Santiago, 30/06/2008 – Nem conservacionistas nem caçadores
se impuseram na 60ª reunião da Comissão Baleeira Internacional, que terminou
sexta-feira (27) no Chile com o compromisso de iniciar um processo de negociação
para aproximar posições, considerado por todos como "muito difícil". Os
comissários consultados pela IPS consideraram "positivo" o encontro, que começou
na segunda-feira passada, destacando a criação de um reduzido grupo de trabalho
que debaterá sobre o futuro da CBI e, por extensão, dos cetáceos. Mas, ninguém
se atreveu a garantir que esse processo terminará com êxito.
A primeira
reunião deste grupo, formado por cerca de 20 dos 81 membros da CBI, acontecerá
em setembro, e espera-se que apresente uma proposta concreta no próximo encontro
anual, marcado para Madeira, em Portugal, no mês de junho de 2009. A nova
instância vai discutir uma agenda de 33 pontos, incluído o questionado programa
de caça científica iniciado pelo Japão em 1987, um ano depois de entrar em vigor
uma moratória da caça comercial de grandes cetáceos. Desta forma, em Santiago
não foi adotada nenhuma medida especial para proteger os cetáceos que são
atualmente caçados, com esperava a maioria das organizações não-governamentais
presentes ao encontro.
A CBI foi criada em 1946 pelos países signatários
da Convenção Internacional para a Regulamentação da Caça de Baleias. A
suspensão, da qual estão isentas comunidades aborígines de Rússia, Estados
Unidos e Groenlândia, foi adotada devido à super-exploração sofrida pelas
espécies. A moratória só foi violada por Islândia e Noruega, que caçam com fins
comerciais em suas águas jurisdicionais, enquanto o Japão estabeleceu para si
uma cota de mil baleias por ano para realizar pesquisas letais. Para os
ambientalistas trata-se de uma caça comercial disfarçada.
O grupo de
trabalho criado em Santiago responde à imobilidade que afeta a CBI, já que nem
conservacionistas nem baleeiros possuem os 75% dos votos necessários para
aprovar reformas de fundo. Os dois blocos desejam modificar o atual status quo
para responder, do ponto de vista de cada um, às mudanças registradas nas
populações de cetáceos e na valorização social dessas espécies. Os baleeiros
defendem que há espécies com populações abundantes, que podem ser caçadas de
forma sustentável. Países asiáticos e africanos aderem a essa postura.
Os
conservacionistas pretendem que seja mantida a atual moratória e proibida a caça
com fins científicos no Santuário do Oceano Austral (Antártida). Em
substituição, defendem o uso não letal de cetáceos, como turismo de avistamento,
que representa para a América Latina cerca de US$ 278 milhões por ano, segundo
um estudo divulgado na semana passada. Este bloco está liderado pelo chamado
"Grupo de Buenos Aires", que reúne uma dezena de países latino-americanos sendo
integrado também por Austrália, Estados Unidos, Grã-Bretanha e União
Européia.
O primeiro sinal de aproximação em Santiago foi a decisão de
não submeter a votação petições que não contavam com a maioria requerida para
sua aprovação, como a criação do Santuário Baleeiro do Atlântico Sul,
impulsionado por Brasil e Argentina com o patrocínio da África do Sul, e a
reabertura da caça comercial de baleias em quatro comunidades costeiras do
Japão. A única medição de forças foi a rejeição à proposta da Dinamarca,
representando seu território autônomo Groenlândia, que pedia aumento da cota de
caça para suas comunidades aborígines em 10 baleias jorobadas anuais, durante
cinco anos. O projeto, que contava com a aprovação do comitê científico, recebeu
36 votos contra 29 e duas abstenções, deixando os ânimos tensos.
Enquanto
só membros favoráveis à caça diziam que com esta decisão se negava o direito da
população da Groenlândia à sua segurança alimentar, algumas organizações
ambientalistas denunciaram que parte dessa carne é vendida em supermercados.
"Ninguém está satisfeito com o atual status quo. Temos cada vez mais baleias que
são mortas anualmente, sob objeção à moratória ou sob caça cientifica. Nosso
interesse é trabalhar para melhorar a realidade que vivemos atualmente, explicou
à IPS Bernardo Veloso, comissário do Brasil. Mas, "não estamos dispostos a
comprometer pontos que para nós são fundamentais, como a promoção do uso não
letal de cetáceos, o Santuário do Atlântico sul e o turismo de observação",
ressaltou.
"O Japão trabalhará muito para encontrar uma solução
conveniente a toda CBI", disse, por sua vez, o porta-voz da delegação japonesa,
Glenn Inwood, do Instituto de Pesquisa de Cetáceos de Tóquio. Mas – esclareceu –
"no mínimo a CBI deve encontrar um modo de acabar com a moratória global da caça
comercial de baleias e pôr em prática um esquema de direção que restaure o
mandato do organismo, isto é, a regulamentação da caça". Segundo Inwood, "há
muitas nações no mundo que hoje caçam baleias de forma sustentável para
alimento. O Japão continuará com seus programas de pesquisas mortais na região
antártica e no Pacífico noroeste, além da caça sustentável de pequenos cetáceos
em águas japonesas".
Apesar da moratória da CBI vigorar apenas para os
grandes cetáceos, golfinhos e botos, também são vistos com atenção. De fato, o
comitê científico do órgão na semana passada exortou o Japão a reduzir
consideravelmente a caça de botos de Dall (Phocoenoides dalli) no norte do país,
por sua precária situação. Além disso, o comitê científico alertou sobre o
crítico estado da vaquinha marinha (Phocoena sinus) nas costas do golfo do
México, país que criou um fundo de US$ 5 bilhões para sua proteção. De acordo
com o informe científico, não restariam mais de 150 exemplares, e, se sua pesca
incidental continuar, a espécie se extinguirá em cinco anos.
"Hoje é
muito difícil vislumbrar uma solução (para o confronto na CBI). Fala-se de
possíveis pacotes, mas hoje é muito difícil saber se haverá convergência. Os
dois lados têm duas posições muito distintas. O ponto fundamental para nós é que
não vamos mudar o status quo por uma realidade pior do que a atual", disse
Veloso. "No geral, a reunião foi positiva", afirmou à IPS susan Liebermna,
diretora do programa de espécies do Fundo Mundial para a Natureza (WWF). Mas
outras organizações dedicadas à proteção dos cetáceos indicam que o encontro
apenas beneficiou o Japão e demais países baleeiros, pois continuarão caçando,
apesar de a CBI ter uma moratória.
O grupo de trabalho "tem muitos
assuntos para discutir e nos preocupa que tratem mais dos aspectos
administrativos do que dos pontos centrais", afirmou Lieberman, que também
destacou o fato de se ter acordado "realizar reuniões científicas na Costa Rica
e Itália para discutir o impacto da mudança climática nas baleias".
(IPS/Envolverde)
(Envolverde/IPS)






























