Chaves para entender Ayotzinapa - O disciplinamento por meio de massacres no México e o #yamecansédelmiedo

Como cada ano há séculos, no dia dois de novembro foi comemorado no México o Dia dos Mortos, mas nesta ocasião, as cerimônias e altares não foram destinados a figuras famosas da arte popular. As canas, as laranjas, os tejocotes, as velas, o incenso, as caveirinhas de açúcar e as flores de cempaxúchitl não foram oferecidos a finados famosos. As oferendas foram dedicadas aos estudantes normalistas desaparecidos que hoje contam a história de um México do qual apenas está se começando a falar.

Guerrero é um estado pobre, cheio de desigualdades, marcado pela violência e ameaçado pelas redes de traficantes de drogas que o atravessam. O estado tem, entre suas principais cidades Acapulco, onde cantantes e atores residem em propriedades de luxo. Guerrero, porém, não é somente Acapulco: existem também outros municípios, reconhecidos pela beleza do seu artesanato ou pela abundância na produção de manga. E tem mais: os guerrerenses tem demonstrado possuir a força que move um surpreendente espírito de resistência. Como experiência pioneira na América Latina, os cidadãos de Guerreiro organizaram-se em polícias comunitárias. Esses grupos são policiais civis auto-organizados, formados por vizinhos, membros das comunidades rurais e familiares que, muito a seu pesar, consideram que a seguridade proveniente da polícia municipal ou estadual é nula. Assim, onde não há Estado, há justiça popular.
No Estado de Guerrero, perto da cidade de Iguala, num pequeno povoado, está situada a Escuela Normal Rural Isidro Burgos. Ayotzinapan significa, em língua náhuatl, “o lugar das tartarugas”. A escola existe há décadas e, como outras escolas mexicanas do mesmo tipo, é consequência da Revolução Mexicana, que procurou difundir o ensino básico entre os setores camponeses, históricamente condenados ao analfabetismo. Na Escola Normal estudam rapazes jovens mobilizados pelo entusiasmo de se dedicarem um dia ao ensino de crianças que moram longe da cidade, em situação de precariedade.
As escuelas normales no México têm uma longa tradição de luta, pois têm sido um bastião da memória nas lutas populares. Ainda, atúam de maneira articulada, cientes de que na sua resistência reside a continuidade da formação das crianças que moram em áreas rurais, pelas que o Estado mostrou tanto desinteresse os últimos anos, reduzindo progressivamente os recursos a elas destinados, até seu empobrecimento.
A realidade é que, no passado 26 de setembro de 2014, um grupo de estudantes da escola normal de Ayotzinapa foi violentamente reprimido. Seis estudantes foram assassinados, 25 resultaram com ferimentos e 43 estão, até hoje, desaparecidos.
Os estudantes iam à cidade de Iguala de ônibus com o propósito de coletar dinheiro para poderem se trasladar depois à Ciudad de México e chegar lá no dia 02 de outubro, pois justamente nessa data se comemora no México a Massacre de Tlatelolco de 1968, repressão militar que o Governo do então presidente Díaz Ordaz ordenou contra uma enorme multidão de estudantes de ensino médio e universitário, reunida na Praça das Tres Culturas.
Naquela ocasião, a manifestação era contra o Governo autoritário e em demanda do respeito aos direitos humanos. Hoje, como então, o Estado atuou mostrando seu carácter mais disciplinário. Tanto os estudantes daquela Praça das Três Culturas de 1968 como os estudantes normalistas de Ayotzinapan em 2014 foram baleados por homens uniformados. Isso significa que existiu uma ordem prévia e que ela veio da força pública. Dispararam-lhes a vontade, sem prévio aviso, sabendo as claras quem eles eram. Julio César Fuentes Mondragón, um dos jovem normalistas, foi torturado até os limites da dor, seus olhos e unhas foram-lhe arrancados e seu rosto foi esfolado.
Nesse 26 de setembro, María de los Ángeles Pineda de Abarca, presidenta do DIF (Sistema Nacional de Defensa Integral de la Familia), entregou seu relatório de atividades, augurando sua próxima candidatura a Prefeita de Iguala. Entretanto, José luis Abarca, seu marido e atual prefeito do município, está ligado a acusações de corrupção, pois passou de ser um humilde vendedor de chapéus para ser joalheiro de uma importante cadeia.
Os 43 estudantes em situação de desaparecidos foram capturados pela Polícia Municipal de Iguala no meio do tiroteio e – dizem – entregados aos traficantes do cártel Guerreros Unidos. Dias após a desaparição, o Governador do Estado ligou para o Prefeito Abarca, quem, sem prestar declaração, fugiu com a sua esposa. Com o passar dos dias, a esposa do Prefeito de Iguala foi identificada como financiadora do grupo de traficantes, foi dada uma ordem de detenção e o casal foi achado em Cidade do México, onde foi apreendido. Pouco tempo depois, foi detido Sidronio Casarrubias, o suposto líder do cártel Guerreros Unidos, quem prestou declaração junto com outros três traficantes. Com posterioridade a essa detenção, o Procurador Geral da República, Jesús Murillo Karam, deu uma coletiva de imprensa, afirmando que, segundo fontes do Estado, foram achados no depósito de lixo municipal de Cocula, próximo à cidade de Iguala, sacos com restos humanos. De acordo com os depoimentos dos detidos, os 43 estudantes teriam sido queimados vivos entre madeiras e plásticos, depois desmembrados, seus restos guardados em sacos de lixo e jogados no rio. O procurador afirmou que os restos achados seriam enviados à Áustria para serem analisados em laboratório; no entanto, os estudantes continuariam sendo considerados oficialmente “desaparecidos”.
Poucos dias depois das declarações públicas do Procurador, soube-se por meio de uma pesquisa independente desenvolvida pelo Equipo Argentino de Antropologia Forense, no dia 11 de novembro de 2014, que as 24 amostras analisadas não correspondem ao ADN dos estudantes normalistas.
Em virtude do acúmulo de notícias que vão gerando cada vez mais comoção, foram realizadas em Cidade do México ao menos cinco marchas multitudinárias, que atingiram a cifra de 25 mil manifestantes. Os lemas das manifestações foram mudando. De #yamecansédelmiedo ao #fueelEstado. O certo é que os familiares dos estudantes asseguram que, enquanto não existirem provas concretas: “vivos foram levados, vivos os queremos”.
Até hoje, nem o Procurador da República nem o Presidente assumiram a responsabilidade do Estado nos fatos. Cada dia, nas redes sociais e nas mobilizações sociais a versão que o Estado deu sobre o destino dos estudantes é questionada, e se exige a renúncia do atual Presidente, Enrique Peña Nieto.
Peña Nieto não somente está envolvido em diversas acusações, como a irregularidade no processo eleitoral que o levou a ocupar a Presidência da República, mas também foi acusado como responsável pelos chamados “incidentes” de São Salvador Atenco em 2006. O então Governador do Estado do México teria dado a ordem de reprimir camponeses do Frente de los Pueblos en Defensa de la Tierra, organização simpatizante do Exército Zapatista de Liberação Nacional, deixando dois mortos, torturados e varias mulheres estupradas.
Sob o lema: “¡Atotzinapa vive, o Estado morreu!”, a sociedade mexicana está se movimentando. Com a certeza de que #fueelEstado, os jovens denunciam sua verdade. #yamecansédelmiedo é a frase que levanta os estudantes da América Latina e convida a não esquecer dos estudantes desaparecidos. A busca dos 43 continúa, porque é revoltante e hoje, inadmissível, que o Estado possa declarar, impunemente, mais uma vez que, em democracia, existem “desaparecidos”.

*Professora da Universidade Federal da Integração Latino – Americana (UNILA). Coordenadora do Curso de Ciência Política e Sociologia – Sociedade, Estado e Política na América Latina.

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