Perdas diante de tempestades extraordinárias

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Árvores arrancadas pela raiz no bairro de Barracas, Buenos Aires. Foto: Juan Moseinco/IPS

Devido às inundações, Buenos Aires sofrerá perdas imobiliárias de aproximadamente US$ 80 milhões anuais em 2030 e de US$ 300 milhões ao ano em 2050.
Buenos Aires, Argentina, 16 de abril de 2012 (Terramérica).- Os 18 mortos, vítimas de uma tempestade que caiu sobre Buenos Aires, foram uma trágica mostra da imprevisão diante dos eventos meteorológicos cada vez mais poderosos e habituais na capital argentina e seus subúrbios. “A Argentina deveria estar adaptada a tempestades severas porque sempre as enfrentou. O que está se acelerando agora é a intensidade e a frequência das chuvas”, disse ao Terramérica a meteorologista Carolina Vera.

Além das vítimas mortais, o temporal do dia 4 deste mês colocou em situação de emergência 32 mil famílias de bairros vulneráveis, provocou danos parciais ou totais em mais de 200 escolas, deixou sem luz e sem água centenas de milhares de pessoas e derrubou 40 mil árvores. “Em nosso bairro morreram dois meninos. Uma árvore caiu sobre um de 13 anos e uma parede desabou sobre um adolescente”, contou ao Terramérica o padre Lorenzo De Vedia, de uma localidade precária do sul da capital.
Este bairro, Villa 21-24 de Barracas, foi um dos mais afetados. “Voaram os tetos, colchões ficaram molhados. São coisas da pobreza estrutural na qual eles vivem”, acrescentou o padre. O distrito da capital, a Cidade Autônoma de Buenos Aires, e sua área metropolitana somam uma superfície de 3.833 quilômetros quadrados onde vivem 12,8 milhões de pessoas, segundo o censo de 2010. A tempestade caiu bruscamente, com chuva abundante, granizo e ventos de quase cem quilômetros por hora em algumas áreas do oeste e sul da cidade e seus arredores.
Os registros mais precisos e contínuos que a Argentina possui são de chuvas e datam de mais de um século. Estes estudos “mostram uma tendência ao aumento da abundância e da frequência de chuvas”, alertou Carolina. Há uma variabilidade natural da atmosfera que pode gerar este tipo de tempestade por si só, mas neste caso “há algumas evidências de que estaria associada à mudança climática”, explicou.
Diretora do Centro de Pesquisas do Mar e da Atmosfera da Universidade de Buenos Aires, Carolina é uma das autoras do “Informe especial sobre manejo de riscos em eventos extremos e desastres para avançar na adaptação à mudança climática”, conhecido pela sigla em inglês SREX, publicado no dia 28 de março pelo Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC).
Várias pesquisas recopiladas pelo IPCC mostram a relação entre eventos extremos e a mudança climática, mas para outros fenômenos, com ondas de calor, observou Carolina. Porém, quando são traçados modelos climáticos para o futuro e projetados cenários de aumento de emissões de gases-estufa, se vê um aumento de precipitações no centro e leste do país, acrescentou. Diante dessas projeções, a Argentina “não está hiperpreparada”. Precisaria de mais radares meteorológicos, mais recursos humanos para manejá-los e planos de contingência para desastres.
“O governo comprou radares que nos permitem melhorar as previsões, mas falta pessoal capacitado. É preciso formar profissionais. De fato, há intenção de fazer isso, mas hoje o Sistema Meteorológico Nacional não está totalmente preparado”, pontuou a meteorologista. A previsão tampouco resolve tudo. Uma vez dado o alerta, a população deve saber o que fazer. “Não se vê ações de manejo de desastre. As pessoas entram em pânico e muitos vivem em casas com telhado de zinco, que acabam voando”, enfatizou.
Para a doutora em geografia Claudia Natenzón, do Programa de Pesquisas em Recursos Naturais e Meio Ambiente da Universidade de Buenos Aires, a questão é que “não são desenvolvidas ações preventivas”. Claudia, que pesquisa a vulnerabilidade social diante da mudança climática, explicou ao Terramérica que prevenir implica se antecipar ao evento meteorológico para evitar um dano grave quando este acontece. Para isto são necessários conhecimentos científicos sobre o que pode ocorrer – mesmo considerando graus de incerteza –, colocados a serviço de planos de prevenção.
Como exemplo, Claudia aponta que em um tempestade “os pontos de entrada” que aumentam os riscos são as árvores velhas e enfermas sem poda, a rede de fios, os telhados de zinco que voam com o vento, e os de policarbonato que quebram com o granizo. Outros elementos de risco são os outdoors em número cada vez maior, com bases que não suportam ventos de temporal, ou as coberturas sem paredes em marquises e postos de combustíveis. Um destes tetos cedeu com a última tempestade e caiu sobre um jovem, matando-o.
Estas ações preventivas não são aplicadas, “tal como ficou claro”, afirmou Claudia. Sua colega no Programa, a antropóloga Ana Murgida, admitiu que “algumas medidas podem ser caras”, mas “o custo da catástrofe sempre é maior, recai sobre as contas públicas e tem impacto mais grave sobre setores mais vulneráveis”. Buenos Aires é uma cidade costeira e, como tal, deve se preparar para inundações mais frequentes e prejudiciais associadas a tempestades, devido à elevação do nível do mar, alerta a pesquisa “Mudança climática e cidades: informe da primeira avaliação da Rede de Pesquisas sobre Mudança Climática Urbano”, da qual Claudia participou.
Devido às inundações, a cidade sofrerá perdas imobiliárias de US$ 80 milhões anuais até 2030 e de US$ 300 milhões ao ano em 2050. “Estes valores não incluem a perda de produtividade dos feridos ou deslocados”, esclarece o estudo, publicado em junho de 2011 pela Cambridge University Press. Prevenir também implica desenvolver “estratégias de resposta e recuperação rápida”, afirmou Ana ao Terramérica. Do contrário, as sucessivas catástrofes “vão agravando a vulnerabilidade dos mais pobres”, destacou.
A última tempestade teve uma magnitude impensada em outras épocas, pela quantidade de pessoas afetadas e mortas, de casas destruídas, de serviços interrompidos e de esforço do Estado para atender os atingidos, ressaltou Ana. Uma semana mais tarde, milhares de famílias continuam sem teto, eletricidade e água, e milhares de crianças e adolescentes desses mesmos bairros continuavam sem escola onde pudessem ter aula e, ao menos por algumas horas, se abrigar sob um teto.

* A autora é correspondente da IPS.

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