A OPINIÃO PÚBLICA MORREU MESMO?

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“A opinião pública morreu!”, proclama o mais novo profeta do final disso ou daquilo, o jornalista Caio Túlio Costa, presidente do Internet Group.

Seu predecessor mais notório foi o cientista político Francis Fukuyama que, deslumbrado com a queda do muro de Berlim, proclamou em 1989 que a democracia liberal poderia constituir "o ponto terminal da evolução ideológica da humanidade" e "a forma final de governo humano", representando, portanto, “o fim da História”.

Segundo Fukuyama, a democracia liberal, embora coexistindo eventualmente com “injustiças ou graves problemas sociais”, não apresentaria graves imperfeições e irracionalidades que a conduzissem a um eventual colapso, como havia sido o caso da monarquia hereditária, do fascismo e do comunismo.

Pareceu mais a opinião de um torcedor que a de um cientista político.

Os defensores da realeza, se soubessem expressar-se de forma tão pernóstica, também diriam que a monarquia era a forma final de governo humano, por não apresentar as graves imperfeições e irracionalidades... da democracia grega, a qual, no entanto, ressurgiu das cinzas, para tornar-se objeto da devoção dos Fukuyamas da vida.

É pouco provável que as dinastias reais voltem ao poder, mas a conjugação de estatização econômica e ditadura política, característica tanto do fascismo quanto do  socialismo real  (comunismo, para Karl Marx, significava algo bem diferente), pode ressurgir a qualquer instante, se a democracia liberal continuar se mostrando incapaz de satisfazer as necessidades e anseios da humanidade. 

Não só as injustiças e graves problemas sociais não param de aumentar desde 1989, como o aquecimento global coloca em xeque o primado da ganância e do consumismo sobre os interesses coletivos, característico do capitalismo globalizado que Fukuyama idolatra.

Catástrofes ocorrerão no mundo inteiro apenas por causa do desmatamento insensato e porque não se limitou o uso de veículos motorizados e a poluição causada por gazes industriais. Ter erigido o lucro em valor supremo fará a humanidade enfrentar uma verdadeira prova de fogo nas próximas décadas.

Resta saber como se mobilizará para sobreviver a essa crise.

Poderá manter a democracia liberal, com seu espírito competitivo que, certamente, seria um obstáculo a mais nos esforços para minimizarem-se as perdas, o que implicaria repartir os sacrifícios com equanimidade. Tudo leva a crer que as nações e pessoas mais ricas continuariam privilegiadas na tormenta como o são na calmaria.

Poderá recorrer a modelos autoritários próximos do fascismo e do comunismo, que se justificariam pela situação de emergência.

Ou poderá se direcionar para novas formas de colaboração e apoio solidário, a partir da organização autônoma dos cidadãos.

O certo é que os marcantes avanços científicos e tecnológicos do final do século passado não levaram ao admirável mundo novo que Fukuyama antevia, longe disso. E, até que chegue a bom termo sua busca da felicidade, os homens continuarão testando modelos econômicos e formas de governo. A História continua.

SIMPLISMO – Quanto ao fim da opinião pública que Caio Túlio anuncia, é uma tese que padece do mesmíssimo defeito: flagra apenas um momento, mas o dá como definitivo.

Ele enumera quatro razões para a morte da opinião pública:

·        a avalanche de votos com que Richard Nixon se reelegeu nos EUA, quando o Caso Watergate já estava sendo amplamente noticiado;

·        a reeleição de George W. Bush, quando as ilegalidades na invasão do Iraque eram fartamente cobertas pela mídia;

·        a reeleição do presidente Lula no Brasil, apesar do mar de lama exalar sua pestilência por todas as tevês, rádios, revistas e jornais;

·        e a impotência dos formadores de opinião brasileiros, que viajam de avião, em conseguirem que os administradores da crise aeroportuária resolvam o problema.

A primeira razão é o chamado palpite infeliz: a mídia e a opinião pública mostraram sua vitalidade ao forçarem a renúncia de Nixon logo em seguida.

Além disto, EUA e Brasil não são o termômetro do mundo. Nesses dois países, realmente, constata-se uma perda de influência dos formadores de opinião na década atual.

O conservadorismo dos estadunidenses que vivem fora dos grandes centros urbanos e têm a cabeça feita pela direita evangélica cristã, a nova  maioria silenciosa, parece pesar mais do que a minoria estridente de Nova York.

E, entre nós, o apoio maciço a Lula por parte da clientela do assistencialismo, naqueles grotões em que o pagamento do Bolsa-Família provoca filas de virar quarteirão, levou alguns analistas a inferirem que o  povão  estaria agora imune à influência da classe média intelectualizada.

Mas, os casos dos EUA e do Brasil são insuficientes para lastrearem a conclusão de ordem geral que Caio Túlio derivou: a de que a opinião pública morreu em decorrência do excesso de informação, com o cidadão comum não conseguindo mais formar um quadro completo da realidade.

Convenientemente, ele omitiu a Europa, cuja realidade não se encaixa bem na sua racionália. E igualou países tão heterogêneos como os EUA (em que os cidadãos parecem julgar desnecessário intervir num sistema que funciona a contento) e o Brasil (em que os cidadãos não se crêem capazes de fazerem melhorar um sistema que absolutamente não funciona).

E, como é ao público brasileiro que Caio Túlio se dirige, sua tese acaba sendo nociva, já que estimula a aceitação resignada de um estado de coisas que precisa, isto sim, ser mudado. Um país cujos cidadãos não têm ideais nem ânimo para lutar por melhoras tende a decair cada vez mais.

* jornalista e escritor. Mais artigos em http://celsolungaretti-orebate.blogspot.com

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