O ATOLEIRO FATAL DO IMPERIALISMO NO ORIENTE MÉDIO

Júlio da Silveira Moreira
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“A lógica dos imperialistas e todos os reacionários do mundo, diante da causa dos povos, é provocar distúrbios, fracassar, voltar a provocar distúrbios, fracassar de novo, até a sua derrota - e eles nunca marcharão contra tal lógica. Quanto aos povos, também é verdade, estes tem que lutar, fracassar, voltar a lutar, fracassar de novo, voltar outra vez a lutar e, assim, até a vitória; esta é a lógica dos povos e igualmente eles jamais marcharão contra tal lógica.”
Mao Tsetung

A cada dia surgem novos fatos que demonstram o fracasso da ocupação dos EUA no Afeganistão e Iraque. Obama dá continuidade à doutrina Bush, porém mais sofisticada pelo que ele próprio chama de “Smart Power”, poder inteligente. Na prática, a única coisa que é nova na política externa do governo Obama é um estágio ainda maior de disputas entre as potências imperialistas, obrigando os EUA a atuar cada vez mais isoladamente, repetindo os “erros” de Bush. Isso ficou exposto no segundo semestre de 2009, quando Obama não obteve o plano apoio da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para aumentar o efetivo de tropas no Afeganistão. Claro, pois a crise econômica dos impérios repercute inevitavelmente na crise militar.

Em 10/12/2009, Obama recebeu o prêmio Nobel da Paz justificando as guerras de rapina que seu país provoca e com uma fraseologia que na verdade sustenta o terrorismo de Estado: “pois que ninguém se engane: o mal existe no mundo, sim. Um movimento não violento não poderia ter freado os exércitos de Hitler. Negociações não conseguirão convencer os líderes da Al Qaeda a entregarem suas armas. Dizer que a força às vezes é necessária não constitui um chamado ao cinismo.”1

Somente em 2009, Obama enviou mais de 30 mil soldados ao Afeganistão. Somente durante os últimos 18 meses do regime de Obama, houve mais soldados mortos e feridos que nos oitos anos anteriores de ocupação no Afeganistão.2

Na revista Rolling Stone de 22 de junho de 2010, o então comandante das tropas de ocupação Stanley McChrystal, abalado pela onda de ações da resistência afegã e pelos fracassos das tropoas, o general fez críticas ao vice-presidente dos EUA, Joe Biden, ao embaixador americano no Afeganistão, Karl Eikenberry, ao assessor de Segurança Nacional, James Jones, e ao enviado especial americano ao Afeganistão e ao Paquistão, Richard Holbrooke.

Em um jantar em Paris, quando foi entrevistado pelo repórter da revista, McChrystal tratava exatamente do isolamento dos EUA na guerra:

“Ele está na França para vender sua nova estratégia de guerra para nossos aliados da OTAN – para manter a ficção, em essência, de que nós de fato temos aliados. Desde que McChrystal assumira a posição, há um ano atrás, a guerra afegã se tornou propriedade exclusiva dos EUA. A oposição à guerra já havia derrubado o governo holandês, forçou a renúncia do presidente da Alemanha e levou Canadá e Holanda a anunciar a retirada de suas 4500 tropas. McChrystal está em Paris para evitar que os franceses, que perderam mais de 40 soldados no Afeganistão, viessem até ele vacilantes.”3

Em seguida, além de fazer comentários jocosos sobre os dirigente dos EUA, McChrystal rechaçou a estratégia contra-terrorista do vice-presidente Joe Biden como míope, dizendo que ela levaria o Afeganistão a um estado de “Caos-istão”. Obama declarou que as suas declarações não seguiram “os padrões que devem ser estabelecidos por um comandante”4, e McChrystal renunciou em 23 de junho. Assumiu o general Petraeus, que já entrou dizendo que a guerra está em um momento crítico.5

Não foram apenas os governos centrais da Holanda e da Alemanha que se abalaram com os fracassos no Afeganistão. Em janeiro, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair (que havia renunciado em julho de 2009) prestou depoimento perante uma comissão que investiga a participação do Reino Unido na invasão do Iraque, acusado de forjar provas para justificar o apoio de seu país à guerra promovida pelos EUA.6 A questão da política externa influenciou as divisões internas no Partido Trabalhista, levando o “novo” primeiro-ministro Gordon Brown a renunciar à presidência do partido no período de eleições7. O fato de que os conflitos no Oriente Médio aticem as crises internas de governos imperialistas é um ponto significativo para análise. Afinal, tudo se trata da crise do sistema de opressão.

Poucos dias antes da renúncia de Stanley McChrystal, o Prof. James Petras já apontava que a guerra no Afeganistão é “a guerra perdida mais longa de todas”8. Aponta que “a resistência nacional afegã, com todas as suas complexas alianças nacionais, regionais e locais, controla o território, o povo e a administração”. As campanhas militares dos EUA interrompem o comércio, as colheitas e os mercados, e os ataques aéreos acabam matando civis que estão celebrando festas religiosas ou comprando nos mercados. Ameaçados, os civis fingem cooperar com as tropas de ocupação, mas apóiam concretamente os militantes da resistência, dando assistência, abrigo, informações e entregando-lhes dinheiro e armas. Tão logo as tropas de ocupação anunciam publicamente um êxito atrás de outro, acabam partindo em retirada com o retorno dos combatentes da resistência. Todas essas questões são colocadas por Petras. Em conclusão, cabe transcrever as dez razões pelas quais, segundo Petras, a resistência afegã triunfará:

“1. A Resistência tem profundas raízes na população – uma comunidade baseada na família e em vínculos culturais e linguísticos que os EUA não possuem nem podem ‘inventar’, comprar, comercializar nem reproduzir mediante seus ‘colaboradores’ afegãos, nem impor por meios propagandísticos.
2. A Resistência tem fronteiras fluidas e um amplo apoio internacional, especialmente no Paquistão, mas sobretudo por parte de outros grupos islâmicos anti-imperialistas que provêem armas e voluntários, e participam ativamente nos ataques às vias de transporte logístico aos soldados EUA-OTAN no Paquistão. Esses grupos também exercem pressão sobre os regimes clientelistas dos EUA no estrangeiro, tais como Paquistão, Arábia Saudita, Iêmen e Somália, abrindo assim múltiplas frentes.
3. Uma ampla infiltração e apoio passivo, ativo e voluntário da Resistência entre os soldados e policiais afegãos recrutados e treinados pelos EUA se convertem trabalhos cruciais de inteligência sobre os movimentos de tropas. As deserções e o absenteísmo socavam a ‘competência militar’.
4. O alcance e a amplitude da atividade da Resistência superam as possibilidades atuais dos exércitos imperiais e os obriga a depender das força de segurança afegãs, piedosos em matar seus próprios irmãos, sobretudo quando as operações estão dirigidas a comunidades em que vivem parentes ou o mesmo grupo étnico.
5. Os aliados da Resistência são mais leais, dignos de confiança e menos corruptos, já que compartilham profundas crenças. Os aliados dos EUA só são leais devido às gratificações monetárias efêmeras que recebem e à presença temporária das forças militares estadunidenses.
6. A Resistência é atrativa para o povo porque representa o retorno da lei e da ordem à vida cotidiana presentes antes da invasão desestabilizadora. A promessa dos EUA de que traria consquências positivas ao final de uma guerra exitosa não tem nenhuma ressonância popular depois de uma década interminável de ocupação destrutiva.
7. Os EUA não têm valores comparáveis com o apelo tradicionalista-nacionalista-religioso da Resistência para a grande maioria das vilas, pequenas cidades e população rural deslocada.
8. O apoio da Resistência aos iraquianos, aos palestinos e outras forças anti-imperialistas, tem um apelo positivo entre o povo afegão que tem sofrido os resultados destrutivos das guerras empreendidas no Iraque e encomendadas no Paquistão, Somália e Iêmen. O ataque israelense apoiado pelos EUA ao Líbano e ao barco que levava ajuda humanitária à Palestina, e a presença visível de militantes sionistas no governo dos EUA causam rechaço nos líderes afegãos mais esclarecidos politicamente.
9. Os afegãos têm, devido à força do costume, maior resistência à ocupação militar dos EUA e o povo estadunidense, que tem necessidades mais urgentes, e que o próprio exército, que tem crescentes compromissos na região do Golfo.
10. A Resistência afegã não costuma matar civis em combates, já que os soldados dos EUA e OTAN são claramente identificados. O contrário não acontece. Os afegãos moradores das vilas ocupadas são submetidos a assassinatos por ‘Forças Especiais’ e bombardeados. Nessas circunstâncias, os civis sofrem os mesmos assaltos militares que os combatentes da Resistência.”9

9 Idem.