Ilusão governista é caso de terapia

Disputa eleitoral acirrada reforça dilema da esquizofrenia petista, que precisa bater na direita para amealhar apoio popular e corre o risco de perder o apoio da direita – empresarial, partidária e oligárquica – que deu força para o partido nas últimas eleições.

A militância governista anda a beira da histeria. Depois dos protestos de 2013, quando o aparelho chapa-branca do lulismo perdeu o monopólio das manifestações populares; depois das várias greves comandadas pelas bases das categorias de trabalhadores à revelia de direções sindicais neopelegas; depois que a juventude rebelde inclusive da nova classe “C” decidiu enfrentar o aparato repressivo do perene “Estado Autoritário de Direito”; depois de perceber que boa parte dos eleitores promete descarregar sua fúria em abstenção eleitoral e nos votos brancos e nulos; depois que setores da classe média branca mandaram a presidente da República “tomar no c...” em plena solenidade de abertura da Copa do Mundo – o inferno astral do governismo parece não ter mais fim, é mesmo de deixar até os mais sensatos na iminência de uma crise de nervos.

A direita elitista e neoliberal reproduz o mote de sempre no mapa político institucional, aposta no caixa da campanha e no tradicional fisiologismo para minar as bases do governismo – montadas em grande parte exatamente com as mesmas práticas e contingentes aderentes. Não é mera coincidência que boa parte dos apoiadores da Ditadura Militar se salvou na Nova República de Tancredo e Sarney, cerrou fileiras com Collor de Mello, se ajeitou nos dois mandatos de FHC e depois entrou aos bandos na aliança trabalho-capital da chapa Lula e José Alencar. Essa mesma direita – composta por grandes empresários e banqueiros, partidos conservadores, ruralistas do agronegócio, acadêmicos e jornalistas empenhados na defesa do sistema dominante, vive agora a tentação de embarcar em outras opções eleitorais que se propõem a servir os donos do poder.

O fisiologismo alimenta o caos momentâneo, cria o período de confusão generalizada, mas segue uma lógica implacável fundada em dois pilares sagrados, o da sobrevivência sob qualquer situação e o de levar vantagem sempre, não importa a cor da bandeira, o tipo de discurso ou a origem dos atores. O que vale mesmo é a preservação da espécie na esfera da máquina pública, que alimenta os bons negócios privados. Portanto, o happening partidário que mistura coligações mais extravagantes nos níveis estaduais e nacional, tem data certa para se acomodar, quando ficar evidenciado qual opção será premiada com o gerenciamento do sistema. O adesismo pode acontecer antes ou depois das eleições. De qualquer maneira, é certo que as mesmas turmas de aderentes que dominam o cenário político seguirão compostas para outro período de butins, até o calendário exigir novo ato de encenação democrática.

No jogo fisiológico nem sempre quem adere mais rapidamente terá as maiores vantagens, será o grande beneficiado. Estamos cansados de ver, no Brasil, que a arquitetura da resistência, construída de maneira pensada, pode produzir mais ganhos do que a mera adesão precipitada e voluntariosa. Temos inúmeros casos de sucesso nesse tipo de empreitada, desde o vereador que cria projeto para negociar a não transformação do projeto em lei, até o do jornalista que faz oposição para valorizar o passe na hora da adesão. Todos cuidam de seus interesses acima dos princípios éticos, dos valores políticos e dos programas partidários. Todos estão acima do interesse coletivo, do bem comum e da sociedade. Na zoeira do quadro atual é impossível ter alguma campanha com o mínimo de conteúdo e de proposta política se todos os matizes ideológicos dos setores hegemônicos estão juntos e misturados.

Marketing da mudança

Será que alguém imagina mesmo que a opção eleitoral definida nas urnas será capaz de conduzir o Brasil a algo diferente, melhor, com mudanças significativas na correlação das forças políticas e na construção de uma sociedade mais justa, mais democrática e mais igualitária? Se as eleições pudessem produzir um resultado desse tipo com certeza já teríamos mudado o país há muito tempo, pelo menos desde os anos de 1950 e 1960, em eleições diretas e democráticas. Tivemos um governo progressista com João Goulart, que foi derrubado com o golpe de 1964; depois tivemos 21 anos de Ditadura Militar com boa dose de capitalismo de Estado e endividamento do país com as agências e bancos internacionais. Nem bem saímos do regime dos generais e embarcamos no modelo neoliberal de Collor, FHC e Lula, com o arregaçamento do país para o capital financeiro e os grupos estrangeiros. Tentamos evitar o genocídio dos pobres com migalhas sociais, mas não conquistamos direitos para os trabalhadores e nem evitamos a contínua e brutal concentração da renda e da riqueza – fonte maior de mazelas e iniquidades.

Do fim do regime militar para cá tivemos governos do PMDB, PRN, PSDB e PT, todos eles em composição com quase todas as outras legendas do centro-esquerda, do centro e da direita – com a exceção dos partidos de esquerda refundados ou nascidos depois de 1985, entre os quais o PCB, PSTU, PCO e PSOL. O leque dos discursos e das promessas, nos últimos 30 anos, foi o mais amplo de todo o período republicano, mas em termos concretos tudo seguiu na mesma toada de favorecimento e de atendimento preferencial dos grupos sociais e das corporações já detentores de inúmeros privilégios. De que adianta acenar com mudanças – última moda no marketing atual – se as forças efetivamente interessadas nas mudanças não integram ou não predominam nas várias opções eleitorais do espectro conservador?

As poucas e mínimas diferenças entre as principais candidaturas da ordem dominante apenas funcionam para distrair a atenção dos eleitores sobre o que elas têm em comum – esse sim o elemento revelador da essência contida em cada proposta. Destaca-se a diferença do detalhe para não revelar a semelhança do todo, que é o elemento unificador de todos os projetos de preservação do status quo. O discurso da mudança, entendido como aquele que é portador de um projeto de redenção do povo brasileiro contra todos que o oprimem e o exploram, vem sendo ba
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alizado desde as eleições de 1989 (a primeira no pós-ditadura), tanto por vencedores como por derrotados. As tais mudanças nos discursos nunca são traduzidas em práticas de efetivas transformações. Ao contrário, em vários aspectos, especialmente em relação aos direitos dos trabalhadores, os governos eleitos com promessas de mudanças produziram retrocessos graves em muitas conquistas sociais. E quase nada avançaram nas demandas populares históricas por saúde, educação, moradia, transportes e empregos dignos.

O quadro atual fortemente marcado pelo fisiologismo e pela descaracterização programática da grande maioria dos partidos, apenas reforça que o sistema político brasileiro atingiu um grau de autofagia jamais visto na história republicana do país. Tal surubada partidária favorece evidentemente as forças políticas dos grupos dominantes, aqueles que já sabem que a sua hegemonia não corre risco nem ameaça, que, independentemente de quem ganhar as eleições, todo o esquema de mando será rapidamente recomposto – com as mesmas forças aderentes que embarcaram em “diferentes” projetos nos últimos 25 anos da nossa incipiente democracia. Essas forças sabem muito bem que, com discurso de mudança ou não, tudo continuará como sempre, sob o seu controle.

Diante dessa babel tropical, parece ser a mais correta e importante tarefa – dos pensadores e militantes das esquerdas, dos movimentos sociais populares, das classes trabalhadoras e de todos aqueles que almejam construir um Brasil mais justo, democrático e igualitário – articular, com a convergência dos vários grupos e correntes, o trabalho de formação e organização de base, o debate de projetos e programas para a criação de instrumentos de luta que façam avançar as forças políticas interessadas e dispostas a realizar mudanças verdadeiras, radicais e profundas, na sociedade brasileira. Esse é o papel de quem não se presta à adesão, não se rende ao fisiologismo e ainda acredita que o socialismo é a grande obra que supera o capitalismo. Quem se perde na ilusão do momento não consegue vislumbrar o caminho do amanhã.

Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.

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