Vamos fazer uma selfie?

Matéria de um jornal carioca tem a manchete: "Pedestres pedem morte de jovens negros que brigavam na zona sul". Essa matéria é o retrato, cheio de detalhes, do que grande parte da população vem deixando escapar sobre o que pensam, o que dizem e o que fazem. Todo esse comportamento de vingança, isso não é justiça, é vingança mesmo, sai de um sentimento que ninguém se debruça para compreender de onde ele vem. A opinião pública se manifesta agressivamente e de forma imediata, não querem saber como foi, as justificativas, NADA. O senso comum manda bater, arrebentar e matar.

O cenário do fato é perfeito para esse tipo de incidente: Jovens negros tumultuam em frente a um Shopping na Zona Sul. Serve até de manchete. Quem passava por ali não viu na cena um comportamento comum entre adolescentes estudantes, como acontece em todas as escolas de todos os níveis, mas eram negros e estavam em frente a um dos templos de consumo por onde desfilam os pés privilegiados de uma gente que nunca se importou, nunca esticou o pescoço para ver o que se passa do outro lado do muro do castelo.

Segundo a matéria, os pedestres pediram para que os policiais assassinassem os rapazes. Eu não estava lá, mas prefiro acreditar que isso foi exagero, ou que algum gaiato tenha gritado isso da janela de um ônibus e o repórter registrou. Ou será que realmente chegamos a um ponto em que a vida e a dignidade perderam valor?

No meio do “mata, mata, pode matar” (faltou o “eu te pago pra isso”), “tem que bater mesmo” e “isso é raça ruim”, um senhor, não se sabe quem, mas deve ser um vingador frustrado, agrediu os jovens já dominados pelos policiais. Não tenho a menor dúvida de que tinha alguém ali, mais de um até, com o celular pronto para uma selfie.

Na delegacia, a mãe de um dos meninos, estava mais preocupada, com razão, com a repercussão no meio dos traficantes, que poderiam, conforme a lei do tráfico, punir quem pratica roubos na região, do que com o quase linchamento de seu filho e das agressões racistas. Esse é o quadro em que vivemos. O respeito, o senso crítico, a solidariedade, a delicadeza e o humor estão descendo pelo ralo, que nem os vazamentos da CEDAE pela cidade.

Eram adolescentes fazendo algazarra, mas a falta de sensibilidade, a desconfiança na justiça, a massificação do crime na mídia e a falta de políticas educacionais de base, estão transformando a nossa cidade maravilhosa em um cenário de bárbaros.

Não vai demorar muito para o Maracanã se transformar na Arena Coliseu, teremos ali linchamentos patrocinados pelos ricos e poderosos. Apoiadores da redução da maioridade penal e de outras medidas instantâneas e simplistas chegarão nos trens da Supervia, do Metrô, os estacionamentos ficarão lotados enquanto a luxúria de uma sociedade hipócrita se lambuzará no sangue de uma gente que só precisa de oportunidade.

Ricardo Mezavila é escritor

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