EDITORIAL - O ESQUEMA GOLPISTA

Editorial Laerte Braga

Toda essa movimentação de forças de direita em torno de um impedimento da presidente reeleita Dilma Roussef cheira a algo mais que golpe, difícil depois do pronunciamento de chefes militares que não há necessidade de volta das forças armadas ao poder. O próprio processo democrático vigente, mesmo que capenga, não dá guarida a esse tipo de proposta. Para se ter uma idéia tanto Obama quanto Hilary Clinton, pré candidata democrata a presidente dos EUA, decisivo no golpe de 1964, elogiaram Dilma. Com outros objetivos, mas elogiaram.
Elites comandadas por São Paulo, recheadas de preconceitos, mídia podre e venal, os “bolsonaros” da vida, na prática, querem encurralar Dilma Roussef, evitar mudanças em estruturas políticas, na própria mídia através da lei dos meios, avanços sociais que permitam ao governo dispor de grande capital político junto à população, principalmente em áreas menos desenvolvidas, seja pelo que representam hoje, seja pelo que vão representar no futuro, mesmo que mudanças tímidas.
Gilmar Mendes, por exemplo, designado por um trêfego presidente do TSE, Dias Tófoli, para examinar as contas de campanha de Dilma, é apenas um pau mandado desse esquema, nunca um protagonista principal. Isso, ainda que possa criar uma crise institucional com sua decisão.
O objetivo real é esse, engessar o governo, o segundo mandato de Dilma. Contam com um PMDB instável e oportunista e um Congresso conservador em sua maioria. Aumentam a cotação de pequenos partidos nas negociações para que Dilma possa montar sua equipe de ministros para o novo mandato.
E nem o escândalo das propinas na PETROBRAS serve aos golpistas, pois hoje já se sabe que os vazamentos foram seletivos, o próprio Procurador Geral da República denunciou esse caráter, pois figuras como Álvaro Dias, o candidato e senador Aécio Neves e outros tucanos de alta plumagem estão envolvidos nesse novelo que, se desdobrado alcança FHC.
O desafio de Dilma é perceber, nesse momento, que o governo não é exclusivamente do PT, seu partido e que os obstáculos só serão vencidos com ampla mobilização popular, do contrário será engolida e se verá presa fácil das velhas manobras e articulações políticas que têm mantido o Brasil amarrado a interesses de grupos (banqueiros, latifundiários, grandes empresários) e emasculado num real projeto de desenvolvimento político, econômico e social.
O BRICS é uma aposta decisiva e um caminho seguro, assim como maior integração com a América Latina, o MERCOSUL, quando se percebe e se vê a olhos nus, que a União Européia se desintegra como consequência das políticas neoliberais, a Rússia e a China assumem papéis de principais protagonistas de uma nova ordem econômica e os EUA se acham imersos numa crise mantida em camisa de força.
Se Dilma Roussef perceber que seu governo não pode e não deve ser exclusivamente petista, mas que é fundamental uma agenda das forças populares, que implique em mobilização e formação, terá salvo com larga antecedência seu segundo mandato e garantido ao País um rumo diverso do pretendido pelas elites paulistas e separatistas do sul, mesmo porque as perspectivas de São Paulo são as piores possíveis e o governador eleito do Rio Grande do Sul vai ser motivo de chacota nos seus quatro anos de governo. É uma dessas peças que a política prega com certa frequência.
As manobras golpistas estão fadadas a serem apenas desfiles de bolsas Louis Vuitton, nada mais.