Sinais confusos

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Meu avô gostava de baralho, um jogo chamado bisca, e era comum os jogadores indicarem por gestos, como piscadas e movimento dos dedos, quais cartas possuíam como informação ao parceiro. O tique de meu avô levar constantemente a língua aos lábios dava o falso sinal de estar com a dama de naipe mais valioso. Essa confusão era involuntária, porém divertia os netos. Muito diferente do que vai pelos dias correntes, traumatizando quem os vive e procura entendê-los.

Concordo com os que defendem que há muito mais coisas interessantes para se fazer do que adentrar as redes ditas sociais. Abri uma conta ali apenas por ser a forma mais eficiente de falar com meus alunos e acabei ficando. Um vício, portanto. Boa parte da “venda” de informação pessoal – denunciada recentemente – é autorizada pelo usuário que não lê as cláusulas contratuais, viciado e dependente que se tornou do acesso às redes. Assim, além de prováveis controles econômicos, deveria haver uma avaliação e ação médica em função do quanto se perde em saúde mental nesses espaços cibernéticos.

Um sinal emblemático foi o de José Padilha ter publicado uma “explicação” e defesa de seu seriado fantasioso sobre a operação Lava Jato em um Primeiro de Abril. A arte não possui limites, mas retratar como ficção algo tão real e presente em nossa história leva a distorções e embates desnecessários. Não é um documentário e está sendo visto como tal, tanto à direita como à esquerda. Entende-se que o cineasta precisa pagar suas contas, valendo até de contar uma mentira para auferir lucros.

Os sinais estão mais do que evidentes para que não haja eleições neste ano, repetindo-se a história de 50 anos atrás, com recrudescimento do regime instalado em Brasília. É esse o tom do que André Singer expõe de forma dura e precisa no artigo “Entre tiros e togas”, do último dia de março. A toga que conseguiu salvar alguns no regime militar é a que hoje joga a pá de cal na incipiente democracia brasileira.

No âmbito da clareza científica e da discussão política, a revista piauí sinaliza sempre com matérias importantes. A edição de março é de peso, além de pesarosa, anunciada pela capa sombria. Bernardo Esteves é sempre preciso em suas abordagens científicas, mas em “O quilo não é mais aquele” deu uma pequena escorregada, especificamente por confundir peso com massa. Tudo bem que o próprio nome “Pesos e Medidas” dos institutos que regulamentam a padronização carrega uma idiossincrasia, uma vez que peso (o resultante da força da gravidade sobre a massa de um objeto) é também uma medida. E não abrimos mão de dizer que nos pesamos nas balanças, com ou sem lamentos, ao invés de afirmar que aferimos nossa massa. De qualquer forma, o final do artigo traz o devido alerta para o atraso científico e tecnológico em que fomos lançados, sem condições de acompanhar o desenvolvimento “de peso” que se estabelece no mundo.

Por outro lado, a Folha de S. Paulo e a Fapesp terão programa de TV de divulgação científica, o que é uma iniciativa louvável em tempos de obscurantismo do conhecimento e fake news espraiando-se por meios físicos e virtuais. Que os princípios de José Reis inspirem a programação, enaltecendo o jornalismo científico, cada vez mais necessário, mesmo que naufraguemos em períodos sombrios, sem sinais de que haja resgate.

 

 

Adilson Roberto Gonçalves, pesquisador no IPBEN – Unesp de Rio Claro, membro da Academia Campineira de Letras e Artes e da Academia de Letras de Lorena.

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