A efervescência no mundo árabe

Tenho por necessário o recurso à antropologia para compreender minimamente a onda de insurgência que os governos dos países árabes enfrentam após a derrubada do ditador tunisiano Zine el-Abidine Ben Ali por um levante popular. Comecemos por lembrar que o judaísmo, o cristianismo e o islamismo são religiões oriundas do mesmo ramo.
Os judaístas foram espalhados pelo mundo todo pelos romanos entre os anos 70 e 135 da nossa era. Os cristãos começaram a dominar o Império Romano a partir de Constantino. Posteriormente, o império se dividiu em dois, da mesma forma que o cristianismo, no grande cisma de 1054. Na parte oriental, desenvolveu-se o cristianismo ortodoxo. Quando o império do ocidente caiu, a Igreja Católica Apostólica Romana, dirigida pelo papa, teve importante papel na organização da economia, da sociedade e da política dos diversos reinos formados pelos "bárbaros" germânicos.
Por sua vez, o islamismo, fundado por Maomé, no século VII da era cristã, expandiu-se com surpreendente rapidez, entre a Indonésia, a leste, e a Espanha, a oeste. De certa forma, os conquistadores e governantes islâmicos foram tolerantes com judaístas, cristãos e outros povos que viviam sob seu domínio. Enquanto o ocidente vivia a sua chamada Idade Média, considerada um período de trevas, os muçulmanos floresceram em sua cultura, com sua filosofia, ciência, literatura e arquitetura.
Mas o mundo ocidental cristão, com o sistema capitalista, com uma população crescente e carente de território, tentou expandir-se sobre os domínios muçulmanos por meio das cruzadas. Com a fundamental ajuda de negociantes, o ocidente conseguiu a almejada expansão pelo Oceano Atlântico, a partir do século XV. Já no século XVIII, estava constituída uma economia mundial com base no capitalismo.
Os muçulmanos tinham sido totalmente expulsos da Península Ibérica em 1492, ano em que Cristóvão Colombo chegou à América. Pouco a pouco, a cristandade ocidental foi se dividindo. A primazia do catolicismo romano foi abalada pela Reforma Luterana. Contudo, depois de sangrentas guerras religiosas, as pessoas foram transformando a religião em questão de foro íntimo. O racionalismo, o liberalismo e o socialismo, todos com marca cristã, ocuparam a cena.
Em cinco séculos, o mundo se ocidentalizou. Por bem ou por mal, o ocidente promoveu um brutal processo de aculturação. Quem imaginaria, no século XVII, que as grandes e fortes culturas japonesa, chinesa e hinduísta dariam lugar a potências econômicas em moldes capitalistas? Mesmo os que consideram a China ainda um país socialista, não podem negar seu poderio na economia de mercado.
Mas houve resistências a este avassalador processo, buscando retornar às culturas tradicionais, já a partir do século XVI. No Peru, por exemplo, o movimento Taqui Ongo, a partir de 1560, pretendia não apenas a expulsão dos espanhóis, mas também do cristianismo. No Brasil, a Confederação dos Tamoios teve o mesmo objetivo, embora com menos força.
No auge das revoluções liberais do século XVIII, um levante liderado por Tupac Amaru, em 1780, queria a expulsão dos espanhóis, da cultura ocidental e a restauração do Império Inca. Não foi outra a intenção da Rebelião dos Sipaios na Índia, em 1857, assim como a de Gandhi, com a não-cooperação não-violenta contra a dominação inglesa. Ele queria a expulsão dos ocidentais e da sua cultura, que ele conhecia muito bem, ressuscitando a tradição hinduísta.
No mundo muçulmano, a mãe da contra-aculturação foi a Irmandade Islâmica, fundada no Egito em 1928. Ela inspirou a Revolução Iraniana de 1979, que derrubou o xá Reza Pahlavi e entronizou uma república teocrática islâmica shiíta. Inspirou também o regime talibã, no Afeganistão, a rede Al-Qaeda e os grupos Hamas e Hisbolá, além de outros menos conhecidos.
O que chamamos de fundamentalismo é, na verdade, resistência ao ocidente em quase todos os seus aspectos. Trata-se de um movimento de contra-aculturação. A violência com que age esta resistência parece-nos brutal se não levarmos em conta a violência que o ocidente empregou, às vezes a conta-gotas, para exercer seu domínio sobre outras culturas.
Hoje, no mundo islâmico, podemos dizer que duas tendências antropológicas se confrontam: o antiocidentalismo e o ocidentalizado. Pode parecer que os regimes ditatoriais não têm uma origem ocidental, quando examinamos os países considerados democráticos. Mas a raiz ditatorial também foi exportada e ensinada a outras culturas. Não sem razão, os Estados Unidos e a União Européia preferem um ditador de perfil ocidental em países estratégicos para suas economias a um governo teocrático, como o do Irã.
Da minha parte, creio que, sem estes prolegômenos, não podemos analisar com juízo a efervescência social e política que balança os países árabes.

Quando duas ou mais culturas se encontram, resultados imprevisíveis podem acontecer. Costuma-se distinguir dois tipos de aculturação. Se o encontro é pacífico, o mais comum é que ocorra integração, ou seja, as culturas em contato selecionam elementos culturais do seu interesse na outra cultura e os incorporam ao seu sistema. Caso o encontro seja belicoso, com o domínio de uma cultura sobre outra ou outras, espera-se um processo de assimilação, com a imposição dos valores da cultura dominante sobre as dominadas. Mas nada é automático.
O mais intenso processo de aculturação vem sendo promovido pela civilização ocidental. Daí meu empenho na instituição de uma disciplina, nos cursos de história, para estudá-lo. Hoje, porém, cabe analisar os resultados do choque entre o ocidente cristão e o mundo islâmico, mais até do que apenas o mundo árabe, que também é muçulmano.
O ocidente tentou dominar as regiões conquistadas pelo islamismo durante o movimento das Cruzadas, mas não conseguiu. Por outro lado, a expansão do islã dominou e península ibérica durante sete séculos e lá deixou suas marcas, principalmente na língua, na música e na arquitetura. O domínio ocidental se constituiu a partir da expansão europeia, no século XV. Pouco a pouco, as regiões islâmicas se tornaram colônias ou protetorados da Europa. Quando a dominação direta terminou, com os movimentos de independência, o mundo islâmico havia adotado a principal instituição cultural do ocidente: o Estado Nacional. Geralmente, ele não correspondia aos recortes culturais originais, mas também o islamismo havia imposto sua cultura a povos ainda mais antigos.
Não mais colônias ou protetorados, os países muçulmanos continuaram sofrendo a forte influência do ocidente, sobretudo no que concerne aos interesses econômicos. O petróleo levou os países industrializados a interferirem nos assuntos internos do mundo islâmico. Ainda seguindo o processo de aculturação, podemos reconhecer, hoje, pelo menos três tendências políticas nos países islâmicos. A primeira, anti-ocidental, é a contra-aculturação, que começou com a Irmandade Islâmica em 1928, no Egito. Ela se manifestou na proclamação da República Islâmica do Irã, em 1979 e se expressa pelo regime Talibã, no Afeganistão, pelo Hamas, na Faixa de Gaza, pelo Hisbolah, no Líbano e, notadamente, pela organização Al-Qaeda, que pretende ser supranacional. Cabe salientar que, mesmo tentando repelir o ocidente, o movimento de contra-aculturação islâmico não pode expurgá-lo completamente. Basta ver as pretensões nucleares do Irã e as armas usadas pela Al-Qaeda.
As outras duas tendências têm raízes nitidamente ocidentais. Uma delas é representada pelos regimes autoritários - monárquicos ou republicanos - presentes em quase todos os países muçulmanos. Na Arábia Saudita, na Jordânia e em Marrocos, vigoram monarquias tradicionais que se modernizaram ao estilo ocidental e são aliadas dos Estados Unidos e da União Europeia. A terceira se manifesta pelas democracias representativas, inauguradas pelo movimento republicano liderado por Mustafa Kemal Ataturk, no que restou do Império Otomano, em 1923. A democracia representativa encontra resistência no mundo islâmico. Ela conseguiu se implantar na Turquia e bem recentemente na Indonésia. Há poucos outros casos, dos quais o do Líbano seria um grande exemplo não estivesse tão perto de Israel e da Síria. O timbre ocidental, nos dois regimes é que eles são laicos, isto é, não têm coloração religiosa. A grande diferença entre o Irã e o Iraque é que o primeiro adotou uma república (regime ocidental) com forte coloração religiosa (islâmica), enquanto que o segundo era um regime autoritário laico.
Particularmente no caso do Egito, o regime dominante até hoje é o autoritarismo. Primeiro, na forma de uma monarquia, cujo último representante - o rei Faruk - foi deposto por um movimento militar liderado por Gamal Abdel Nasser, que inaugurou uma república autoritária. Nasser era nacionalista e panarabista. Nacionalizou o Canal de Suez e pretendeu um Egito mais independente de influências externas. Não era pró-Estados Unidos, mas repudiava também o socialismo. Sua morte, em 1970, abriu espaço para Anwar Al Sadat, igualmente autoritário, porém mais maleável que Nasser. Ele assinou um tratado de paz com Israel e se aproximou dos Estados Unidos. Sadat foi assassinado e seu lugar ocupado por Hosni Mubarak, em 1981, há trinta anos no poder.
Nesse tempo, o processo de ocidentalização no Egito cresceu, em grande medida por influência da internet. O governo autoritário criou uma couraça constitucional permitindo que Mubarak se elegesse sucessivamente, eternizando-se no poder. Os laços com os Estados Unidos, com a Unidade Europeia e com Israel se estreitaram. Mas cresceu o número de desempregados, aumentaram a inflação e o custo de vida, com um controle político muito centralizado. Com a queda do governante autoritário da Tunísia, todo o mundo árabe passou por um terremoto social e político com o epicentro no Egito. Os movimentos de rua se acentuam e se organizam. Parece que o Egito reeditará a revolução turca de 1922, instaurando uma nova democracia representativa.

 


publicidade
publicidade
Crochelandia

Blogs dos Colunistas

-
Ana
Kaye
Rio de Janeiro
-
Andrei
Bastos
Rio de Janeiro - RJ
-
Carolina
Faria
São Paulo - SP
-
Celso
Lungaretti
São Paulo - SP
-
Cristiane
Visentin

Nova Iorque - USA
-
Daniele
Rodrigues

Macaé - RJ
-
Denise
Dalmacchio
Vila Velha - ES
-
Doroty
Dimolitsas
Sena Madureira - AC
-
Eduardo
Ritter

Porto Alegre - RS
.
Elisio
Peixoto

São Caetano do Sul - SP
.
Francisco
Castro

Barueri - SP
.
Jaqueline
Serávia

Rio das Ostras - RJ
.
Jorge
Hori
São Paulo - SP
.
Jorge
Hessen
Brasília - DF
.
José
Milbs
Macaé - RJ
.
Lourdes
Limeira

João Pessoa - PB
.
Luiz Zatar
Tabajara

Niterói - RJ
.
Marcelo
Sguassabia

Campinas - SP
.
Marta
Peres

Minas Gerais
.
Miriam
Zelikowski

São Paulo - SP
.
Monica
Braga

Macaé - RJ
roney
Roney
Moraes

Cachoeiro - ES
roney
Sandra
Almeida

Cacoal - RO
roney
Soninha
Porto

Cruz Alta - RS