Um Henfil que o Brasil ainda precisa

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Quem tem mais de 30 anos hoje, certamente guarda gratas lembranças do cartunista Henfil. Henrique de Souza Filho, o Henfil, ainda hoje é considerado o mais talentoso cartunista do Brasil, de cujos traços ferinos a injustiça não escapava.



Henfil foi um perspicaz observador do processo político-social brasileiro e de cada detalhe do comportamento das personalidades e mostrava isso em seus trabalhos. Tudo o que fez continua atual, porque penetrava na essência desse comportamento, desferindo golpes de traços tão certeiros e rápidos quanto a sua inteligência. Ele conseguiu revelar tão bem, e com tal precisão, a grande malandragem no Brasil dos Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo e oriundos, que se torna fácil entender como ela continua se fortalecendo no Brasil “democrático e civil” do atual “Estado de Direito”.

Esse mineiro de Ribeirão das Neves iniciou seus trabalhos em 1962, em Belo Horizonte, na revista Alterosa, a convite do editor, o escritor Roberto Drummond, que cunhou seu apelido (a primeira sílaba do primeiro e último nome). Por incentivo de Drummond, já em 1964 nasciam os primeiros personagens: os Fradinhos.

A repressão iniciava ao mesmo tempo em que os Fradinhos criticavam a educação religiosa tradicional, povoada de pavor e angústias insuportáveis: “O Baixim anarquiza, ridiculariza e agride as falsidades e as hipocrisias da sociedade em que vivo. Ele é toda uma negação da religião do terror, na qual tudo é pecado.”

Pessoal da caatinga


Em depoimento à Tarik de Souza para o livro Como se faz humor político, Henfil nos conta que quando criou os personagens da Turma da Caatinga (Zeferino, Graúna e Bode Orelana), pretendia “reconstruir Canudos e libertar o Brasil através das armas”, o que foi interpretado pelos oportunistas como uma crítica à luta de guerrilha (!?).

Publicadas originalmente no Jornal do Brasil a partir de 1970, nos tempos de maior robustez do AI-5, as charges da Turma da Caatinga tinham Zeferino como personagem principal, na figura de um corajoso homem do povo (que, ao menos provisoriamente, era um cangaceiro). Henfil, preocupado em conquistar braços para a luta política, chamava a atenção ao “antimilagre brasileiro”, na intenção de aglutinar gente para enfrentar a ditadura. Ele era favorável à ação, “que na época era praticamente a guerrilha.” Os outros personagens eram o Bode Francisco Orelana, um intelectual teórico, “um cara que come os livros e que não se presta para nada”, e a Graúna, que com sua ingenuidade e forte personalidade, rapidamente conquistou o público e tornou-se protagonista. Por notícias trazidas pelo Bode desenrola-se a ação. A Graúna reage, o Zeferino fica perplexo.

Através da Turma da Caatinga, Henfil atacou os latifundiários, a compra de votos, a demagogia dos políticos, a concentração de renda, o racismo, a Sudene, o genocídio via Benfam*. Denunciou a perniciosa imprensa dos monopólios, que chega a ponto de condenar as vítimas pela violência sofrida. Numa história criada em homenagem à Aracelli, Cláudia Lessin, Ângela Diniz e Heloísa Balesteros, a Graúna é assassinada. Logo é chamada de depravada e recriminada pelo sofrimento que está causando ao assassino...

Entre os personagens eventuais se destacavam a Onça Glorinha, líder do Comando de Libertação do Quadrinho Nacional, cuja missão era caçar o “agente imperialista” Mickey, e o Lati, latifundiário contra o qual a Turma da Caatinga lutava aguerridamente.

A censura é burra


Em 1969, renomados jornalistas, escritores e humoristas brasileiros lançam um jornal, pleno de inovações gráficas, literárias e, evidente, críticas... Era o Pasquim, com uma tiragem impressionante para a época. Em 1970, com o aumento da repressão, a censura agia diretamente sobre a redação, e as tiras de talentos como Henfil eram quase sempre cortadas: “Houve um período em que a censura foi total. Eles sabiam exatamente o que você estava fazendo e cortavam quando você fazia. Então, a única solução foi fazer uma linguagem cifrada. Você cria novos símbolos e passa a trabalhar com eles. (...) o humor criou um público de iniciados.” Exemplo: do Pasquim saiu a expressão “gripe”, para designar alguém que estava preso. Cansado de desviar seus personagens dos golpes da reação, outras vezes desferidos até mesmo por alguns colegas, Henfil muda-se para Nova York — se conseguisse publicar trabalhos em algum sindycate estaria livre da censura, que não atingia publicações estrangeiras. Conseguiu o que todos duvidavam: publicou quadrinhos em diversos jornais. Mas seus Fradinhos, rebatizados de “The Mad Monks”, foram considerados fortes demais pelo inculto público classe média do USA. O tratamento médico pretendido também não foi bem sucedido. A “traumática via-sacra pelos hospitais americanos”, descrita nas cartas enviadas aos amigos no Brasil, viraram livro: Diário de um cucaracha.

Tem audácia quem pode

O Cemitério dos Mortos Vivos, onde Henfil enterrava colaboradores do gerenciamento militar pró-imperialismo, causou grande polêmica no início da década de 70. Nesse cemitério foram enterrados Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, Roberto Campos, Hebe Camargo, Sérgio Mendes, Elis Regina, Rachel de Queiroz, Filinto Müller, Bibi Ferreira, Clarice Lispector, Plínio Salgado, toda “Tradição, Família e Propriedade” (TFP), Pelé, Josué Montello, dentre muitos outros. Por pressão do Pasquim deixou de enterrar Jorge Amado, do qual cobrava um mínimo de coerência com seu passado no PCB.

Por essas e outras, Henfil foi chamado de “patrulheiro ideológico” e acusado de atirar sem critério. Mas nunca errou o alvo. Ele sabia que a aparente ingenuidade servia muitas vezes de subterfúgio e absolvição para os que, direta ou indiretamente, se favoreciam da exploração e da censura. Naquele momento, ele pensava que todos tinham um inimigo comum: a ditadura fascista. E cobrava participação, principalmente, dos artistas, que nunca poderiam se omitir. Para esses, Henfil cunhou o termo “patrulha odara” (dirigido, principalmente, a Gil, Caetano e Glauber Rocha), por suas atitudes covardes diante do regime. De suas críticas também não escaparam aqueles que apoiavam a abertura “lenta, gradual e segura” do Geisel, ou os Festivais Internacionais da Canção promovidos pela Rede Globo nos anos 60 e 70, que serviam para desviar a atenção dos acontecimentos políticos e favorecer a divulgação da música estrangeira mais espúria.

... e humor também

Henfil odiava o humor pelo humor. Para ele, depois da “abertura”, uma grande quadrilha de oportunistas ocupou os espaços dos jornais e TV. Humor de direita, com seus preconceitos contra a mulher, contra os trabalhadores, os comunistas, contra os homens de pele escura, ou os índios.

Henfil não cansava de lembrar os humoristas anteriores a 64, colocados no esquecimento pelos monopólios dos meios de comunicação e pelos “novos criadores”: Aporelly, Leon Eliachar, Stanislaw Ponte Preta (Sergio Porto), Nair de Tefé, Nássara, Barão de Itararé, Carlos Estevão, Don Rossé Cavaca, Péricles, etc.

Nada a temer


No auge do medo e do terror da “administração Geisel” é criado o personagem Ubaldo, o Paranóico — em parceria com Tárik de Souza — logo transformado num pára-raio da tensão social. Muitas das tiras eram feitas com base em relatos pessoais, vistos ou vividos. A paranóia do Ubaldo tinha fundamento real. Naquele fim de semana de 1975, enquanto o Ubaldo nascia, os bandidos do DOI-Codi assassinavam covardemente Vladimir Herzog em São Paulo...

Em 1977, Henfil começa a escrever as Cartas da Mãe, na revista Isto é. Através de mensagens à sua mãe, dona Maria, Henfil conseguia escapar da censura; em recados ao “primo Figueiredo” mencionava exilados políticos, falava da “Anistia”, etc. Idem para o período Geisel: “... era um caso típico de diálogo para desarmar o guarda da esquina. Esse era o interesse das cartas.” E, como suas ironias ganharam a simpatia da imensa maioria dos leitores, uns desocupados políticos o acusaram de “aderir” ao gerenciamento militar.

A última carta, em 1980, foi endereçada ao general Figueiredo, desmoralizando “a anistia que ele estava dando, que não era bem aquela que a gente queria.”

E um homem é um homem


De saúde frágil, hemofílico —um pequeno corte poderia leva-lo à morte — Henfil participou de manifestações e passeatas mesmo na fase em que eram fortemente reprimidas pela polícia, abrigou em sua casa perseguidos políticos, usou de seu prestígio para acionar advogados, corajosamente financiou e articulou fugas de patriotas para fora do país, visitou presos, emprestando sua solidariedade. Ao final, estava entre as sinceras personalidades nas campanhas pela “Anistia ampla, geral e irrestrita”, pelas “Diretas” e pela “Constituinte”: “(...) a chave para você fazer humor engajado é você ficar engajado. Não há chance de você ficar na sua casa vendo os engajamentos lá fora e conseguir fazer algo.” Seus trabalhos sempre tiveram grande interação com o público. No Jornal dos Sports Henfil, através do futebol, colocou o Botafogo e o Fluminense como clubes da elite e, assim, viu crianças chamarem outras de burguesas porque eram botafoguenses. Culpa sua.

Criou, isso, não viam seus times desprestigiados, mas, sim, os cartolas (pouco importa) e suas políticas mafiosas. Ao contrário, Henfil realizou o feito de transformar apelidos depreciativos — Bacalhau e Urubu — em símbolos da torcida, no lugar das tradicionais figuras estrangeiras. Criou símbolos nacionalizados, politizados, pela parte mais alegre da psicologia das massas.

Seus trabalhos — a exemplo do que também sempre fizeram outros grandes do traço de humor — conseguiram desarmar campanhas fascistas, como o entreguismo governamental dos “Pechinche”, “Ame-o, ou deixe-o” ou “Ninguém segura esse país”, desmoralizando-as totalmente. Dizia: “eu sempre particularizo a coisa, pra generalizar.” Ou: “quando faço um desenho, eu não tenho a intenção de que as pessoas riam. A intenção é de abrir, é de tirar o escuro das coisas”.

Também retornaram os covardes

Nos seus 25 anos de carreira, Henfil trabalhou nos mais importantes jornais do país e criou cerca de 30 personagens. Nesse rol estão Preto-que-ri, um negro que jamais se ofendia com as piadas e denunciava o racismo; o Delegado Flores, que prendia os exploradores, corruptos, etc., e protegia os pobres; o Orelhão, operário, consequentemente explorado, e sua dignidade inabalável, dentre muitos outros.

Em seu acervo constam cerca de 5 mil originais, porém, estima-se que o cartunista tenha produzido entre 20 e 30 mil charges. Trabalhou na TV, produziu textos para teatro, até para um filme, onde atuou como produtor e ator: Tanga — deu no New York Times.

Henfil foi isolado política e profissionalmente desde que se opôs à candidatura Tancredo Neves, personalidade que, segundo ele, não diferençava em nada de Maluf. A partir daí viu os espaços na imprensa sendo fechados, seus “amigos” se afastarem.

Perdemos Henfil em janeiro de 1988, às vésperas de completar 44 anos, vítima da Aids — contraiu o vírus em uma transfusão.

Depois de sua morte parecia que nem mesmo os mais chegados queriam lembrá-lo e, durante mais de 10 anos, os familiares tiveram que lutar muito para que sua memória não fosse roubada do grande público —era difícil conseguir espaço nos jornais, TVs, ou patrocínios para eventos culturais. O conteúdo político de sua obra foi sendo esvaziado. Henfil passa a ser reduzido à condição de “irmão do Betinho”, “amigo do Lula”, radical gozador, ou aquele que tem um humor adolescente e personagens muito engraçadinhos... E Henfil ressurge, mais light, com menos calorias políticas.

A memória de Henfil — como a da heróica Resistência que enfrentava o imperialismo e as classes do campo reacionário com seus aliados táticos — foi arrastada para o quadro caricaturado das “paixões superadas”.

Sem Henfil e tantos outros, esses renegados mais facilmente puderam se entregar — desarmados de identidade, de brasilidade autêntica, de rebeldias, paixões e honra — à belle époque do oportunismo. Nunca entenderam que Henfil os aconselhava e fazia o possível para que eles não trilhassem o caminho sem retorno que, por fim, os levou a toda essa “decadência alternativa” da falsa oposição ou da descarada política de subjugação nacional.

* Benfam – Sociedade Civil de Bem Estar Familiar no Brasil, criada em 1966, mil vezes denunciada pela prática de genocídio com colaboradores ianques. Arbitrariamente, a Benfam divulgou métodos e realizou práticas contraceptivas na população pobre brasileira, anos a fio.

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