Dúvida e desconfiança

Quando me tornei ativista em defesa do ambiente, percebi que não bastava apenas militar. Era preciso estudar. Mais ainda: era preciso ouvir os críticos, ponderar sobre seus argumentos e formular conclusões. Sempre provisórias. Foi assim que me fortaleci na luta, com dúvida e desconfiança acerca de minhas posições. Com este espírito, li as principais críticas dirigidas ao ecologismo pela direita e pela esquerda. Quando comecei, eles se opunham com relação às questões sociais e políticas, mas se davam as mãos quanto à tecnologia e à exploração da natureza. Depois, vários marxistas reconheceram a realidade da crise ambiental do nosso tempo e engrossaram nossas fileiras.
A dúvida e a desconfiança que conservo sobre minhas posições é que me levam a ler a nova direita no mundo e no Brasil. Entre as leituras que devo fazer em breve, está o livro Por que virei à direita, de João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé e Denis Lerrer Rosenfield. Já os leio cotidianamente na imprensa e, de certo modo, já formei opinião sobre eles. Hoje, vou comentar um artigo de Rosenfield publicado no Globo de 2 de julho do corrente ano com o título de O mal e o capitalismo. O autor diz, com segurança, que os ambientalistas são radicais e se posicionam como profetas a anunciar o fim do mundo por ter a humanidade cometido um mal. Para a salvação é preciso superar o mal.
Segundo o professor de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, os ecologistas comportam-se como religiosos. Portanto, ignoram argumentos científicos negam atitudes críticas. Radicais e religiosos, eles anunciam o fim do mundo, caso a humanidade continue nessa marcha de destruição da natureza. Ora, nada mais equivocado. A Terra e a vida já sofreram crises muito mais intensas do que a atual e continuaram existindo. É preciso deixar claro que a Terra e a vida só desaparecerão, de forma previsível, quando o Sol se dilatar, transformando-se numa estrela gigante vermelha.
O que os ecologistas equilibrados fazem é alertar para o perigo das mudanças antrópicas para a própria humanidade. A ameaça não é constituída apenas pelo aquecimento global, mas também pela acidificação dos oceanos, pelo empobrecimento da biodiversidade, pelas mudanças profundas no uso do solo, pela aceleração dos ciclos de nitrogênio e fósforo, pelo esgotamento da água doce, pela poluição rural e urbana. Comodamente, no entanto, Rosenfield se apega ao argumento das mudanças climáticas, dando ouvidos aos ecocéticos. O hidrólogo sueco Johan Rockström, diretor do Centro Resiliência de Estocolmo, pergunta por que deve-se acreditar em 1% da comunidade científica, que nega o aquecimento planetário por atividades humanas, e não em 99% dela, que o afirma? Será que a esmagadora maioria dos cientistas não faz pesquisa, é irresponsável, inconsequente e mentirosa, enquanto que uma ínfima minoria está certa? Sou tão leigo quanto Rosenfield em questões científicas. Daí ouvir a maioria, mas sempre duvidando e desconfiando.
Por este prisma, os ecologistas não são profetas. São cientistas e leigos que fazem previsões baseadas em pesquisas. Tais previsões podem ser contestadas, infirmadas e corrigidas. Este é o espírito científico, pois ciência não é religião, não deve ter dogmas.
Rosenfield também imputa aos ecologistas depositarem sobre o capitalismo todos os males que afligem o mundo. Não apenas ao capitalismo, mas também ao socialismo real, enfim à modernidade. Assim como Rosenfield assume claramente sua condição de direitista, por que os ecologistas não podem se posicionar à esquerda? Como diz o articulista, os ecologistas são apoiados pelas Igrejas Católica e Luterana, pela CPT, pelo CIMI e pelo MST. Em termos. Estas instituições religiosas e sociais têm limites. Elas apoiam a questão ambiental desde que associada ao ser humano em condição de iniqüidade. Só os ecologistas chegam lá onde ninguém é atingido diretamente: na atmosfera e no fundo dos oceanos. A crise é planetária, e não apenas localizada. Os ecologistas são solidários com os pobres, mas vão mais longe, solidarizando-se com o planeta. Na Cristandade, os franciscanos têm esta posição, bem como uma minoria de outros cristãos.
Qual a estratégia do ecologismo? O socialismo/comunismo, como afirma o colunista? Retorno à critica dos ecologistas ao que chamavam de civilização industrial. Esta não nos serve mais, pois provocou a crise socioambiental da atualidade. Ou será que Rosenfield é capaz de nos apontar alguma época anterior à nossa com mais pessoas pobres e extremamente pobres? Ele pode nos apontar algum momento, nesses 10 mil anos de Holoceno, com uma crise ambiental superior à dos dias atuais?
Em síntese, a crítica de Rosenfield é simplória, simplista, reducionista, dogmática e intolerante. Que ele seja de direita, porém de forma mais inteligente.

 

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