU que declarasse 2008 Ano Internacional do Saneamento. "Este ano
ainda não acabou, e gostaria de ver o que se conseguiu até agora", disse
Willem-Alexander. De fato, é um momento apropriado para decidir o que se
precisa fazer nos últimos meses do ano e acordar um mapa do caminho par atingir
as Metas do Milênio em relação à água e ao saneamento. Destacou as várias
iniciativas e conferências nacionais, regionais e internacionais que acontecem
este ano.
As conferências regionais LatinSan, AFricaSan, EaSan e SacoSan
produziram declarações sem precedentes que constituem um forte fundamento para
desenvolver o setor da água e do saneamento nessas regiões. Houve importantes
progressos na América Latina e na Ásia em termos de acesso a saneamento tratado,
acrescentou. Na África, o número de pessoas com acesso à água cresce de forma
sustentada, mas este aumento não acompanha o aumento da população. Mais pessoas
representam mais dejetos.
Mas, segundo o estudo conjunto da OMS e do
Unicef, a preocupante conclusão é que neste ritmo o mundo não atingirá a meta
relacionada com o saneamento por mais de 700 milhões de pessoas. "Se queremos
alcançar a meta, temos de dar acesso ao saneamento melhorado a pelo menos 173
milhões de pessoas", disse o príncipe. Mas, também houve dados positivos. Em
junho foi realizada a Cúpula da União Africana sobre Água e Saneamento, no
balneário egípcio de Sharm El Sheik, com as presenças de 52 chefes de Estado e
de governo. Estes adotaram de forma unânime uma declaração que dava prioridade
ao tratamento destes temas.
Neste caso, felizmente as palavras estão
sendo traduzidas em fatos com grandes resultados", destacou o príncipe. "Quando
visitei a Etiópia no começo deste ano, me inteirei de que 1,3 milhão de latrinas
foram construídas em 18 meses na província de Nações do Sul", acrescentou. A
UNSGAB se propôs um desafio: quebrar o tabu relacionado com o saneamento,
falando sem pudores de temas concretos referentes aos banheiros e aos
excrementos humanos. "Continuaremos chamando o pão de pão, e o vinho de vinho.
Ou, talvez, se devesse dizer o banheiro de banheiro. E, senhoras e senhores,
espero poder inspirá-los a fazerem o mesmo, porque ainda há um longo caminho
pela frente", disse o príncipe aos delegados.
(IPS/Envolverde)
(Envolverde/IPS)






























