A permanência da impermanência da questão indígena

A questão indígena nunca pode sair de pauta. Uma maneira artística de realizar perguntas e propor reflexões sobre o tema é a exposição “Terra Terreno Território”, da artista plástica Dani Sandrini, que está na Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo, SP, até 13/12/2019.

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Durante nove meses, período de uma gestação, ela e sua equipe estiveram em contato com índios no contexto urbano da capital paulista. Esse diálogo foi registrado por meio de fotografias que incluem o cotidiano, o trabalho e as manifestações religiosas dessas pessoas.

A efemeridade que ameaça toda vida, mas que se amplia nessa população, é metaforizada pela forma de impressão escolhida. São utilizados como suporte papéis sensibilizados com o pigmento extraído do fruto jenipapo (usado também em pinturas corporais) ou diretamente em folhas de plantas.

O uso da luz solar evidencia ainda mais a seleção de um processo artesanal que valoriza a delicadeza e a potência da natureza de tudo oferecer ao ser humano. O fascínio dessas técnicas é que elas são, por sua própria característica, fadadas ao lento desaparecimento. Com o recebimento da luz de qualquer ambiente, irão se alterando até desaparecer. O resultado, então, vai na contramão da civilização branca ocidental que busca permanentemente a eternidade.

Expressão visual do projeto “Darueira”, contemplado no 1° Edital de apoio à Criação e Exposição Fotográfica proposto pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, em 2018, a exposição obriga a pensar sobre como os povos indígenas vêm sofrendo alterações e mutações desde o seu contato com o homem dito civilizado em 1500.

O ponto mais significativo reside em assumir o fim de tudo com grandeza e tranquilidade. Ao ver indígenas que interagem com o contexto paulistano em diversas situações, desde o dia a dia ao ritualístico, é impossível não se pensar qual é o futuro desses descendentes dos primeiros habitantes de um país que parece cada vez mais esquecer de seu passado para construir um futuro incerto.

O progressivo apagamento e desaparecimento de cada imagem nesse contexto funciona como um alerta, um sussurro que se transforma em grito no momento em que tomamos a progressiva consciência de que cada imagem ali retratada é uma bandeira fincada no espaço, uma voz que o tempo há de levar, mas que tem a doce impermanência daquilo que permanece impresso em nossa alma.


Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
 

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